Pedrinho, do Shakhtar - Foto: IMAGO
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Ex-Benfica: «Se não fosse a guerra, o Shakhtar seria o melhor clube para começar a carreira»

Pedrinho, antigo jogador das águias e um dos mais experientes dos ucranianos, relatou as dificuldades que ainda se vive na Ucrânia, recordando a saída dos encarnados e abordando a presença na Champions, em que são adversários do Sporting

Depois de um ano no Benfica, Pedrinho rumou ao Shakhtar pelos mesmos 18 milhões de euros que custou para vir para Portugal e, apesar de um empréstimo de dois anos ao Atlético Mineiro por causa da guerra, voltou à Ucrânia em 2024. Agora, o brasileiro está a disputar a UEFA Champions League e os jogos em casa vão ser em Stamford Bridge. No entanto, continuam a ser muitas as dificuldades por causa da guerra.

O extremo de 28 anos recordou o momento em que ele e a sua família foram obrigados a refugiar-se na garagem subterrânea por baixo da sua casa apenas há algumas semanas, depois de ter havido um alerta a meio da noite. «O maior desafio é manter-se mentalmente forte. Quando se vem para cá, já se sabe a situação em que se vai meter, mas, no início, isso ainda nos afeta mentalmente. É por isso que tentamos apoiar os jogadores mais jovens. Dizemos-lhes que isto vai passar e rezamos para que acabe o mais depressa possível», contou, em entrevista à GOAL.

«Mas não é fácil. Muitos jogadores estão longe das suas famílias e acabam por passar por situações difíceis, com as sirenes [de ataque aéreo] e tendo de se refugiar em abrigos, apenas para acordarem no dia seguinte e voltarem a viver as suas vidas da forma mais normal possível», acrescentou. As viagens a que o clube tem de se submeter devido ao seu deslocamento, que já dura há muitos anos, também são incrivelmente desgastantes para os jogadores.

«Mudou muito, especialmente no que diz respeito à logística. Eu vivia em Kiev com toda a minha família e jogávamos sempre os nossos jogos em casa lá. Tínhamos o nosso próprio estádio em Kiev, um estádio de primeira classe onde também disputávamos os nossos jogos de Champions. Isso já não é possível. Agora jogamos sempre fora de casa e não temos um estádio fixo. Isso tem um impacto enorme, porque muitas vezes chegamos aos jogos mais cansados depois de passarmos tantas horas a viajar. No início, no que diz respeito ao alojamento, nunca tivemos realmente um local fixo para ficar. Passávamos um mês em Kiev, depois um mês em Lviv. Hoje em dia, o clube tenta manter-nos em Lviv, o que é melhor para nós», relatou.

Futebol brasileiro em peso

Para já, Pedrinho encontra-se atualmente afastado dos relvados devido a um problema muscular que atribui, em parte, às viagens adicionais. «Uma coisa é estar em casa e depois viajar para um jogo. Outra coisa bem diferente é passar 10 ou 12 horas num autocarro só para disputar um jogo e depois ter de regressar e jogar no campeonato ucraniano alguns dias mais tarde. Esse risco existe sempre e, mais cedo ou mais tarde, podemos acabar por sofrer uma lesão devido a todas essas longas viagens. Mas isso não altera o facto de que, sempre que entramos em campo, tentamos dar o nosso melhor», justificou.

Um fator curioso é de que metade do plantel é composto por jogadores brasileiros. Questionado sobre o motivo pelo qual o Shakhtar continua a ser uma opção tão atraente no seu país natal, Pedrinho respondeu assim. «Se não fosse pela guerra, costumo brincar que o Shakhtar seria o melhor clube do mundo para se iniciar a carreira», atirou, sorridente. «Aqui, se tiveres 18 ou 19 anos, tens uma excelente oportunidade de jogar regularmente e disputar competições importantes. Acho que isso atrai muitos jovens jogadores que querem mostrar o seu potencial ao mundo. Muitas vezes, dá-se o passo seguinte para um clube maior, mas não se consegue o tempo de jogo que se esperava, e acho que o Shakhtar oferece essa oportunidade», apontou.

«A guerra, obviamente, torna as coisas mais difíceis, mas acho que o que continua a atrair os jogadores é o número de brasileiros que estão aqui. Se houvesse apenas um ou dois brasileiros, acho que seria muito difícil as pessoas quererem vir para cá, especialmente depois de a guerra ter começado. Mas, como há tantos brasileiros, isso torna a mudança muito mais fácil», acrescentou.

Saída do Benfica

Pedrinho recordou também a saída do Benfica em 2021, ou seja, a chegada ao Shakhtar. «Quando se vê que há tantos brasileiros no clube, isso faz com que se fique ainda mais interessado em vir para cá. Quando cheguei, pesquisei sobre o Shakhtar e vi quantos jogadores brasileiros estavam aqui, por isso sabia que isso tornaria a minha adaptação muito mais fácil e rápida. Esse é um fator muito importante. Uma das coisas que mais me deixou feliz quando cheguei foi a facilidade com que me relacionei com as pessoas. Sabemos que mudar para o futebol europeu pode ser difícil. É preciso adaptar-se, comunicar num ambiente diferente, lidar com o frio e a diferença horária. Por isso, ter muitos brasileiros por perto torna tudo muito mais fácil», garantiu.

«Isso deu-me um excelente ponto de partida, especialmente na primeira vez que vim para a Ucrânia, porque já tinha aqui amigos que conhecia das seleções juvenis e de clubes anteriores. Isso ajudou-me imenso a adaptar-me e a evoluir aqui», acrescentou, agradecendo o apoio dos ucranianos. «São pessoas maravilhosas e fazem-nos sentir à vontade. No balneário, por exemplo, deixam-nos ouvir a nossa música. Também nos dão todo o apoio sempre que passamos por situações difíceis. Se não fosse assim, acho que a adaptação seria muito mais difícil. Mas, como são tão acolhedores, isso torna o dia a dia muito mais fácil. Nos nossos dias de folga, reunimo-nos todos. Isso ajuda muito a criar laços de união na equipa, tanto dentro como fora do campo», revelou.

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