Bruno Costa está na primeira época ao serviço do Gimhae. Foto: DR
Bruno Costa está na primeira época ao serviço do Gimhae. Foto: DR

«Se o treinador me dá uma dura, peço ao tradutor para não traduzir à letra»

Uma mudança de vida a todos os níveis levou Bruno Costa até à Coreia do Sul, onde o médio português encontrou um futebol diferente e uma cultura que o tem surpreendido. Atualmente no Gimhae, fala de adaptação e ambição numa nova etapa da carreira. Destino Aventura é a rubrica em que A BOLA dá a conhecer jogadores e treinadores espalhados pelos cantos mais remotos do mundo

Depois de vários anos no futebol português, com destaque para a passagem pelo FC Porto, Bruno Costa rumou à Coreia do Sul e encontrou uma realidade bem diferente. Hoje ao serviço do Gimhae, da segunda divisão, o médio vive uma experiência marcada por novas rotinas, um futebol exigente e uma cultura que o tem surpreendido. Em entrevista a A BOLA, fala da adaptação, das diferenças dentro e fora de campo, da mudança de vida em família e das ambições no país asiático

- O que te levou a dizer ‘sim’ à Coreia?

- Era algo que estava na minha cabeça há algum tempo. Uma experiência que eu queria, não só pelo futebol, mas também pela vida fora do futebol. Tive alguns percalços em Portugal e precisava mesmo de uma mudança. Quando surgiu a oportunidade, não pensei muito.

- Como foi a adaptação ao país?

- Adapto-me muito facilmente. Claro que não é fácil ficar sem a minha família, mas não passo mal. Custa-me, como custa a todos, mas para mim é um bocado fácil essa adaptação. Aqui foi muito mais fácil do que em França [jogou no Valenciennes, em 2023], também devido ao futebol. Quando o futebol está a correr bem, a vida fora do campo também corre bem. Não estava com medo por mim, mas pelos meus filhos. Porque é uma língua completamente diferente, eles não sabiam falar inglês. É uma coisa que, para os pais, mexe um bocado e questionas-te sempre se será uma boa decisão. Mas foi e está a ser uma experiência enriquecedora. Os meus filhos estão a adaptar-se lindamente à escola e dentro de campo também está a correr bem.

- Nenhum choque cultural?

- Pensei que ia estranhar a comida e, na primeira semana, foi um bocado estranho porque as comidas deles são muito doces e eu não gostava nada disso. Agora dou por mim a comer carne doce e a gostar. Não há nada que eu não goste mesmo aqui.

- Já falas coreano?

- Sei o básico. É realmente muito difícil. Por exemplo, em França eu não sabia nada e só a falar com os meus colegas fui aprendendo e agora já me desenrasco, mas o coreano, mesmo com um ou dois anos cá, não vou aprender, vou ter mesmo que ir estudar. Claro que as palavras mais básicas sei, mas estruturar frases é muito difícil. Até porque, por exemplo, para dizerem ‘obrigado’, dizem de forma diferente para uma pessoa mais velha, para uma pessoa mais nova ou para uma pessoa da mesma idade. É muito complicado.

- Como é a Coreia do Sul como país?

- Digo a toda a gente que aqui é tudo muito rápido, muito prático, muito fácil. As coisas são tratadas muito rápido, não há muitas filas. No supermercado, é tudo muito prático. Um exemplo: vamos jantar fora, sentamo-nos, eles têm normalmente um iPad, escolhemos a comida, fazemos o pedido e passados, sem exagero, cinco minutos temos a comida lá. Quando acabamos, levantamo-nos, vamos à porta, tem lá o sítio para pagar, damos o cartão, o senhor paga por nós e vamos embora. É muito diferente do que estava habituado em Portugal.

- Houve algum hábito que estranhaste mais? 

- A relação com os mais velhos. Antes de falarem, muitas das vezes ou quase sempre as pessoas perguntam a idade. Que é para saber se és mais velho ou mais novo. A forma como eu te tenho de tratar vai depender da tua idade. Não é que eu não goste, mas penso que é de forma exagerada e levam isso também para o futebol. Se um jogador mais velho me chamar a atenção e eu não concordar, não posso dizer nada. Parece que quanto mais velho, melhor. O respeito pelos mais velhos é muito lindo e gosto, agora no futebol, como eu não olho a idades, mexe comigo e ainda me faz confusão.

