FC Porto: e quando a festa ia ser contra o Alverca e, afinal, aconteceu no hotel?
Dificilmente haverá desporto mais pródigo em coincidências do que o futebol. Se olharmos para a rota do FC Porto rumo ao título de campeão nacional 2025/26, damos de caras com uma bem curiosa. Puxando atrás a fita do tempo até abril de 2004, chegamos à reta final de uma época dominada pelos dragões de José Mourinho, que, antes de conquistarem a Champions League, selaram o bicampeonato... à 32.ª jornada.
Há 22 anos, à entrada para a antepenúltima ronda — tal como acontece agora —, a equipa azul e branca estava a uma vitória de soltar a festa na Invicta. O adversário? Se apostou no Alverca, adivinhou. Na antevisão desse duelo, Mourinho, agora treinador do Benfica, garantiu que o foco da equipa estava «a 100%» nesse encontro, mesmo com o decisivo embate com o Corunha à distância de alguns dias. Mas o destino quis que o FC Porto entrasse em campo relaxado e já... campeão nacional.
Na véspera da receção ao Alverca, o Sporting perdeu na deslocação a Leiria (1-0, golo de Alhanda), confirmando matematicamente o título dos dragões. Quase 200 quilómetros a norte, as celebrações tiveram lugar num hotel da Boavista, onde o plantel portista estagiava. Os adeptos acorreram ao local e os jogadores vieram às janelas, muitos em tronco nu e munidos de champanhe. «Não estava à espera de festejar hoje, mas é assim. Iniciei a festa durante o jantar, num restaurante onde estavam muitos portistas. (...) Senti que ia ser campeão mal começou o campeonato. Outros passaram o tempo a falar mal e de sistemas, enquanto nós trabalhámos», atirou Jorge Nuno Pinto da Costa, à data presidente dos azuis e brancos.
Mourinho, por sua vez, teceu fortes elogios ao plantel e não deixou de lançar uma alfinetada: «Devo ter sido o único treinador a ser campeão ao lado da mulher e dos filhos, porque no jogo com o Santa Clara, no ano passado [2002/03], estava castigado. Este ano sou campeão no hotel... A ver se um dia sou campeão no banco.»
Ora, no dia seguinte, 25 de abril de 2004, o Special One aproveitou as circunstâncias para rodar a equipa, a pensar na Champions. Bosingwa, na altura um jovem em ascensão, marcou, de cabeça e assistido por Deco, o golo que decidiu a partida (1-0), na última visita do Alverca ao Dragão. Várias bolas foram aos ferros, Carlos Alberto foi expulso e Derlei voltou à competição após quatro meses de ausência. Os portistas festejaram no estádio e a equipa celebrou num jantar. A ida aos Aliados ficaria guardada para depois. Mais um paralelismo com o presente, uma vez que, confirmando-se a conquista do título este sábado, o FC Porto só irá à Baixa da cidade na 34.ª jornada. E caso o Sporting não vença hoje o Tondela e o Benfica perca sábado em Famalicão, também pode haver festa antecipada.
André Villas-Boas, agora presidente, fazia parte da equipa técnica de Mourinho, enquanto o capitão, Jorge Costa, não saiu do banco. Este ano, a possibilidade de haver título frente ao Alverca parece, em si, uma bela homenagem ao Bicho: o jogo é dia 2...