Gianluca Prestianni extremo/médio criativo argentino de 20 anos do Benfica - Foto: MIGUEL NUNES
Gianluca Prestianni extremo/médio criativo argentino de 20 anos do Benfica - Foto: MIGUEL NUNES

Omiúdo recebe a bola. O treinador grita: «Dois toques.» O miúdo obedece. Domina. Passa. Corre para o lugar marcado. O treinador aplaude. Tudo limpo. Tudo rápido. Tudo certo.

É assim que se começa a fabricar um jogador moderno. Também pode ser assim que se começa a estragá-lo. Nunca houve tantos campos perfeitos. Tantos treinadores preparados. Tantos dados sobre crianças de 12 anos. A velocidade. A potência. O pé dominante. O número de decisões certas. O futebol sabe quase tudo sobre elas. Só não sabe quem seriam se as deixassem em paz.

Pablo Aimar contou o problema de uma forma difícil de esquecer. Irrita-o ouvir que já não existem jogadores criativos depois de centenas de treinos automatizados. É como ensinar uma criança a tocar piano seguindo sempre a mesma partitura e, anos depois, acusá-la de não saber improvisar.

Primeiro, tiramos-lhe a liberdade. Depois, perguntamos onde ficou a imaginação.

A academia não é o inimigo. Protege. Alimenta. Ensina. Dá relva, médicos, ginásios, acompanhamento escolar. Apanha um miúdo com talento e oferece-lhe uma estrada onde antes havia pedras. O problema começa quando também lhe diz por onde deve passar em cada curva.

Batistuta lamentou o desaparecimento daquele avançado que vivia para o golo. O 9 à antiga. Como ele. Como Vieri. Como tantos outros que não têm lugar no futebol moderno. Homens reconhecíveis pela função, pelo instinto, pela maneira de respirar dentro da área. O jogo, viciado na intensidade e no GPS, transformou-os em trabalhadores completos. Todos pressionam. Todos defendem. Todos interpretam o espaço. Todos cumprem.

Parece sensato. Mas quase tudo o que mata lentamente parece sensato. Falta ao jogador, por vezes, um lugar onde se possa perder. Esse lugar era a rua. A rua não tinha cones. Tinha buracos. Não tinha árbitro. Tinha discussões. Não tinha treinador. Tinha o maior, o mais velho, o dono da bola. As balizas eram duas pedras. O campo acabava num passeio, num muro ou no primeiro carro mal estacionado.

Ali, o jogo não ensinava respostas. Criava problemas. A bola saltava mal. O espaço era curto. O adversário era mais velho e não queria saber da pedagogia. Era preciso sobreviver. Usar o corpo. Esconder a bola. Inventar um túnel. Descobrir um passe onde ninguém via passagem. Aprender que a vergonha de perder a bola durava menos do que a alegria de voltar a pedi-la. Ninguém dizia ao miúdo para ser criativo. A criatividade era a única saída. Esse tipo de jogador está em vias de extinção. Por isso, é ainda tão saboroso ver alguém como Prestianni.

A fazer um grande arranque de época, com apenas 20 anos, o miúdo argentino joga como se ainda trouxesse a rua agarrada às botas. Recebe a bola e procura o adversário. Não para fugir dele. Para o desafiar. Ainda acredita que uma finta pode servir para chegar à baliza. Ou apenas para provar que era possível. Pertence a essa espécie cada vez mais rara. A daqueles jogadores que rasgam o guião e fazem as suas próprias regras quando têm a bola. A desobediência pela banalidade é a melhor arma de Prestianni.

O Brasil construiu uma parte da sua grandeza nesses lugares. Na praia. Na várzea. No asfalto. Na favela. Em campos tortos onde a geometria oficial não servia. Garrincha não driblava apesar das pernas tortas. Driblava com elas. Romário encontrava espaço onde nem dava para montar uma cabine telefónica. Ronaldinho tratava a bola como um brinquedo porque, antes de se tornar profissão, tinha sido isso. E, para ele, nunca deixou de ser isso. O seu brinquedo preferido.

O Brasil tem hoje academias melhores. Centros de treino de qualidade. Metodologias importadas. Jovens mais fortes, mais rápidos, preparados para chegar à Europa aos 17 anos e perceber o que o treinador lhes pede.

É o progresso, dizem. Mas o progresso tem sempre uma fatura. Ao aproximar-se da Europa, o Brasil também se afasta de si próprio. Produz laterais que sabem entrar por dentro. Médios que dão equilíbrio. Extremos que pressionam. Jogadores prontos para o sistema. Verdade. Mas antes o sistema é que tinha de estar pronto para eles.

Não se trata de pedir o regresso romântico a uma infância pobre. A rua também era abandono. Também era falta de condições. Ninguém deve confundir carência com método. Um buraco no asfalto não é um plano de formação.

Mas havia naquele caos uma coisa preciosa. Tempo sem adultos. Tempo sem instruções. Tempo para fazer uma coisa inútil muitas vezes até ela se tornar genial.

As academias querem eliminar o erro. A rua precisava dele. Um drible falhado não saía no relatório. Não custava a titularidade. Custava uma gargalhada dos outros. E a resposta chegava na jogada seguinte.

Hoje, um miúdo perde a bola e olha para o banco. Antes, perdia a bola e tentava outra loucura. Quem olha para o banco procura autorização. Quem olha para a bola procura uma solução.

O futebol moderno não expulsou os artistas. Fez algo mais eficaz. Educou-os para não incomodarem. Ensinou-lhes o momento certo para arriscar, a zona certa para fintar, a percentagem aceitável de perigo. Deu-lhes liberdade dentro de um quadrado desenhado no chão. Uma liberdade vigiada.

Depois aparecem treinadores a pedir jogadores capazes de desbloquear jogos fechados. Querem alguém que veja o que os outros não vêem. Alguém que rompa uma linha. Alguém que invente. Mas a invenção não nasce por ordem. O rasgo não vem no plano semanal.

A solução não é destruir a academia. É abrir-lhe uma janela. Criar espaços onde o treinador se cale. Onde não haja limite de toques. Onde o melhor jogador não seja o que erra menos, mas o que imagina mais. O caminho passa por levar a rua para dentro do laboratório. Não a pobreza. Não o abandono. Não a falta de meios. A liberdade.

O futebol precisa de jogadores bem formados. Claro que precisa. Mas também precisa de um miúdo que receba a bola, ouça o treinador gritar «dois toques» e, por um segundo, finja que não ouviu.

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