Dois meses sem Sérgio se houver justiça
PAULO SÉRGIO assistiu à goleada do Portimonense em Barcelos sem nada poder fazer para corrigir o desacerto dos seus jogadores. Viu o jogo na bancada por estar em cumprimento da suspensão de um mês que lhe foi imposta na 25.ª jornada da Liga (Portimonense, 0-Vizela, 1). Não se conteve perante a falta de educação de um adepto, dirigiu-se ao referido senhor e disse-lhe na cara o que ficou gravado. Que não foi bonito.
Mais tarde, perante os jornalistas, defendeu que os adeptos têm o direito de gritar para o clube despedir o treinador, mas não o de ofender, ainda por cima a seguir a um mau resultado em que a tolerância é mínima. Paulo Sérgio excedeu-se na palavra, não mais do que isso, e foi suspenso por um mês. Ponto final.
Sérgio Conceição, por outro lado, expulso na 32.ª jornada (FC Porto, 2-Casa Pia, 1), pela 23.ª vez na carreira, na sequência de comportamento reprovável e cenas aviltantes, continua a exercer a profissão com respaldo legal, via providência cautelar.
Oque se passou no final daquele jogo, e que o país viu, foi mau de mais, exceto no pensamento de Sérgio Conceição. Na conferência de Imprensa seguinte, antes de defrontar o Famalicão, como se as imagens do final do jogo com o Casa Pia tivessem sido inventadas, o treinador portista, além de se confessar habituado àquilo que é o lixo do futebol português, considerou que o processo que lhe foi instaurado se deveu à pressão de comentadores de futebol de diferentes canais, ou de não futebol, gracejou, creio. Comentadores de vários quadrantes, alguns até ligados ao FC Porto, como acentuou, outros ao Benfica, outros ao Sporting, mas todos necessitados de defenderem «o tacho ao fim do mês».
Sempre hábil no papel de vítima, na mesma conferência, Sérgio Conceição foi ao pormenor de contar os segundos que o guarda-redes casapiano demorou a marcar um pontapé de baliza e, para dar solidez à teoria de que todos o querem prejudicar, esgrimiu um argumento de pasmar: contra o Benfica o Casa Pia fizera sete faltas, contra o FC Porto dezoito.
Como resultado disciplinar das ocorrências no FC Porto-Casa Pia, Sérgio Conceição foi suspenso por 30 dias, tal como sucedera em relação a Paulo Sérgio, mas enquanto este acatou a decisão, o treinador portista beneficiou da aceitação por parte do TAD de uma providência cautelar, o que lhe permitiu sentar-se no banco de suplentes no jogo da Supertaça.
O problema é que o treinador portista reincidiu e voltou a desrespeitar os limites da razoabilidade. Provocou a 24.ª expulsão, desta vez com a particularidade de ter começado por ignorar a ordem do árbitro, dando origem a imagens fracamente desoladoras de uma Supertaça que merecia outro desfecho pelo que se passou sobre o relvado, até ao momento da birra, tudo presenciado por um tribuna cheia de gente importante e com responsabilidades nas áreas da política, do desporto e da sociedade. Todos viram o que passou em Aveiro. Podem nada fazer, mas não podem ignorar.
SÉRGIO CONCEIÇÃO continua, porém, a sua cruzada, lamentando-se de tudo e de nada. Na projeção da Supertaça dirigiu um reparo às primeiras páginas dos jornais. Por elas, disse, «vamos acabar o campeonato em quarto lugar», mas a seu lado, Pepe, igualmente expulso na Supertaça, transmitiu outra ideia, mais realista, ao sublinhar que «primeiro, aqui, representamos uma região, sentimos esse peso».
Provavelmente, não se quis referir aos jornais da região quando criticou a política editorial das primeiras páginas, mas esse é um preconceito que emana de uma estratégia de confrontação e de intimidação pensada e executada com o supremo propósito de acelerar o crescimento do FC Porto. Ele cresceu, é verdade, depressa e muito, mas continua faltar-lhe a dimensão para deixar de ser um grande clube regional e ser identificado como grande clube de implantação nacional.
Éesse caminho que tem de ser percorrido e que Sérgio Conceição não entende ou não quer entender. Há quem garanta que ele não muda, mas se ao mês de suspensão que já lhe foi aplicado lhe acrescentarem outro pelo que de ainda mais grave de passou em Aveiro, e no seu currículo vislumbram-se muitas agravantes e poucas atenuantes, talvez seja obrigado a mudar. Se Paulo Sérgio apanhou um mês, a Sérgio Conceição dois meses não serão de mais, motivo pelo qual é ridículo sentir-se um perseguido porque ninguém é expulso em 24 ocasiões, em diferentes circunstâncias e em diferentes clubes, sem haver um motivo forte e justificado.
Nas situações mais recentes, ainda por esclarecer disciplinarmente, excedeu-se e violou as fronteiras do tolerável. Quando atingir a 25.ª expulsão em Portugal, que se prevê para breve, se calhar não vai gostar. Será notícia à escala planetária e tema obrigatório de análise e debate. Cá dentro, tanto se lhe dá, acredito, mas o que se pensa lá fora incomoda-o. Talvez a notável marca (25 expulsões) seja assinalada na página oficial do Governo em homenagem ao treinador mais incompreendido do mundo. Talvez o primeiro-ministro António Costa se lhe dirija, como fez com Pinto da Costa, «alguém que merece toda a estima e consideração» apesar dos muitos desgostos que lhe tem infligido enquanto adepto do Benfica. Talvez…