Do «medo» de que falou Varandas à «armadilha»: tudo o que disse Farioli
Francesco Farioli garante que o FC Porto não vai «atacar de forma louca» sob pena de «cair na armadilha» do Sporting no encontro desta quarta-feira, no Dragão, referente à 2.ª mão das meias-finais da Taça de Portugal. Apesar da desvantagem trazida de Alvalade (1-0), o treinador dos dragões assegura que o jogo «está a ser muito bem planeado» e promete uma equipa com «grande espírito»... sem precisar de «gasolina extra» decorrente de «ruído externo».
— Sim, é a quarta vez que os defrontamos. Por outro lado, não concordo totalmente com o facto de os conhecermos, porque temos sempre tempo para preparar o jogo de uma forma diferente. Vamos ver que tipo de estratégia será aplicada de ambos os lados. Com certeza que é um grande jogo, contra um adversário muito forte, como digo sempre. Jogarmos em casa com os nossos adeptos vai ser um fator importante, tenho a certeza. Internamente, há uma forte crença de que podemos atuar ao mais alto nível e que podemos dar a volta ao resultado da primeira mão.
— O que pode dizer sobre o estado clínico de Martim Fernandes e Zaidu? E, já agora, o recorde de assistência no Dragão é resultado de uma química especial entre equipa e adeptos?
— O Martim vai estar de volta, o Zaidu vai ficar de fora, ainda está no processo de recuperação. Sobre o recorde de assistências, acho que há uma química bastante forte entre a equipa e os adeptos, um vínculo muito forte. Sabemos como são os nossos adeptos, sempre muito fervorosos, conseguimos senti-los onde quer que estejamos, seja no Dragão, seja quando jogamos fora, na Europa ou nas competições internas. Estamos muito gratos. Estes recordes devem-se, provavelmente, ao facto de termos começado com uma equipa muito jovem, que era de certa forma um underdog na Liga, com o espírito de tentar reconstruir algo. E este processo tem sido bastante rápido. Houve mais do que um jogo em que não fomos perfeitos, mas penso que poucas vezes os adeptos saíram do estádio com a sensação de que não demos tudo. Com todas as nossas limitações e fraquezas, ou todos os problemas e momentos difíceis que tivemos esta época, a equipa colocou sempre um esforço incrível para superar as dificuldades, para superar as ausências e jogar verdadeiramente com o espírito do Dragão. E é isso que temos feito até agora e que, claro, gostaríamos de fazer também amanhã [quarta-feira].
— Acredita que este pode ser o jogo da época para o Sporting?
— Não sei. A realidade é que este jogo está isolado de todas as outras competições. É um jogo que tem uma história completamente separada das nossas jornadas europeias e da Liga. É um jogo único, que pode levar-nos à final. É um grande jogo contra uma equipa que, desde o início da época, nos tem desafiado. A motivação natural vai estar lá. É claro que vai ser um jogo enorme. E, com toda a franqueza, não acredito que o espírito deles neste momento esteja em baixo, porque se há jogo que queres jogar é contra o teu principal rival, contra a equipa que tens enfrentado toda a época. E isto é válido para eles, mas também para nós. Desde que jogámos lá a primeira mão da Taça, tivemos sempre este desejo de recebê-los no Dragão, para fazer um grande jogo e ter outra oportunidade de dar a volta ao resultado com muita crença e muito desejo. Porque acredito que temos todas as possibilidades de o fazer. Mais uma vez, conhecendo as qualidades individuais e coletivas que têm — e acho que o provaram na Liga, mas também no caminho fantástico que fizeram na Champions League —, temos outra oportunidade para tentarmos provar quem somos, para nos colocarmos numa boa posição e, principalmente, para irmos à final, que é o que está nas nossas mentes desde que começámos esta competição.
— O FC Porto tem a hipótese de fazer a 'dobradinha'. A seu ver, este jogo é como se fosse a final da Taça?
