Carlos Costa, fisioterapeuta português de Djokovic fala de atleta único
Carlos Costa, fisioterapeuta português de Djokovic fala de atleta único
Adicione A BOLA às suas preferências do Google

Fisioterapeuta de Djokovic é português: «Nunca vi ninguém como ele!»

Carlos Costa revela a A BOLA que a intensidade, a exigência e a busca incessante pela perfeição são traços diferenciadores do tenista. Revela pormenores sobre o trabalho com o recordista de Grand Slam, descrevendo um atleta de uma dimensão única

Com uma vasta carreira que inclui trabalho com tenistas como Ana Ivanovic, Tommy Haas, Kevin Anderson, Dominic Thiem e Andrey Rublev, além da ligação à seleção nacional na Taça Davis, o fisioterapeuta português de Novak Djokovic, Carlos Costa, confessa que nenhum atleta o impressionou tanto como o sérvio vencedor de 24 títulos do Grand Slam. 

«Nunca tinha visto ninguém como Novak Djokovic. A visão, o que põe todos os dias no court e a intensidade. Já tinha visto algo parecido, mas nunca com a consistência do Djokovic», afirmou o português no podcast ‘Diário de um Treinador’, de Frederico Marques, antigo treinador de João Sousa, em A BOLA TV.

Djokovic não só exige o melhor de si próprio, como também mantém padrões incrivelmente elevados para aqueles que trabalham com ele. Isto demonstra, em parte, porque é que o sérvio é considerado um dos maiores tenistas e um dos talentosos e desportistas mais ganhadores de todos os tempos.

Carlos Costa presta assistência à Novak Djokovic (foto D.R.)

A exigência do antigo número um mundial manifesta-se nos mais ínfimos detalhes. Djokovic questiona constantemente a equipa técnica, procurando sempre otimizar a preparação e a recuperação. «Ele vai ao detalhe. O tempo que demoramos a dar-lhe a toalha… se há alguma coisa que não está programada, há atrito», explicou Costa.

O sérvio, de 39 anos, não se limita a fazer perguntas; testa ativamente a equipa para garantir que estão a explorar as melhores soluções. «Ele chega ao ponto de criar testes dentro da equipa para perceber se estamos mesmo a procurar as melhores estratégias de recuperação, a fazer os melhores tratamentos», revelou o fisioterapeuta. Um exemplo disso é a atenção que Djokovic presta aos seus rivais, como quando questionou o staff técnico «por que razão o Sinner faz trabalho ocular e nós ainda não fazíamos».

Novak Djokovic é um fenómeno de longevidade ao mais alto nível

Esta mentalidade obriga a uma aprendizagem contínua por parte da equipa. «Estou sempre atualizado o mais possível. Vou tirando cursos com fisioterapeutas de outras modalidades, vou beber conhecimento a outras modalidades», disse Costa. Ainda assim, Djokovic está sempre um passo à frente. «Por vezes, ele vê vídeos ou vê no ginásio outros jogadores a fazerem outras coisas e está sempre à procura de saber por que razão não fazemos o mesmo. E a nossa resposta não pode demorar muito! Estamos sempre numa busca constante por melhorar».

«Novak treina como joga»

A intensidade não se reserva para a competição. Segundo o português, os treinos de Djokovic são encarados com a mesma seriedade de um encontro oficial. «A intensidade que o Novak coloca em competição é a mesma que mete nos treinos. E creio que é isso que fez a diferença na carreira dele e o que lhe permite a extraordinária longevidade, manter-se ainda ao mais alto nível», define Carlos Costa. «Ele dá muita importância à recuperação e à flexibilidade. Os treinos são como encontros [competição]. Nunca vi isso em qualquer outro jogador. É o mesmo nível de intensidade e de cuidado com tudo».

