Palavras de Francesco Farioli após vitória sobre o Nápoles por 4-1

Energia, Gabri Veiga com febre e felicidade no FC Porto: tudo o que disse Farioli

Análise do treinador portista ao duelo com o Nápoles no Dragão

Francesco Farioli, treinador do FC Porto, analisou o embate com o Nápoles, a contar para a quarta jornada da fase de liga da UEFA Champions League.

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— O quão importante foi o ambiente criado pelos adeptos para fazer com que os jogadores acreditassem até aos 30 minutos finais, nos quais o FC Porto acabou por resolver o jogo?

— Muito enérgicos, corajosos sem bola, com muitos momentos em que se viu o Kiwior a ir pressionar o De Bruyne quase na área deles, e com bola a ter duas velocidades diferentes para gerir o jogo de acordo com a pressão do Nápoles. Ter 50 mil pessoas com a energia certa e o espírito certo é, sem dúvida, algo que nos ajudou a ter o desempenho que os rapazes tiveram.

— Até ao dia de hoje, parecia haver um FC Porto no campeonato e outro na Liga dos Campeões. Hoje isso não aconteceu. O que é que foi decisivo para o FC Porto ter conseguido pontuar pela primeira vez na Champions?

— Penso que a diferença até agora esteve nos resultados. Esta noite demos continuidade em termos de exibição, mas arrecadámos o que merecíamos.

— Muito se falou deste mau início do FC Porto na Liga dos Campeões e hoje conseguiram uma vitória categórica por 4-1. No início os adeptos mostraram uma faixa a pedir para relembrar a história do clube nas competições europeias. Esta vitória traz um elã diferente ao FC Porto neste momento?

— Era importante começar a somar pontos. Todos conhecemos a história do clube, as exigências deste clube. Como disse depois do jogo com o PSV, onde alguns de vocês estavam a especular em torno dos resultados, acho que a esta equipa se pode apontar tudo, menos falta de atitude, porque esta equipa está sempre lá a cada três dias com o espírito certo, com a motivação certa. Depois, quando se joga tantos jogos diferentes, em competições diferentes e com níveis diferentes, nem sempre é fácil estar na melhor versão e às vezes paga-se o preço, especialmente quando se joga a este nível onde a margem de erro é mínima. Hoje, num jogo em que podíamos ter marcado muitos golos, ainda mais do que marcámos, concedemos apenas cerca de 7 ou 8 minutos no final da primeira parte e pagámos o preço por isso. Isto é a Liga dos Campeões, é algo com o qual temos de aprender e aprendemos na pele. Mas vamos desfrutar dos três pontos desta noite contra um adversário fantástico, duas vezes campeão de Itália nos últimos quatro anos, e seguir em frente na competição nos quatro jogos que restam para tentar somar o máximo de pontos possível e tentar a qualificação para a próxima fase.

— O Nápoles terá tido duas oportunidades, uma delas foi o golo, e o FC Porto pareceu controlar e atar os movimentos do Nápoles no meio-campo. Isso foi importante? E também pareceu que lançou trunfos muito importantes do banco na segunda parte, nomeadamente Santiago Gimenez. Era isso que pretendia para matar o jogo?

— Para mim, no jogo desta noite, o resultado talvez possa mudar um pouco a perspetiva ou o nível de dificuldade, mas a forma como o Nápoles preparou o jogo foi fantástica, porque colocaram quatro médios muito móveis a circular por todo o lado. Isso é sempre difícil de gerir para uma equipa como a nossa, que quer jogar. Acho que a interpretação e a coragem que os jogadores colocaram em campo foram fantásticas, e isso ajudou-nos a sentir que o jogo esteve sempre sob controlo, mas acreditem que exigiu muito dos nossos rapazes em termos de comunicação, compreensão e permutas entre eles. Estiveram muito bem nisso e também na gestão com bola, ao reconhecerem quando ser mais verticais e quando controlar o jogo no meio-campo adversário. Depois, como referiu, a entrada e o impacto dos suplentes foram chave. Mais uma vez, tivemos jogadores a atuar fora de posição, o Fofana e o Gimenez, e ambos tiveram um grande impacto e um enorme contributo.

— No sentido tático do jogo, o FC Porto pareceu ter um entendimento muito bom. O que é que não correu tão bem no final da primeira parte? Sente que taticamente foi dos melhores jogos do FC Porto esta época?

— Com certeza, nesta competição todos os pontos contam, mas todos os golos também contam. Sabemos o quanto a diferença de golos pode ser decisiva; estamos a ter exemplos disso na Liga dos Campeões, na Liga Europa e na Liga Conferência, por isso tudo conta. Vencer esta noite com uma diferença de três golos positivos é algo importante e que nos ajuda a progredir na competição. Quanto ao resto, acho que a exibição dos rapazes foi mesmo muito boa. Mencionou as dificuldades do jogo; primeiro que tudo, não sabíamos exatamente o que eles iam fazer. Nestes dois ou três dias preparámos quase cinco cenários diferentes e hoje, quando vimos o onze inicial, era um sexto cenário, porque não esperávamos que o De Bruyne jogasse. Os jogadores reagiram muito depressa, com boa comunicação, boa interação e uma grande coragem.

— Que impressão teve do Nápoles visto do relvado?