— Encaramos todos os jogos com esse sentimento. Na Liga, é preciso somar pontos e pontos todos os fins de semana, porque o ritmo dos nossos adversários é incrível. E acho que o dérbi de domingo [Sporting-Benfica] provou isso mesmo: estamos a competir com dois gigantes, duas equipas que são realmente fortes e que vão desempenhar o seu papel até ao fim. Este é um jogo enorme, claro. Por outro lado, gosto sempre de ir passo a passo. Para quem for à final, ainda há outro jogo que precisa de ser jogado. O jogo de amanhã [quarta-feira] pode ter 90, 120 minutos ou ser ainda mais longo, com penáltis, e precisa de ser muito bem trabalhado mentalmente, fisicamente e do ponto de vista tático. Cada detalhe pode determinar o desfecho. Por isso, vai exigir muita atenção, ofensiva e defensivamente. Um espírito muito forte, ainda mais do que o habitual, para ter a capacidade de correr aqueles 5 metros extra por cada jogador. Precisamos de um desempenho de topo. Acredito que estamos na forma certa para entregar esse nível de jogo e creio que o Dragão fará o resto.
— Rui Borges disse que esperava que o FC Porto recebesse o Sporting da mesma forma que foi recebido em Alvalade. Como pode prometer receber o rival em termos de logística?
— Sobre a parte logística, é uma das poucas coisas pelas quais não sou responsável. Do meu lado, acho que o que vamos tentar fazer é recebê-los bem no campo, com a organização certa, com o espírito de que precisamos, a agressividade que temos de colocar no campo com e sem bola. Com uma crença clara de irmos buscar o que precisamos.
— Que comentário faz à nomeação do árbitro Miguel Nogueira, depois da polémica do puxão a Gul no FC Porto-Benfica? E a equipa treinou penáltis?
— Já tivemos este árbitro no clássico e muitas vezes também como quarto árbitro. Honestamente, espero um grande desempenho, porque ele é uma parte importante do jogo e apenas as pessoas que merecem estar neste jogo é que vão estar lá. E a nomeação prova que ele tem a qualidade para estar lá e para fazer um excelente trabalho. Sim, treinámos penáltis, como fizemos com o Nottingham. É sempre difícil replicar a pressão e o sentimento do jogo, embora tentemos ter os nossos truques para gerar um pouco de pressão extra. O Alan Varela já marcou um penálti bastante importante, se bem me lembro, contra o V. Guimarães, nos últimos minutos. Temos total confiança nele e, se for o caso, não tenho dúvidas de que terá a responsabilidade e a personalidade para bater a bola e marcar.
— Tendo em conta a desvantagem, podemos esperar um FC Porto menos expectante a partir do primeiro minuto?
— É importante abordar o jogo evento a evento e ter um grande desempenho. É verdade que começamos a perder 1-0, mas isto não pode fazer-nos cair na armadilha de atacar como loucos desde o primeiro minuto. Precisamos de ter uma abordagem muito forte, que já temos em todos os jogos e sempre tivemos contra o Sporting. Uma vez apresentei alguns números sobre a quantidade de bolas que recuperámos e que não recuperámos no meio-campo adversário para dizer que o quão agressivo queres ser, é, principalmente, sem bola. Com bola podes claro gerar coisas, mas trata-se de enfrentar uma estrutura que é mais conservadora, forçando-te a dar alguns passes extra e a ter um pouco mais de paciência. Se atacares rápido quando não é o momento para isso, vais expor-te ao contra-ataque, que é algo que gostaríamos de evitar. Temos de ter o jogo bem planeado para todos os cenários: se marcarmos cedo, se o jogo se mantiver estável... Estamos prontos, embora não haja muito tempo para preparar o jogo, mas estamos mentalmente no lugar certo, taticamente tentámos o nosso melhor para chegar lá preparados e, fisicamente, o jogo com o Tondela diz muito sobre onde a equipa está fisicamente. Foi o nosso terceiro jogo mais alto em termos de distância de sprint, depois de jogarmos com 10 homens durante 90 minutos em Nottingham. Como sempre, isto não é suficiente, mas são elementos que me dão a crença de que podemos ter um desempenho muito forte no clássico. Mas não jogamos sozinhos, jogamos contra uma equipa de topo e esta combinação de muitos fatores definirá o resultado final.
