Direitos TV: a receita do bolo
No futebol português, há uma obsessão recorrente com o resultado final. Queremos mais competitividade, melhores audiências, estádios cheios e clubes capazes de ir mais longe na Europa. Falamos do bolo como se ele crescesse por geração espontânea, como se bastasse mudar a forma de o dividir para que, por milagre, ele aumentasse de tamanho. O problema é que insistimos em discutir a partilha antes de rever a receita.
A centralização dos direitos audiovisuais nasceu envolta numa aura quase messiânica. Foi apresentada como a solução inevitável para todos os males do nosso futebol: desigualdade competitiva, falta de atratividade da Liga, distância para os grandes campeonatos europeus. Liga Portugal, decisores políticos e parte significativa do discurso mediático alinharam numa solução única, importada de realidades profundamente distintas da nossa. Hoje, com o tempo a passar e os sinais de alarme a multiplicarem-se, esse consenso tornou-se uma armadilha.
Portugal não é Inglaterra, nem Espanha, nem Alemanha. Nem sequer é, em rigor, Holanda ou Bélgica. A nossa realidade clubística é singular e profundamente assimétrica: mais de 90% dos adeptos concentram-se em três clubes. Benfica, Sporting e FC Porto não são apenas clubes grandes — são fenómenos sociais, culturais e mediáticos que capturam quase toda a atenção, audiências e consumo emocional do futebol nacional. O SC Braga, com mérito desportivo e visão de futuro crescente, está na luta para romper essa barreira estrutural.
Ao mesmo tempo, a velha cultura clubística de bairro e de cidade foi-se esvaziando. Clubes históricos, enraizados em centros urbanos relevantes, desapareceram do mapa competitivo principal: Académica, Vitória de Setúbal, Beira-Mar à cabeça. A sua ausência não é apenas simbólica — é um golpe direto na capacidade de mobilizar públicos, gerar narrativas, criar rivalidades e maximizar assistências. Quem quer comprar um produto onde cidades médias e universitárias estão afastadas e onde muitos estádios vivem cronicamente às moscas?
É neste contexto que se insiste numa centralização pensada como panaceia. Mas os exemplos externos deviam servir de aviso, não de inspiração cega. O fiasco do contrato de centralização da liga belga e o colapso financeiro e reputacional da Ligue 1 francesa, com acordos irrealistas e operadores a recuar, mostram o perigo de sobrevalorizar um produto que não acompanha as expectativas criadas. O mercado não perdoa ilusões.
Há um dado que raramente entra na equação com a seriedade devida: o contributo decisivo dos quatro grandes para o ranking da UEFA. Portugal mantém uma posição europeia relevante porque Benfica, FC Porto, Sporting e SC Braga conseguem concentrar receitas suficientes para competir — com limitações, mas com dignidade — contra clubes de países com orçamentos incomparavelmente superiores e pontos de partida muito mais vantajosos. Retirar-lhes capacidade financeira em nome de uma competitividade artificial é um risco estrutural para o futebol português como um todo.
Sem esses pontos na UEFA, não há prémios, não há vagas europeias, não há visibilidade internacional, não há crescimento do tal bolo. Há apenas empobrecimento coletivo disfarçado de justiça distributiva.
Isto não significa defender um status quo imutável ou ignorar a necessidade de solidariedade. Pelo contrário. Mas a solução não passa por um modelo clássico de centralização que ignora as nossas idiossincrasias. Passa por pensar primeiro nos alicerces: redistribuição mais justa das receitas UEFA, reformulação dos quadros competitivos e investimento sério e obrigatório em infraestruturas.
É inaceitável que um clube da Primeira Liga jogue anos a fio em casa emprestada, como acontece com o Casa Pia. É incompreensível que o Rio Ave continue sem uma bancada que aparece nas transmissões televisivas. Quem quer comprar um produto que se apresenta incompleto, improvisado e visualmente pobre? A atratividade começa na credibilidade.
Os clubes com menos recursos precisam de critérios claros de desenvolvimento sustentável. Não podem continuar a ser empurrados para investidores em forma de D. Sebastião em nome de um sucesso imediato que raramente se concretiza. Esse caminho faz-se com mecanismos de solidariedade, mas ancorados em quem mais contribui efetivamente para a posição de Portugal na Europa. Não através de uma falsa competitividade que apenas retira recursos fundamentais aos motores do sistema e fragiliza o todo a médio e longo prazo.
A centralização, tal como está a ser pensada, arrisca-se a ser mais um caso de boas intenções e maus resultados. Um modelo rígido para uma realidade fluida. Uma solução única para um problema que exige nuance, diferenciação e coragem política.
Não é possível querer que o bolo cresça sem rever a receita primeiro. E enquanto insistirmos em copiar modelos alheios, ignorando quem somos e onde estamos, continuaremos a discutir a divisão de um bolo cada vez mais pequeno — convencidos de que o problema está apenas na faca.