O foco de Djokovic é único

Carlos Costa atribui parte dessa mentalidade à cultura sérvia e a uma personalidade invulgar. «Os sérvios têm uma intensidade diferente. Às vezes, a maneira como se expressam é mesmo cultural», notou, acrescentando que Djokovic «tem uma personalidade mais forte do que o normal». É essa combinação que, na sua opinião, «faz dele quem é», permitindo-lhe transportar essa mentalidade «para outro nível técnico e tático».

Recordando o primeiro contacto com o tenista, em dezembro último, Costa ficou impressionado com o constante foco na evolução. «A primeira vez que fui ter com ele, em dezembro, fiquei admirado com o que se estava a passar. Ele tinha acabado de contratar um especialista em biomecânica para melhorar o serviço e a direita». O trabalho foi imediato e focado: «Trabalharam durante uma semana coisas específicas para que ele pudesse melhorar ainda mais. Ele está sempre à procura de melhorar, está sempre a contactar com treinadores para nunca parar de evoluir e de estar o mais atualizado possível».

Esta busca pela excelência foi também visível no foco para a conquista do ambicionado título olímpico em Paris-2024. Viktor Troicki, atual treinador do atual n.º 12 do ranking mundial, já tinha confidenciado a Carlos Costa que «Novak foi sempre de outra categoria». O fisioterapeuta português acrescenta que o sérvio leva a preparação ao extremo, fazendo trabalho extra que a própria equipa técnica desconhece. «Faz mobilidade sozinho, faz coisas fora dos treinos que nós nem sabemos».

Novak Djokovic venceu 24 títulos do Grand Slam

A medalha de ouro conquistada em Paris foi uma das maiores conquistas da carreira de Novak Djokovic, um feito que, segundo Carlos Costa, ilustra perfeitamente a dedicação do sérvio aos objetivos. «Quando meteu na cabeça que tinha de ganhar a medalha de ouro, tudo foi planeado ao pormenor. Ele vivia para aquilo, desde que acordava até se deitava», recorda.

«Ele sente que ainda voltará a vencer»

Carlos Costa testemunha a exigência que a Djokovic se impõe. As derrotas, especialmente nos grandes torneios, continuam a ser difíceis de digerir. «O Djokovic vai ao limite a cada encontro. Para ele, não ganhar o US Open ou não chegar longe é uma grande derrota. Não está habituado a isso e é uma grande frustração», explica Carlos Costa.

Novak Djokovic, 39 anos

Esta frustração nasce da convicção que o sérvio ainda mantém sobre a capacidade de vencer os maiores títulos do ténis mundial. «Na cabeça dele, ele ainda sente que pode ganhar os grandes títulos e a verdade é que fez final da Austrália e meias-finais de Wimbledon», sublinha Costa.

Nesta fase mais avançada da carreira, Djokovic parece ter desenvolvido uma nova forma de lidar com os desaires. Em vez de regressar de imediato ao trabalho, o tenista opta por fazer uma pausa para recuperar. «Normalmente, ele faz pausas após as derrotas nesta fase da carreira. Reflete, faz um reset e, quando depois volta, volta a full», refere.

Apesar da conhecida exigência consigo mesmo, existe um lado do tenista que Carlos Costa considera menos conhecido: a generosidade para com os colegas de profissão. O português destaca que Djokovic não hesita em partilhar o conhecimento que acumulou ao longo de mais de duas décadas no circuito profissional.

Costa afirma que os adeptos e os críticos «não fazem ideia» do esforço que Djokovic dedica a ajudar os jogadores mais jovens do circuito ATP. «Adora ajudar os mais jovens. Muitas vezes, para os treinos para dar conselhos a outros jogadores, mesmo do circuito», afirma, acrescentando exemplos concretos. «Há pouco tempo, o Auger-Aliassime pediu-lhe uns conselhos e ele deu imediatamente. Com o Fonseca, a mesma coisa. As pessoas não têm noção do quanto ele ajuda outros jogadores», conclui.

A iniciar sessão com Google...