— Não é para desvalorizar o mérito da minha equipa, mas creio que o Nápoles, do meu ponto de vista, preparou o jogo de forma muito inteligente. Quando vi a formação inicial, pusemo-nos a pensar no que poderiam criar e a primeira leitura que fiz foi de uma escolha estratégica muito bem pensada. Nos poucos minutos que tivemos antes do início do jogo, tentámos ajustar em relação àquelas que poderiam ser as novas dinâmicas com a entrada do De Bruyne como segundo avançado. Gerimos bem o jogo, estivemos bem, trouxemos muita energia para o campo, o que era importante, e na segunda parte sobressaímos do ponto de vista da condição física e do ritmo. Quem entrou ajudou a manter e a subir o ritmo, o que é uma constante para nós e algo em que acredito muito. Sinto-me grato por ter um grupo onde, mesmo pedindo a jogadores importantes como o Fofana e o Gimenez para jogarem fora de posição, têm este tipo de determinação, espírito e contributo para a equipa.

— Olhando para o futebol italiano, onde a escola de treinadores sempre foi prestigiada mas na última Bola de Ouro só figuraram espanhóis, que comentário faz? Os treinadores italianos começam a estar em crise e já não são considerados os melhores como no passado?

— Penso que no futebol de hoje é difícil colocar barreiras, pela forma como a informação circula e pela velocidade com que se pode aprender e confrontar outras realidades. Trabalho fora há muitos anos, por isso sigo a Serie A como adepto e observador externo. Há dinâmicas que conhecem melhor do que eu e não acho correto pronunciar-me sobre assuntos relativamente aos quais não tenho conhecimento e competência suficientes.

— Parece ser um momento difícil para os treinadores italianos da velha guarda como Spalletti, Sarri e Allegri. Há uma nova vaga?

— É difícil falar sobre isso porque fazemos um trabalho que é maravilhoso quando os resultados são bons e extremamente difícil quando em dois jogos a bola não entra. Mencionou o mister Spalletti e o mister Allegri, que são duas das maiores referências do futebol italiano, treinadores que ganharam, que trouxeram inovação e uma forma de interpretar tudo o que diz respeito ao papel do treinador. Tenho um enorme respeito por eles, por aquilo que fizeram e continuam a fazer. Quanto ao que está a fazer o mister Alvini, acho incrível pelo espírito que a equipa dele tem e pela forma como jogam. Há muitos anos ia ver os treinos dele ao Tuttocuoio, que ficava a poucos quilómetros da minha casa. Sempre teve uma grande energia e paixão; abriu-me as portas do centro desportivo para ir assistir aos treinos quando eu ainda nem pensava em ser treinador. A forma dele de viver o futebol é muito contagiante pela energia e paixão que transmite.

— Houve uma fase em que o Nápoles empatou e parecia uma partida equilibrada. O que disse aos jogadores ao intervalo para inverter o rumo e vencer o jogo?

— Ao intervalo disse apenas para continuarem a fazer as coisas com a mesma confiança e determinação que colocámos nos primeiros 35 minutos de jogo, com intensidade, com ritmo e com coragem. No cômputo geral acho que merecemos claramente a vitória, e o grande mérito é dos rapazes por aquilo que deram ao longo dos 90 minutos.

— Gabri Veiga esteve impressionante hoje. Como é ele bastidores e no treino, e onde poderá estar daqui a cinco anos?

— Hoje jogou com febre. Esta manhã, numa das últimas reuniões que fizemos, chegou com a cara pálida porque não dormiu nada esta noite. Quando foi substituído disse-lhe que seria bom apanhar este vírus em todos os jogos. É um jogador, antes de mais, de uma inteligência enorme, um rapaz que reconhece os momentos da partida, as situações de jogo e o que tem de fazer. Além dessa grande capacidade de ler o jogo e da qualidade técnica, junta algo especial para um médio: uma imponência física tremenda em termos de volume e também de explosividade. É um jogador completo que ainda tem uma margem de progressão enorme pela frente, sobretudo na consistência, algo em que já melhorou muito este ano. Apesar de todo o percurso de vida e daquilo que já conquistou, tem muita vontade de fazer mais e de fazer bem. Hoje estamos a desfrutar dele; daqui a cinco anos, quem sabe.

— Em Itália há muita dificuldade em dar oportunidades a treinadores como o mister. Chegou ao FC Porto, está a assumir a equipa e mostra estar pronto para dar o salto para um grande da Serie A. Porque é que em Itália não se dão estas oportunidades? E o Nápoles já o procurou?

— Não se dão e às vezes não se aproveitam, e é isso. Não, o Nápoles não me procurou. Quando se está num clube com a história do FC Porto, com tantos troféus nacionais e internacionais, a jogar perante 50 mil pessoas todas as semanas para ganhar e representando uma instituição com esta dimensão e tradição, e quando se encontram pessoas com quem é fantástico trabalhar, como aconteceu aqui no Porto, torna-se difícil olhar para outro lado. Sou verdadeiramente feliz aqui, não são frases de circunstância, é a pura realidade. É um dos nossos pontos de força. A época ainda é longa, temos muitos jogos para disputar no campeonato e nas várias taças, por isso é manter a cabeça baixa e continuar a trabalhar.

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