Formar para ganhar… ou ganhar para formar?
Recentemente li uma reflexão atribuída a Dennis Bergkamp que me fez parar para pensar. A ideia era simples, mas profundamente relevante: a única equipa que tem a obrigação de jogar para ganhar é a equipa sénior. Todas as restantes equipas existem para preparar jogadores para lá chegar.
Numa época em que o resultado parece dominar grande parte das conversas sobre futebol, esta frase assume uma importância especial. Porque nos obriga a questionar algo fundamental: qual é, afinal, a verdadeira missão da formação?
À primeira vista, a resposta parece evidente. A formação existe para desenvolver jogadores. No entanto, basta observarmos o futebol jovem durante alguns fins de semana para percebermos que nem sempre é isso que acontece. Olhamos para classificações, celebramos campeões, contamos vitórias e derrotas, avaliamos treinadores pelos resultados e reproduzimos análises muito semelhantes às do futebol profissional.
Muitas vezes medimos o sucesso da formação através de critérios que pouco têm a ver com a sua verdadeira finalidade.
Competir é importante. Os jovens devem aprender a lidar com a pressão, com a responsabilidade e com a exigência de procurar vencer. O futebol sem competição perderia uma parte essencial da sua identidade. Mas existe uma diferença enorme entre utilizar a competição como ferramenta de desenvolvimento e transformar a vitória no objetivo absoluto.
Quando isso acontece, o processo começa a ficar comprometido.
Muitas vezes vemos equipas de formação construídas para ganhar imediatamente. Jogam os atletas fisicamente mais desenvolvidos. Reduz-se o espaço para a criatividade. Limita-se a margem para o erro. Procura-se o resultado do próximo sábado em vez da evolução do jogador que poderá chegar à equipa principal dentro de alguns anos.
A questão é simples: o que é mais importante para um clube? Ganhar um campeonato de sub-15 ou formar um jogador capaz de integrar a equipa principal? Ganhar um torneio internacional de sub-17 ou preparar um atleta para representar uma seleção nacional?
A resposta parece óbvia. No entanto, nem sempre as decisões tomadas no dia a dia refletem essa prioridade.
Talvez porque todos gostamos de ganhar. Jogadores, treinadores, pais e dirigentes. E isso é perfeitamente natural. O problema surge quando a necessidade de vencer passa a condicionar aquilo que deveria ser o principal objetivo da formação: desenvolver pessoas e atletas.
Muitas vezes a pressão não nasce dentro das quatro linhas. Nasce nas bancadas, nos grupos de mensagens e nas comparações permanentes entre clubes, equipas e gerações. Nasce, frequentemente, na ansiedade dos adultos relativamente ao futuro das crianças.
Os pais querem ver os filhos jogar, evoluir e vencer. É natural. O problema surge quando cada convocatória, cada substituição ou cada resultado passa a ser interpretado como decisivo para o futuro. A formação exige tempo, paciência e capacidade para compreender que o desenvolvimento raramente segue uma linha reta.
A história do futebol mostra-nos que o talento não evolui ao mesmo ritmo para todos. Jovens que se destacam cedo nem sempre chegam mais longe, enquanto outros revelam o seu potencial mais tarde. Por isso, avaliar atletas apenas pelos resultados imediatos continua a ser um erro frequente.
Também os treinadores vivem um dilema difícil. Sabem que devem preparar jogadores para o futuro. Mas continuam muitas vezes a ser avaliados através da classificação.
E quando um treinador é avaliado pelos resultados, tende naturalmente a tomar decisões orientadas para ganhar. Não porque seja menos competente ou menos comprometido com o desenvolvimento. Simplesmente porque é humano.
É aqui que surge uma das maiores responsabilidades da liderança. Os dirigentes devem criar culturas que valorizem o desenvolvimento acima do resultado imediato. Devem definir critérios claros sobre aquilo que consideram sucesso e garantir que toda a organização compreende essa visão.
Uma academia não deve medir a sua qualidade apenas pelos troféus conquistados. Deve medir-se pelo número de jogadores promovidos, pela qualidade dos seus processos, pela evolução dos seus atletas e pelos valores que transmite diariamente.
Infelizmente, continuamos muitas vezes a confundir equipas vencedoras com processos vencedores. E nem sempre são a mesma coisa. Existem equipas jovens que ganham muito e formam pouco. E existem equipas que não conquistam títulos, mas que produzem jogadores preparados para competir ao mais alto nível.
As melhores academias do mundo não vivem obcecadas com títulos de formação. A sua prioridade está no desenvolvimento individual dos atletas, na aprendizagem e na criação de ambientes onde os jovens possam crescer sem medo de errar.
Porque o erro faz parte do desenvolvimento. Nenhum jogador aprende sem falhar. Nenhum atleta evolui sem enfrentar dificuldades. Nenhum talento se desenvolve plenamente se viver condicionado pelo receio permanente de cometer um erro.
Na formação, errar não deve ser encarado como um problema. Deve ser encarado como uma oportunidade de crescimento.
Talvez seja precisamente esta a maior diferença entre formar para ganhar e ganhar para formar. Quem forma para ganhar procura resultados imediatos. Quem ganha para formar utiliza a competição como uma ferramenta de aprendizagem e evolução.
Porque a formação não serve apenas para criar jogadores. Serve para formar pessoas. Serve para ensinar disciplina, desenvolver responsabilidade, criar hábitos de trabalho e transmitir valores que acompanharão os jovens ao longo da vida.
Quando falamos de formação, não estamos apenas a discutir o futuro de um clube. Estamos a discutir o futuro do futebol português.
Os jogadores que hoje treinam nos escalões jovens serão os profissionais de amanhã e, para alguns, os futuros internacionais portugueses. Cada decisão tomada numa academia tem impacto muito para além do próximo fim de semana. Tem impacto na qualidade dos nossos campeonatos, na competitividade dos clubes e na capacidade de Portugal continuar a afirmar-se como uma referência mundial na formação de talento.
Ganhar é importante. Ninguém entra em campo para perder. Mas na formação a vitória deve ser vista como consequência do desenvolvimento e não como a razão da sua existência.
Por isso, quando olhamos para um campeonato jovem, a pergunta mais importante não deve ser quem venceu no último fim de semana. Deve ser quem estará preparado para competir ao mais alto nível daqui a cinco ou dez anos.
É aí que a formação revela o seu verdadeiro valor. Porque, no futebol de formação, as vitórias mais importantes surgem anos mais tarde, quando um jovem está preparado para representar um clube, uma seleção ou a melhor versão de si próprio.