Aqui os clubes têm que comprar a subida à segunda liga. O Gimhae foi campeão da terceira liga no ano passado, mas não foi por isso que subiu. Não se sobe por ser campeão.

- Chegaste à Coreia do Sul para ir para o Gyeongnam e agora estás no Gimhae. O que é que te levou a sair e ir para outro projeto?

- É uma coisa muito normal aqui. O Gimhae e o Gyeongnam são clubes da mesma zona e foi muito fácil a minha transferência. É uma coisa muito comum jogadores fazerem um ano num clube e depois mudarem. No meu caso, até foi o treinador do Gyeongnam que veio falar comigo e disse-me que o treinador do Gimhae queria muito que fosse para lá. Foi por aí. Para mim esse é um aspeto muito positivo: quando um treinador quer que vás, para mim é meio caminho andado porque dá-me confiança. Outra coisa importante foi que não tive que mudar de casa. Antes fazia 45 minutos para o centro de treinos do Gyeongnam, agora faço 40.

Bruno Costa com a camisola do Gyeongnam. Foto: DR

- Quais são as principais diferenças entre os dois clubes?

- O Gimhae foi um clube que já estava a preparar a subida para a segunda liga. Penso que eles têm que ‘comprar’ a subida à segunda liga. Eles foram campeões na terceira liga no ano passado, mas não foi por isso que subiram, porque não se sobe por ser campeão. Eles já estavam a preparar esta subida há uns quatro, cinco anos. As condições são boas e a ideia que a estrutura tem para o clube é boa. Estão a evoluir de uma forma bastante rápida. O Gyeongnam já é um clube mais histórico. Já foi vice-campeão da segunda liga, já esteve na primeira liga.

- O projeto do Gimhae passa pela subida a curto prazo?

- Exatamente. Foi uma das coisas que o presidente me disse. Por ele, era já este ano. Vai apostar forte na subida. Foi algo que me agradou muito, porque o meu objetivo é ir para a primeira liga.

- Como é o ambiente nos balneários?

- É um pouco diferente. No Gyeongnam sentia muito mais isso do que agora no Gimhae. No Gimhae, como é um plantel mais novo, o ambiente é mais descontraído. Não é tanto essa disciplina militar.

- E a relação entre os jogadores e os árbitros?

- É muito diferente de Portugal. Foi um aspeto que senti muito. Aí em Portugal, eu era bastante complicado nesse aspeto, reclamava muito com os árbitros. Aqui é completamente diferente. Têm muito respeito pelos árbitros porque são pessoas mais velhas. 

- Que dizes da atmosfera nos estádios?

- Isso é uma coisa que sinto muita falta: estádios cheios. Mas já joguei contra o Suwon Samsung e o Incheon também, que têm adeptos muito fortes. A claque do Suwon Samsung é espetacular, o estádio é muito bom. Outro aspeto completamente diferente é nas derrotas: as pessoas não se vão chatear contigo, não te chamam nomes, não acontece nada disso. Houve vários casos em que perdemos o jogo, fiquei na azia, saí do jogo chateado e vejo as pessoas todas contentes lá fora a pedir autógrafos.

- Não há tanta exigência para se ganhar?

- Podemos dizer que sim. Penso que no próximo ano já se desce da segunda liga, mas este ano não se desce. Se calhar também é por isso. Mesmo que uma equipa esteja no fundo, os adeptos vão pensar ‘para que é que nos vamos chatear? Para o ano há mais!' Eles são mesmo assim. Para que é que se vão chatear com o futebol? Vão para o futebol para se divertir, para cantar. Perdemos agora um jogo e os adeptos foram cinco estrelas do primeiro ao último minuto sempre a apoiar a equipa. É algo que em Portugal é mais difícil de acontecer.

