Efeito Luis Suárez: alguém se lembra de Gyökeres?
No futebol, a memória é curta. Muitas vezes, demasiado curta até. Aquilo que hoje parece insubstituível amanhã transforma-se apenas numa recordação. Durante dois anos, no Sporting, parecia impossível imaginar Alvalade sem Viktor Gyökeres. O avançado sueco deixou uma marca histórica: 97 golos em 102 jogos, números que o colocaram no panteão dos grandes goleadores leoninos. Quando saiu para o Arsenal, num negócio que rondou os 55 milhões de libras, podendo chegar aos 63,5 milhões com objetivos, muitos perguntaram quem poderia preencher um vazio aparentemente impossível de ocupar.
A resposta começou a surgir na Supertaça, disputada no Estádio Algarve a 31 de julho de 2025, frente ao Benfica. Aos 68 minutos de jogo, Luis Suárez estreou-se de leão ao peito. Não o uruguaio que marcou uma era no Barcelona, mas o colombiano nascido em Santa Marta, que chegou a Alvalade rotulado precisamente como o substituto de Gyökeres. No futebol, carregar este rótulo pode ser um peso difícil de suportar. No entanto, Suárez parece ter feito exatamente o contrário: transformou a comparação em desafio e motivação.
Os números falam por si. Aos 28 anos, o avançado vive a época mais goleadora da carreira, com 35 golos em 41 jogos, incluindo 31 pelo Sporting e quatro assistências. Na Liga portuguesa soma 22 golos em 23 jogos, liderando de forma isolada a lista dos melhores marcadores. Mais impressionante ainda é a regularidade: são sete bis ao serviço do Sporting, seis deles em Alvalade, diante de adversários como Arouca, PSG, Rio Ave, Aves SAD, Estrela da Amadora ou Estoril.
Mas o impacto de Suárez não se mede apenas pelos golos. Mede-se também pela eficiência. Entre os avançados colombianos que passaram pela Liga portuguesa, é aquele que precisa de menos minutos para marcar, cerca de 85 minutos por golo, superando nomes históricos como Radamel Falcao, Jackson Martínez, Teófilo Gutiérrez ou Fredy Montero. Um dado que revela não apenas eficácia, mas principalmente a consistência.
A verdade é que Suárez encontrou em Alvalade o ambiente ideal para atingir o auge da carreira. Depois de passagens por Espanha e de uma temporada muito positiva no Almería, onde já tinha marcado 31 golos, chegou ao Sporting num momento de maturidade competitiva.
Há também um lado curioso nesta história. Quando Suárez começou a dar os primeiros passos no futebol profissional, o nome Luis Suárez já era um dos mais famosos do mundo, graças ao uruguaio que brilhava no Barcelona. Durante anos, o colombiano conviveu com essa coincidência de nomes. Hoje, no entanto, construiu a sua própria identidade futebolística e com números que obrigam a olhar para ele com atenção.
Perante os números que apresenta, tanto a nível nacional como internacional, e os desempenhos na principal montra do futebol europeu — a Champions League —, o mercado já começou inevitavelmente a movimentar-se. Clubes da Premier League, como Newcastle ou Liverpool, acompanham atentamente a evolução do avançado colombiano. É um cenário perfeitamente natural quando um ponta-de-lança revela consistência goleadora, impacto competitivo e regularidade ao mais alto nível, ainda por cima num momento em que se aproxima o Mundial de 2026, competição onde Luis Suárez também ambiciona assumir um papel de destaque ao serviço da seleção da Colômbia.
Curiosamente, enquanto Suárez brilha em Alvalade, Gyokeres tenta afirmar-se na Premier League ao serviço do Arsenal. A transferência para Londres foi mediática, envolveu valores elevados e trouxe consigo expectativas gigantescas. No início houve dúvidas, adaptações, críticas e até lesões. Entretanto, o sueco começa a encontrar o seu caminho em Inglaterra e a justificar o estatuto de goleador que construiu em Portugal. Mas essa é outra história.
A verdadeira discussão não está apenas nos números. Está nas características dos dois avançados e na forma como cada um interpreta o jogo. Gyökeres era, e continua a ser, um avançado de força, velocidade e condução em transição. Um jogador que muitas vezes criava as próprias oportunidades, arrancando com bola desde trás, atacando o espaço e desgastando defesas através da sua potência física. Era quase um híbrido entre ponta-de-lança e avançado de rutura, capaz de resolver jogos sozinho através da intensidade e da capacidade de ganhar duelos.
Luis Suárez é diferente. Menos explosivo em condução, mas mais refinado na ocupação de espaços e na finalização dentro da área. O colombiano joga mais próximo da baliza, movimenta-se bem entre centrais e tem um sentido de oportunidade muito apurado. É um avançado mais clássico no perfil, daqueles que vivem do instinto de golo e da leitura do posicionamento defensivo adversário.
Se Gyokeres era muitas vezes um criador de desequilíbrios, Suárez revela-se sobretudo como um finalizador de excelência. E isso levanta uma questão interessante: o Sporting ficou a ganhar ou a perder?
A resposta pode não ser tão linear quanto parece. Gyokeres tinha uma dimensão física e de impacto que tornava o jogo do Sporting mais vertical e imprevisível. Era um jogador capaz de resolver jogos em momentos de transição e de carregar a equipa em momentos difíceis.
Suárez, por outro lado, parece encaixar de forma ainda mais natural num modelo coletivo em que a equipa cria muitas situações de finalização. Não precisa de tanto espaço para decidir e mostra uma frieza impressionante dentro da área.
Ou seja, não se trata de um upgrade ou downgrade evidente, mas antes de uma mudança de perfil. O Sporting perdeu um avançado de potência e transição, mas ganhou um avançado de eficácia e leitura ofensiva.
E há ainda outro fator importante: o contexto da equipa. Invariavelmente, o rendimento de um ponta-de-lança depende tanto da forma como a equipa joga como das suas próprias características. Neste momento, o sistema ofensivo leonino, sob liderança de Rui Borges, parece favorecer a presença de um avançado que finalize bem dentro da área, exatamente o perfil de Luis Suárez.
Talvez por isso a pergunta comece a surgir com naturalidade em Alvalade: alguém se lembra de Gyokeres? Não por falta de respeito ou gratidão, longe disso. O sueco deixou uma marca indelével no Sporting. Mas o futebol tem esta particularidade fascinante: o presente impõe-se sempre ao passado. E hoje, o presente do Sporting veste a camisola verde e branca com o número 97, chama-se Luis Suárez e está a escrever a sua história com golos.
«Liderar no Jogo» é a coluna de opinião em abola.pt de Tiago Guadalupe, autor dos livros «Liderator - a Excelência no Desporto», «Maniche 18», «SER Treinador, a conceção de Joel Rocha no futsal», «To be a Coach», «Organizar para Ganhar» e «Manuel Cajuda – o (des)Treinador».