— Após a primeira mão, Varandas disse que o FC Porto e o seu presidente estavam com «medo». Estas palavras entraram na preparação do jogo em termos motivacionais?
— Não precisamos de nenhum fator extra para estarmos motivados. Não estamos numa posição onde precisamos de ter barulho ou caos. Estamos muito confiantes sobre quem somos. Conhecemos as nossas qualidades, os pontos que temos de melhorar, que ainda lá estão e estamos a trabalhar arduamente para nos desenvolvermos. Tudo o resto, toda a poluição que vem de certos comentários, não entra na nossa mente e não deve entrar. Quero ver uma equipa que se comporte adequadamente, uma equipa que vai ser forte no campo, muito agressiva, com certeza para ter um desempenho físico, mental e tático ao mais alto nível. Mas com zero desejo de vingança, ou algo do género. Não temos de nos vingar de ninguém. A corrida é connosco, para fazer tudo o que está dentro das nossas possibilidades para jogar esta meia-final com o espírito que os nossos adeptos querem ver. No fim, veremos onde estamos, mas absolutamente desconectados de todas as palavras que foram ditas no passado.
— A primeira mão foi há cerca de mês e meio. Este distanciamento temporal dificulta a preparação?
— Se compararmos com a situação do Nottingham, onde jogas a primeira e a segunda mão em sete dias... Com um intervalo tão grande, a história é um pouco diferente. A imagem de onde devemos começar e ligarmo-nos emocionalmente é o último sprint do Pepê, ao minuto 96, em que ele travou o jogador do Sporting que ia isolado para a baliza. Acredito verdadeiramente que aquela corrida pode ser a corrida da qualificação. Pode ser a corrida que nos coloca na condição de ter mais uma possibilidade de nos qualificarmos. E também é muito representativa de quem somos, de como esta equipa se comporta, do sacrifício que todos os jogadores estão a colocar em campo todos os dias. O Pepê, mais do que ninguém, é a imagem deste grupo, porque é um jogador que tem sido muito criticado pelo facto de não marcar tanto na Liga, mas o seu contributo 'invisível' — muito visível, a meu ver — esteve sempre lá. Quando não conseguia ajudar com um golo, ajudava-nos sempre com outra coisa, uma assistência, um trabalho que criava melhores condições para um colega... E o que ele fez em Alvalade, com aquela corrida no último minuto, é onde nos reconectamos para este encontro. Acredito verdadeiramente que aquela pode ser a ação que amanhã à noite [quarta-feira], recordaremos como uma das mais decisivas para ir à final.
— O FC Porto tem tido bons resultados contra os outros grandes. A mentalidade muda nestes jogos?
— Diferença de mentalidade, não sei. De fora talvez seja difícil de acreditar, mas se perguntarem aos nossos jogadores, preparamo-nos exatamente da mesma forma se jogarmos com uma equipa do topo da Liga, se jogarmos uns quartos de final da Liga Europa, se jogarmos contra a equipa no fundo da tabela ou contra uma equipa de uma divisão inferior. Nesse aspeto, sou bastante paranoico na forma como gosto de ver cada jogo com os mesmos óculos, tentando manter a nossa rotina. O meu trabalho e uma das minhas regras principais é respeitar cada adversário ao mesmo nível. Sobre os nossos desempenhos contra equipas grandes, acho que até agora fizemos um excelente trabalho, mas o passado é o passado. Este é um novo jogo, um capítulo diferente e um momento diferente da época. É um jogo que tem muitas coisas dentro dele e acho que o nosso foco tem de ser absoluto em cada evento que vai acontecer. Sem sequer pensar no final do jogo, mas na forma como vamos preparar o primeiro minuto, o segundo minuto, o terceiro minuto e assim por diante. Mais uma vez, com todo o desejo de agarrar a qualificação para a final, exija 90 minutos, 120 ou penáltis. O que queremos é claro: ir à final. Podem ter a certeza de que faremos tudo o que estiver ao nosso alcance para o conseguir.