«Fala-se, e bem, de infraestruturas. Mas importa não as reduzir ao betão», defende André Mosqueira do Amaral
«Fala-se, e bem, de infraestruturas. Mas importa não as reduzir ao betão», defende André Mosqueira do Amaral

'Laissez-faire' não basta: é preciso executar

Liga para Todos é o espaço de opinião de André Mosqueira do Amaral, Diretor Executivo da Liga Portugal

Entre o 'deixem passar esta linda brincadeira' do bailinho da Madeira e o princípio do laissez-faire, laissez-passer, há uma ideia comum: criar espaço para que as coisas aconteçam. Com menos bloqueios. Com mais fluidez. Existe uma tentação recorrente de acreditar que o que nos falta é mais estratégia, mais planos, mais visão. Mas, na verdade, o que frequentemente falta é fazer acontecer. Vai acontecendo, é certo, mas demasiado devagar. Tão devagar que, muitas vezes, quando chega ao terreno, as oportunidades já passaram.

Entretanto, lá fora, outros não estão necessariamente a pensar melhor. Estão a fazer mais depressa. E isso, hoje, faz toda a diferença. Durante demasiado tempo confundimos planeamento com execução. Criámos uma cultura onde o foco está no desenho e na perceção, mais do que na concretização. No entanto, a linha que verdadeiramente importa não é entre quem pensa melhor, mas entre quem executa e quem não executa. Este não é um argumento contra o pensamento estratégico. Isso é indispensável e há quem tenha precisamente essa missão.

Mas há também quem tenha uma responsabilidade diferente. No caso da Liga Portugal, essa responsabilidade é clara: não basta pensar o jogo, é preciso fazê-lo acontecer. Também se repete, com frequência, que o problema está na falta de investimento. A realidade é mais exigente: o capital não falta, o capital escolhe. E escolhe ambientes previsíveis, processos ágeis e decisões céleres.

Quando encontra incerteza, demora ou bloqueio, afasta-se. Ou entra com desconto. Há ainda um efeito menos visível, mas igualmente relevante: a morosidade e a sobre-regulação que associamos ao setor público tendem a contaminar o futebol. Os processos arrastam-se, as decisões tardam e a urgência desaparece. Num mercado global, onde o futebol disputa atenção, capital e talento, essa lentidão tem um custo elevado.

Fala-se, e bem, de infraestruturas. Mas importa não as reduzir ao betão. Infraestruturas são também sistemas, tecnologia, dados, distribuição e experiência do adepto. Sem organização e capacidade de execução, o betão, por si só, não cria valor. O mesmo se aplica ao equilíbrio financeiro.

O fair play é essencial, mas não pode fazer-nos esquecer o essencial: o futebol é, antes de mais, espetáculo. E o espetáculo depende de talento. Os plantéis são o produto. Se nos limitarmos a controlar e restringir, corremos o risco de construir um sistema equilibrado, mas irrelevante.

No final, o desafio não é desenhar mais uma estratégia. É criar condições para executar: simplificar, decidir, dar previsibilidade e assumir responsabilidade.Porque, no futebol de hoje, não ganha quem pensa melhor. Ganha quem faz melhor. E isso chama-se execução.