Já aconteceu várias vezes pessoas passarem e comprarem bolachas ou outras coisas para os meus filhos. Se o meu filho vê algo na rua de que gosta, muitas vezes oferecem-lhe. Até no meu prédio isso acontece. Já houve dias em que uma vizinha saiu de propósito para ir comprar coisas para nós.

- Quais foram as principais diferenças que sentiste no futebol?

- Tudo o que o treinador diz é para fazer... e é para fazer a 100%. É muito estilo militar. Quando o treinador diz uma coisa, é como se tivesses duas palas e é para fazer aquilo e nem se vê mais nada. Como sou um jogador mais extrovertido, no princípio, fez-me um pouco de confusão. Mas o bom é que eles sabem disso, adaptam-se a mim e também gostam disso. Por isso é que eles trazem os estrangeiros, para dar essa vertente de criatividade. É um futebol muito físico também. Desde o primeiro ao último minuto, dão sempre o máximo. 

Bruno Costa com a camisola do Gimhae. Foto: DR

- Nunca levaste uma dura por não teres cumprido à risca as orientações do mister?

- Claro que sim. Eu não percebo bem o que dizem, tenho essa vantagem. Às vezes até peço ao meu tradutor para não traduzir à letra o que o treinador diz se me estiver a dar uma dura. Mas claro, já levei duras e vou continuar a levar.

- O futuro passa pela Coreia ou pensas em regressar à Europa e a Portugal?

- Neste momento estou focado e espero continuar aqui, porque está a correr tudo muito bem. Estou muito feliz e a minha família também. Quero tentar elevar o meu nome e, sim, espero ficar mais algum tempo.

- Que objetivos é que ainda tens por cumprir?

- Ser campeão da primeira liga coreana. Estou muito focado nisso, em dar o meu melhor agora para que já no próximo ano possa tornar isso possível.

Gimhae disputa, atualmente, a segunda divisão coreana. Foto: DR

- Alguma história mais engraçada ou mais caricata que te tenha marcado na Coreia?

- No fim do ano passado, o meu filho estava doente e fui com ele ao cabeleireiro. Ele estava a chorar muito, não queria cortar o cabelo, estava mesmo atrapalhado. Entretanto, entrou um senhor, olhou e saiu sem dizer nada. Passados uns minutos voltou com um saco — tinha ido à loja ao lado comprar algo para o meu filho, para o acalmar. Há várias situações deste género. Aqui temos um pequeno ritual: como eles não costumam comer sobremesa ao jantar, quando vamos jantar fora, no verão, vamos muitas vezes comer um gelado em família. Já aconteceu várias vezes pessoas passarem e comprarem bolachas ou outras coisas para os meus filhos. Se o meu filho vê algo na rua de que gosta, muitas vezes oferecem-lhe. Até no meu prédio isso acontece. Já houve dias em que uma vizinha saiu de propósito para ir comprar coisas para nós. Uma vez viu que eu gostava de um pão e, no dia seguinte, foi à padaria comprar-me um. É algo muito diferente daquilo a que estava habituado e mostra bem a cultura coreana.

- Antes da Coreia, já tinhas tido uma experiência no estrangeiro, no Valenciennes de França. Como foi esse período?

- Foi tudo muito difícil. Não sabia falar francês, vivia a uma hora do centro de treinos, porque lá perto não havia muita coisa. Tentei escolher uma coisa melhorzinha para a minha família, porque os meus filhos também foram comigo e as casas mais próximas não eram boas. Tive de ir para longe, só que tínhamos que almoçar lá e as aulas eram até às 16h, então, basicamente, não ia poder estar com a minha família. Foi quando decidi não fazer as aulas e tentar aprender o mais rapidamente possível com os meus companheiros. Mas acho que teria sido mais fácil se tivesse tido aulas. É algo que eles dão muito valor. O treinador era português na altura e passado muito poucos jogos saiu do clube. Foi outro aspeto complicado. O clube estava mal, desceu de divisão, não estávamos a ganhar jogos.... Foi tudo uma bola de neve. Estava triste no futebol e levava essa tristeza para casa. Posso dizer mesmo que não consegui me adaptar. Mas foi uma aprendizagem. É assim que olho sempre para a minha vida, mesmo os aspetos negativos ou não tão positivos.