André Villas-Boas, Frederico Varandas e Rui Costa aquando da tomada de posse de Pedro Proença como presidente da FPF — Foto: ANDRÉ CARVALHO
André Villas-Boas, Frederico Varandas e Rui Costa aquando da tomada de posse de Pedro Proença como presidente da FPF — Foto: ANDRÉ CARVALHO

Do clubismo e da clubite

A mudança geracional nas lideranças dos principais clubes justificava a existência de uma nova mentalidade, que não estivesse refém de desavenças do passado, e contribuísse para um Desporto melhor. Não tem sido assim…

Os clubes portugueses cresceram num clima de tensão permanente entre si e, desde que me recordo, houve sempre períodos de cortes de relações institucionais, que muito contribuíram para transformar o saudável clubismo em tóxica clubite. Até à Lei Bosman, de 1995, que abriu as portas da Europa aos nossos melhores futebolistas, a Seleção Nacional foi uma das principais vítimas do estado das coisas, com ataques constantes aos selecionadores por levarem este do Benfica em vez de outro do Sporting, e vice-versa, com o FC Porto a queixar-se do Terreiro do Paço pela ostracização de futebolistas que entendia serem selecionáveis. Quando, no pós-Bosman, as representações dos principais clubes na Seleção passaram a ser residuais, deixou de se discutir quem municiava a Seleção Nacional, que, povoada de jogadores do Manchester United, Manchester City, Real Madrid, Barcelona ou Chelsea, foi-se aproximando cada vez mais da ideia de equipa de todos nós.

Infelizmente, noutras áreas relacionadas com o desenvolvimento da indústria do futebol, apesar dos progressos feitos ao longo dos últimos anos, nomeadamente na Liga, com quadros de segunda linha dos clubes, ainda não foi dado o passo em frente que nos projetasse para uma dimensão mais adulta e destruísse a ideia de que os clubes, em vez de inimigos, devem tratar-se como adversários, alastrando esse conceito às massas de adeptos.

Confesso que pensei que, com a mudança geracional nas lideranças do Benfica, Sporting e FC Porto, as coisas mudassem de forma decisiva e fosse possível um convívio menos encapsulado em desavenças antigas e métodos ultrapassados. Sem perder a esperança de que tal ainda venha a ser possível, reconheço o desencanto provocado pelas constantes acusações e pela ausência de uma frente unida capaz de defender os interesses do futebol profissional em causas tão importantes e justas como as da fiscalidade ou da segurança. Noutros países com fortes indústrias do futebol, a rivalidade entre os principais clubes não é menor do que a que existe por cá, mas, na hora de defender interesses comuns – na bilhética, nos direitos televisivos, nos custos com a segurança, por exemplo – conseguem assumir posições conjuntas, transmitindo aos detentores do poder uma ideia de unidade que lhes dá força. Ao mesmo tempo, com gestos simples, como os presidentes se sentarem lado a lado durante os jogos, transmitem aos adeptos uma ideia de civilidade compatível com a rivalidade, que será sempre um motor de evolução e desenvolvimento.

Creio que já é tempo de os presidentes dos nossos principais clubes deixarem de dar ouvidos às teses mais radicais, que pertencem a um passado sem saudades, e passarem a assumir uma convivência mais distendida, que em nada belisque a identidade de cada emblema e não represente uma cedência na defesa dos direitos de cada um, mas que crie condições para que o futebol seja essencialmente falado pelas boas razões.

Poder-se-á pensar que esta é uma visão lírica e desfasada da realidade. Mas só o será se as lideranças dos clubes não quiserem criar condições para o crescimento económico e social, que só subsistirão num ambiente onde a poluição verbal não exista e a hierarquização da importância dos assuntos seja objetiva e racional.