Do Mundial para o nosso palpitante futebol

1 - Na cara do jovem Smolov estava escrito o destino da Rússia, no momento em que ele avançou para cobrar o primeiro penalty no desempate por penalties contra a Croácia, que poderia ter posto a Rússia nas meias-finais do Mundial por si organizado. Talvez isso não fosse justo, pois já tinha sido assim que a Rússia havia ultrapassado antes a Espanha nos oitavos-de-final, depois de um jogo em que apenas rematara uma vez à baliza adversária e de penalty. E, de facto, só uma chave feliz lhe permitira chegar bem mais longe no Mundial do que o seu fraco futebol fazia prever. Mas a verdade é que num desempate por penalties nem sempre ganham os melhores e nos pés do jovem Smolov o destino poderia muito bem continuar a ser contrariado. Porém, bastava olhar para a cara de terror com que ele avançou para a cobrança, quase gritando aos quatro ventos «tirem-me daqui!», para perceber que iria falhar o primeiro e normalmente decisivo penalty. Em pé no banco de suplentes, o treinador russo, Cherchesov, assistiu a toda a cena, também ele com ar assustado, e, se bem que tenha tido uns bons dois minutos para reagir até que o árbitro desse início à cobrança dos penalties, manteve-se mudo e quedo, vendo a desgraça anunciada acontecer: transido de terror, Smolov nem sequer chegou a fazer o que se chama um remate, afagou a bola para a frente de mansinho e, mesmo já caído no chão, o guarda-redes croata, Subasic, limitou-se a estender uma mão e sacudi-la. Lá se foi a Rússia. E eu perguntei-me para que serve um treinador, se na hora das decisões fica estático?

2 - Lá se foi a Rússia, mas ninguém lhe pode tirar a glória de ter organizado um Mundial, quase a chegar ao fim, impecável em todos os aspectos e que, tal como aqui previ, deu a conhecer aos milhares que lá foram, um país acolhedor, fascinante e totalmente diferente de tantas ideias feitas. Amanhã, lá estarei também, em S. Petersburgo - não para ver futebol, mas para ouvir música, porque, mesmo com um Mundial a decorrer em casa, este imenso país de músicos, compositores, escritores, bailarinos, pintores, não deixa de continuar a ser tudo o resto que o torna grandioso.


Lá se foi a Rússia e lá se foi antes dela a Dinamarca, privando os estádios da Rússia e os espectadores do mundo inteiro da presença daquelas que, em minha opinião, são as mulheres mais bonitas do mundo, juntamente com as somalis. Depois, desafortunadamente, despediram-se também as suecas - ainda para mais substituídas pelas inglesas, provavelmente as mulheres mais desinteressantes do mundo. E aí temos a Inglaterra, pátria de um futebol que é também dos mais desinteressantes do mundo, a um passo da final. Graças a quê? À sorte da chave que lhe calhou e à sorte nos penalties contra a Colômbia, sem dúvida. Mas também ao talento de uma série de rapazes negros ou mestiços que se tornaram ingleses antes do Brexit. De outro modo, nem eles estariam ali a escutar o God Save the Queen nem a Inglaterra teria chegado onde chegou no Mundial. Que suprema ironia, Mr. Boris Johnson! Assim como é uma suprema ironia, Madame Le Pen, que a França seja, e merecidamente, a melhor candidata que resta ao título mundial (se a Bélgica hoje não cometer mais uma surpresa!) - uma posição a que não teria chegado sem jogadores negros, negrinhos, como Matuidi, Pogba, Mbappé.

