Do clubismo e da clubite
Os clubes portugueses cresceram num clima de tensão permanente entre si e, desde que me recordo, houve sempre períodos de cortes de relações institucionais, que muito contribuíram para transformar o saudável clubismo em tóxica clubite. Até à Lei Bosman, de 1995, que abriu as portas da Europa aos nossos melhores futebolistas, a Seleção Nacional foi uma das principais vítimas do estado das coisas, com ataques constantes aos selecionadores por levarem este do Benfica em vez de outro do Sporting, e vice-versa, com o FC Porto a queixar-se do Terreiro do Paço pela ostracização de futebolistas que entendia serem selecionáveis. Quando, no pós-Bosman, as representações dos principais clubes na Seleção passaram a ser residuais, deixou de se discutir quem municiava a Seleção Nacional, que, povoada de jogadores do Manchester United, Manchester City, Real Madrid, Barcelona ou Chelsea, foi-se aproximando cada vez mais da ideia de equipa de todos nós.
Infelizmente, noutras áreas relacionadas com o desenvolvimento da indústria do futebol, apesar dos progressos feitos ao longo dos últimos anos, nomeadamente na Liga, com quadros de segunda linha dos clubes, ainda não foi dado o passo em frente que nos projetasse para uma dimensão mais adulta e destruísse a ideia de que os clubes, em vez de inimigos, devem tratar-se como adversários, alastrando esse conceito às massas de adeptos.
Confesso que pensei que, com a mudança geracional nas lideranças do Benfica, Sporting e FC Porto, as coisas mudassem de forma decisiva e fosse possível um convívio menos encapsulado em desavenças antigas e métodos ultrapassados. Sem perder a esperança de que tal ainda venha a ser possível, reconheço o desencanto provocado pelas constantes acusações e pela ausência de uma frente unida capaz de defender os interesses do futebol profissional em causas tão importantes e justas como as da fiscalidade ou da segurança. Noutros países com fortes indústrias do futebol, a rivalidade entre os principais clubes não é menor do que a que existe por cá, mas, na hora de defender interesses comuns – na bilhética, nos direitos televisivos, nos custos com a segurança, por exemplo – conseguem assumir posições conjuntas, transmitindo aos detentores do poder uma ideia de unidade que lhes dá força. Ao mesmo tempo, com gestos simples, como os presidentes se sentarem lado a lado durante os jogos, transmitem aos adeptos uma ideia de civilidade compatível com a rivalidade, que será sempre um motor de evolução e desenvolvimento.
Creio que já é tempo de os presidentes dos nossos principais clubes deixarem de dar ouvidos às teses mais radicais, que pertencem a um passado sem saudades, e passarem a assumir uma convivência mais distendida, que em nada belisque a identidade de cada emblema e não represente uma cedência na defesa dos direitos de cada um, mas que crie condições para que o futebol seja essencialmente falado pelas boas razões.
Poder-se-á pensar que esta é uma visão lírica e desfasada da realidade. Mas só o será se as lideranças dos clubes não quiserem criar condições para o crescimento económico e social, que só subsistirão num ambiente onde a poluição verbal não exista e a hierarquização da importância dos assuntos seja objetiva e racional.