‘Flic-flac’ canadiano
Há circunstâncias que não se percebe que não estejam devidamente protocoladas entre os países organizadores do Campeonato do Mundo e a FIFA.
E, desta vez, nem tem a ver com os Estados Unidos que, por razões de alegada ‘segurança nacional’, barrou a entrada ao árbitro somali Omar Artan, mas com o Canadá, que depois de ter recusado visto a Thomas Partey, do Gana de Carlos Queiroz, por este se encontrar acusado de casos de violência sexual, no Reino Unido e não ter referido esse facto no formulário do visto, numa primeira decisão impediu o marfinense Elye Wahi, do Nice, que jogou na primeira jornada do grupo, na vitória da sua equipa, em Filadélfia, por 1-0, frente ao Equador, de aceder a solo canadiano para defrontar amanhã a Alemanha, em Toronto, virando o bico ao prego a seguir.
Wahi é investigado, em França, num caso de manipulação de apostas.Estamos perante um campo de areias movediças, que incide sobre futebolistas que não foram (ainda?) condenados, e que deviam gozar da presunção de inocência.
A FIFA, que agora teve necessidade de puxar dos galões, devia ter tornado condição ‘sine qua non’ que nenhuma seleção ficaria sem qualquer jogador, ou algum árbitro seria impedido de aceder aos três países organizadores do Mundial. Imagine-se que os futebolistas em causa eram Cristiano Ronaldo (que durante anos lidou com um processo judicial nos Estados Unidos, do qual foi ilibado), Messi, Mbapée, Vinícius ou Lamal, para falar dos nomes mais sonantes, que eram impedidos de jogar uma partida decisiva para as suas seleções. A credibilidade do Mundial ia por água abaixo e a FIFA entraria numa crise de autoridade sem precedentes.E nem pode sequer invocar-se surpresa, porque de acordo com a mesma lei canadiana, agora aplicada a Partey e revertida com Wahi, o basquetebolista Miles Bridges, dos Charlotte Hornets, foi impedido de entrar no Canadá, em 2023, para defrontar os Toronto Raptors, por não ter contestado, nos Estados Unidos, uma acusação de violência doméstica.
Em tempo devido, creio que teria sido prudente, por parte da FIFA, garantir a estadia nos países organizadores, durante o tempo necessário para os jogos, a todos os futebolistas e árbitros, sem exceção. Porque só assim é defendida a integridade da competição.
* Eusébio da Silva Ferreira jogou no México ( CF Monterrey), Estados Unidos ( Boston Minuteman, Las Vegas Quicksilver e New Jersey Americans) e Canadá ( Toronto Metros- Croatia). O Mundial de 2026 joga- se onde o ‘ King’ espalhou o que lhe restava de magia…