3 - É também uma deliciosa ironia que a única verdadeira má arbitragem deste Mundial, a do Portugal-Irão, só tenha acontecido devido à constante e insuportável pressão... de quem? De um português: de Carlos Queiroz, sobre o VAR. De resto, aquilo que eu vi, jogo após jogo, foram arbitragens lineares, simples e seguras, com um critério uniforme, que não variava de árbitro para árbitro. E mesmo na aplicação do VAR, em que vi tantos dos nossos críticos começarem por falar de alto, louvando-se da nossa maior experiência, o que vi foi uma muito melhor aplicação do VAR na Rússia do que em Portugal. Não me admira nada, portanto, que nem um só árbitro português tenha sido chamado ao Mundial da Rússia. Devíamos meditar nas razões para tal, mas de certeza que o caminho não será esse. Dou só um exemplo. Durante anos, suspirei em vão pela passagem à reforma compulsiva daquele que era, consabidamente, o pior árbitro português em exibição e, desde o inesquecível espectáculo inaugural em Campo Maior, o menos isento: Bruno Paixão. Mas, não: sempre igual a si mesmo, sempre mal classificado ano após ano, ele lá seguiu a sua triste carreira até ao fim. E eis que, quando finalmente eu já suspirava de alívio por ver este Carlos Valente dos tempos modernos definitivamente afastado do apito, eis que é anunciado que vai iniciar uma carreira paralela como VAR. Fantástico: quem passou anos a provar sobejamente ser mau árbitro de campo, vai agora corrigir os árbitros de campo!

4 - Uma «injecção de confiança» - foi assim que este jornal titulou o primeiro treino aberto do Benfica, perante 20.000 adeptos na Luz. E o clube bem precisa, depois de falhada, com inteira justiça, a tentativa do penta, depois de uma época em que falhou todos e cada um dos títulos nacionais das modalidades profissionais, e depois de meses a fio sem sair das páginas dos jornais pelas piores razões, debaixo de suspeições gravíssimas - levantadas, não por denúncias anónimas ou ataques cobardes dos rivais, como pretendem fazer crer as task-forces dos seus caríssimos advogados, mas sim pelo Ministério Público, por confissões de jogadores que dizem ter sido aliciados para perder jogos e por outros indícios já recolhidos e tão comprometedores que nem 200.000 adeptos aos gritos conseguiriam abafá-los. Basta recordar o último, cujos factos principais em análise foram confirmados - repito, confirmados - por um comunicado da Procuradoria-Geral da República, poucas horas depois de o Benfica os ter desmentido como «calúnia»: que, com o «único intuito» de retirar dinheiro do Benfica, as Sociedades Benfica SAD e Benfica Estádio simularam o pagamento de serviços fictícios a uma empresa terceira, a qual imediatamente procedeu ao levantamento do dinheiro em cash. E que foi esse levantamento em notas que levou as entidades bancárias envolvidas a alertarem as autoridades judiciárias, no cumprimento das disposições legais em vigor, e não uma denúncia do FC Porto, como pretendeu o Benfica. Ora, como todos percebemos facilmente, o que a PGR investiga não é porque razão o Benfica queria levantar dinheiro em cash, recorrendo a terceiros. Isso parece evidente: para fazer pagamentos sem deixar rasto. O que devem estar a investigar são duas outras coisas: a quem pagou e porque pagou. São duas perguntas que queimam. E que continuam aí.

5 - Lá em casa, isto é, pelos lados do Dragão, a estação de todos os perigos - isto é, a das compras e vendas - está em pleno desenvolvimento. Apesar de tudo, comedidamente, comparado com o que vejo acontecer na Luz, onde já compraram uma equipa inteira e não querem ficar por aí, e em Alvalade, onde Sousa Cintra vem conseguindo, com arte e saber, recuperar ou rentabilizar a espinha dorsal de uma equipa que Bruno de Carvalho pôs em debandada, com os seus métodos de Nero de Alcochete. Sei que os meus pedidos para nada servem, mas torço com todas as minhas forças para que não deixem sair o Alex Telles nem o Marega. Que não deixem ir embora o Chidozie nem o Mikel e alguns dos miúdos sem lhes dar uma oportunidade. E, no resto, confio no critério do Sérgio Conceição - embora, como sempre, tema as más influências dos que por ali andam a rondar e cuja única forma de vida consiste em fazer negócios com o FC Porto. E, acima de tudo, desejo que não se compre o Raul Silva nem qualquer jogador a António Salvador. Que não se lhe empreste nenhum, que não se lhe dê um euro a ganhar. Que o deixem fazer negócios com o seu amigo e sócio do Benfica. Já chega!


E, para mim também, já chega: é altura de ir de férias.