Duarte Gomes diz que «regressar à idade da pedra» na arbitragem «não é solução»
Duarte Gomes criticou o caminho seguido pela arbitragem portuguesa e, desta vez, apontou diretamente ao fim das avaliações públicas dos árbitros. O antigo diretor técnico nacional de arbitragem da Federação Portuguesa de Futebol (FPF) reagiu à decisão do Conselho de Arbitragem (CA), liderado por Luciano Gonçalves, de não retomar a divulgação das avaliações qualitativas dos árbitros e vídeoárbitros, medida que entra em vigor na presente temporada 2026/27. Para Duarte Gomes, trata-se de um recuo numa política de abertura que, no espaço de apenas um ano, passou de uma tentativa de aproximar a arbitragem do futebol para o regresso ao silêncio.
«No início da época passada, a arbitragem portuguesa abriu as portas ao exterior: primeiro, convocou sociedades desportivas e clubes para ouvirem, juntamente com os árbitros, as recomendações para a nova época. Depois convidou jornalistas, comentadores e especialistas em arbitragem para participarem em sessões de esclarecimento na Cidade do Futebol. Mais tarde, lançou um programa sobre arbitragem no Canal 11 (o Livre Arbítrio). A seguir regressou ao Juízo Final, na Sport TV, que passou a formato quinzenal. Pelo meio confirmou a realização de três conferências de imprensa ao longo da época. E por fim, anunciou que divulgaria as avaliações semanais de árbitros e vídeo-árbitros. A intenção foi clara: mais proximidade e transparência, menos mitos. No fundo, virar a página. Hoje nada resta desse caminho», escreveu na página Kick Off, que tem na rede social Facebook.
O antigo responsável pela arbitragem, que foi um dos entusiastas dessa abertura ao espaço mediático, recordou ainda que o processo foi sendo desfeito ao longo da temporada. «O programa no Canal 11 foi interrompido por decreto em dezembro, tal como o espaço dos áudios na SportTV. As conferências de imprensa foram canceladas (realizou-se apenas uma de três). E soube-se agora que a publicação das avaliações qualitativas não será retomada. No espaço de um ano, a política de comunicação da arbitragem ficou reduzida a zero. Não é uma opinião nem uma crítica. É um facto», acrescentou Duarte Gomes, numa mensagem particularmente crítica para com a mudança de estratégia do CA.
Ainda assim, o ex-diretor técnico nacional reconhece que nem todas as medidas implementadas na época passada funcionaram da melhor forma. «Naturalmente que nem tudo o que foi feito foi bem feito. Por exemplo, tornar públicas as avaliações dos árbitros foi um processo bem-intencionado, mas com incorreções visíveis: a divulgação acontecia duas semanas após os jogos (com polémicas já sanadas) e a 'nota publicada' nem sempre correspondia à atribuída pelo observador. Isso gerou natural desconforto no grupo», explicou.
Mas é precisamente o abandono total dessa política que Duarte Gomes considera mais preocupante. «Por agora, o balanço é óbvio: pior do que o fim de uma ou duas medidas, é o desaparecimento de todas. Uma das maiores críticas à classe sempre foi a da sua opção pelo silêncio. Os adeptos contestam, os clubes acusam, os comentadores especulam, as redes sociais esmagam, mas os responsáveis nada dizem nem explicam. Resultado? A falta de informação de dentro é preenchida com desinformação de fora», sustentou.
Duarte Gomes admite que a exposição pode trazer riscos e até fragilizar os árbitros, mas rejeita que essa seja razão suficiente para fechar novamente as portas. «O que outras ligas e federações têm feito com sucesso é seguir um modelo de comunicação sustentada. É fundamental ensinar clubes, imprensa e adeptos a perceberem as regras do jogo e a respeitarem os árbitros. Isso requer planeamento, consistência e, sobretudo, coragem política para não recuar nem interromper, ainda que soprem ventos contra de quem insiste em resistir à mudança», defendeu.
E terminou com uma frase que resume a sua posição perante a decisão do CA: «Afinar medidas é boa gestão. Liquidar todas é saneamento. O problema nem está no facto de se voltarem a fechar as portas. Está mais no muro que se volta a erguer em torno de uma classe que, mais uma vez, tem tudo a perder.»