Rodrigo Mora pode vir a ser um dos melhores do mundo — Foto: IMAGO
Rodrigo Mora pode vir a ser um dos melhores do mundo — Foto: IMAGO

FC Porto e Sporting: quando um 'não assunto' se torna um problema

Mora deixou marcas internas e ninguém quer ficar com o ónus de ter sido o responsável pela venda. Já Varandas sentiu necessidade de justificar o motivo pelo qual não avançou para a contratação de Palhinha. Mercado de Valores é o espaço de opinião de Diogo Luís, antigo jogador de futebol, economista e comentador

No futebol existem vários caminhos que nos podem levar à vitória. Cada clube define a sua estratégia e a forma como a coloca em prática. Não tenho dúvidas de que quem dirige os clubes pretende ter sucesso. Sendo o futebol um desporto tão emocional, há decisões que os líderes tomam em consciência, mas que os deixam desconfortáveis. Nestes casos, um não assunto pode tornar-se em algo difícil de lidar.

A venda de Mora

O FC Porto vive duas realidades diferentes. No plano financeiro, ainda atravessa dificuldades, o que obriga a uma gestão muito rigorosa e racional. No plano desportivo, o cenário é mais alegre. O FC Porto voltou a vencer o campeonato num ano que ficou marcado pela chegada de Farioli e pela mudança substancial do plantel. Quando Villas-Boas contratou Farioli, sabia qual o caminho que estava a seguir.

O treinador portista imprime muita intensidade, fisicalidade e disciplina ao seu jogo. Muitas das ocasiões de golo que o FC Porto de Farioli cria surgem na sequência de recuperações altas ou em transições. Os jogadores mais irreverentes e que têm capacidade para desequilibrar no um contra um estão, por norma, nas alas. Num meio-campo que se quer de alta rotação, não há muito espaço para jogadores com perfis diferentes e que tenham como principal atributo a magia. Esta introdução explica a venda de Rodrigo Mora.

No plano financeiro, era fundamental gerar um encaixe substancial que permitisse equilibrar as contas e gerar liquidez para a operação diária ou reforçar o plantel. Na vertente desportiva, todos percebemos que o FC Porto pretendia vender alguém que não tivesse uma enorme influência na forma de jogar da equipa. A escolha óbvia foi Mora e destaco quatro motivos.

O primeiro é que é um jogador diferenciado, com enorme talento e que já demonstrou que pode fazer a diferença. O segundo é que, se analisarmos a forma de jogar de Farioli, dificilmente Mora iria ser um jogador fundamental. Aliás, com a contratação de Hwang, Mora passou para terceira opção. O terceiro é que, por ser um jogador da casa e ter um valor contabilístico de zero, o valor total da transferência entrará na totalidade como mais-valia contabilística, ajudando e muito a equilibrar as contas. O último ponto prende-se com a evolução do jogador. Mora sabia que não iria ser uma opção regular e que teria a possibilidade de ir trabalhar com um treinador que gosta de jogadores com as suas características, num grande clube como a Roma. Foi inclusivamente o maior investimento da história do clube italiano.

Então, se este foi um negócio que agradou a todas as partes, por que motivo tanto Farioli como Villas-Boas sentiram necessidade de se justificar perante os adeptos? Farioli, por exemplo, dedicou 12 minutos de uma conferência de imprensa a falar de Mora. Abordou os minutos que jogou, fez comparações com o jogador que jogava na mesma posição e tentou passar a imagem de que não foi por ele que Mora saiu.

Já Villas-Boas escreveu um editorial em que tentou dispersar este tema com comparações face ao rival Benfica e ao caso da saída de Diego Moreira. A ideia que fica é que um não assunto, desportivo e financeiro, deixou marcas internas e ninguém quer ficar com o ónus de ter sido o responsável pela venda de um miúdo que pode vir a ser um dos melhores do mundo. Só isto justifica a necessidade que tanto Farioli como Villas-Boas tiveram de se justificar através de comparações sem grande lógica.

A Imprensa do Sul

O FC Porto é um clube e uma marca reconhecidos internacionalmente. Se dentro do relvado esse estatuto foi justamente conquistado, fora das quatro linhas o cenário é diferente.

A gestão de Pinto da Costa sempre fez questão de manter o FC Porto numa ótica regional: o Porto contra o poder de Lisboa! A chegada de Villas-Boas trouxe uma expectativa diferente. Os primeiros sinais foram positivos: uma gestão mais rigorosa e uma preocupação em expandir e gerar valor da marca.

Farioli, numa das últimas conferências de imprensa, foi infeliz na forma como se referiu «à comunicação do sul». Para os mais fanáticos, este tipo de declarações demonstra que Farioli é um treinador à Porto.

Para quem olha para o clube com uma perspetiva mais abrangente, este tipo de declarações não se enquadra no contexto atual. O FC Porto do século XXI é um clube que soube conquistar a Europa e o mundo nos relvados, e que agora se está a modernizar e a desenvolver num ecossistema cada vez mais global e competitivo.

Para que o futebol português se possa desenvolver e crescer, não basta apontar o dedo aos outros. É também determinante que cada um olhe para dentro e para si mesmo, contribuindo para melhorar a cultura desportiva e organizacional. Hoje em dia, os clubes não são avaliados apenas com base nos resultados desportivos. Como tal, nem todos os meios justificam os fins.

João Palhinha

Frederico Varandas sentiu necessidade de justificar o motivo pelo qual não avançou para a contratação de Palhinha. Não é usual ouvir presidentes explicar porque não contratam jogadores. Isto aconteceu porque o jogador acabou por assinar pelo rival Benfica e tinha uma ligação forte aos adeptos, depois de vários anos de grande profissionalismo e utilidade no Sporting.

A explicação até era simples. Varandas explicou que Palhinha não se enquadrava no projeto Sporting e que, pelos valores apresentados, a contratação não fazia sentido. Apesar de isto me parecer básico, é interessante a necessidade que teve de vir à praça pública explicar o processo.

Acabou até por ser deselegante quando se referiu à gestão do rival, dizendo que «o Sporting não ia gastar tantos milhões num jogador«. Na realidade, qual o motivo que fez com que Varandas tivesse necessidade de se justificar? Parece-me óbvio: o facto de Palhinha ter assinado pelo Benfica e a preponderância que este pode vir a ter na época encarnada.

Para os adeptos não existe disciplina financeira, existem sim títulos e vitórias. A emoção está sempre presente e os líderes nunca vão conseguir controlar esta variável. A sua missão é mais abrangente. Enquanto os adeptos pensam no curto prazo, os líderes devem pensar e agir numa ótica mais alargada. Para os líderes, o importante não é hipotecar tudo para poder vencer um ano, mas sim criar condições para vencer de uma forma mais recorrente.

A VALORIZAR: GONÇALO RAMOS

Marcou grande golo no seu primeiro jogo em San Siro. Começa a justificar o investimento. Jorge Jesus deve estar atento.

A DESVALORIZAR: CARLOS CARVALHAL

Chegou com expectativa elevada. A realidade tem sido outra. Hoje tem mais uma oportunidade de dar a volta ao momento negativo.

A iniciar sessão com Google...