Adepto do River desesperado com a histórica descida, em 2011
Adepto do River desesperado com a histórica descida, em 2011

As descidas de divisão mais traumáticas da história do futebol: uma até provocou uma morte

Leicester foi campeão da Premier League em 2016 e viu ontem confirmada a descida ao terceiro escalão

A recente queda do Leicester para a League One, a terceira divisão inglesa, veio recordar uma dura realidade no futebol: nem a história, nem os títulos, nem o peso de um emblema garantem a permanência na elite. Os campeões da Premier League em 2016 juntam-se agora a uma lista de gigantes que sofreram descidas de divisão traumáticas, muitas vezes fruto de má gestão, crises financeiras e declínios desportivos acentuados. O da equipa de Ricardo Pereira agravou-se desde a trágica morte do dono do clube, Vichai Srivaddhanaprabha, num trágico acidente de helicóptero a sair do estádio, em outubro de 2018.

A queda dos foxes, marcada por problemas financeiros e uma penalização de seis pontos, acontece apenas uma década depois de terem alcançado o céu. Este caso sublinha que uma má temporada raramente é a única causa de uma descida, sendo muitas vezes o culminar de anos de decisões erradas. Atualmente, o Tottenham, em Inglaterra, e o Wolfsburgo, na Alemanha, também lutam para evitar um destino semelhante.

De Inglaterra a Itália: quedas que abalaram o futebol europeu

Em Inglaterra, o caso do Leeds é um dos mais emblemáticos. Campeão em 1991/92 e semifinalista da Liga dos Campeões em 2001, o clube colapsou financeiramente, desceu da Premier League em 2004 e chegou a cair para o terceiro escalão. O regresso à primeira divisão só aconteceu em 2020, sob o comando do carismático Marcelo Bielsa. Também o Newcastle, com a sua enorme massa adepta, sofreu duas descidas neste século (2009 e 2016), embora tenha conseguido reerguer-se, voltar à Champions e conquistar a Taça da Liga em 2025.

Em Itália, a história do Parma é um verdadeiro drama. Equipa de referência nos anos 90, o clube foi abalado pelo escândalo financeiro da Parmalat e, em 2015, declarou falência com dívidas superiores a 200 milhões de euros. Foi forçado a recomeçar na Serie D, a quarta divisão, até conseguir regressar à Serie A anos mais tarde. No entanto, a descida mais mediática foi a da Juventus em 2006, não por motivos desportivos, mas devido ao escândalo de manipulação de resultados conhecido como Calciopoli. Apesar do choque de ver um bicampeão europeu na Serie B, a equipa respondeu com uma subida imediata, mantendo estrelas como Del Piero e Buffon.

Símbolos derrubados na Alemanha, Argentina e França

Na Alemanha, o Hamburgo era o único clube que nunca tinha descido desde a criação da Bundesliga, com o famoso relógio do estádio a marcar o tempo na elite. Esse símbolo de orgulho parou em 2018, numa das quedas mais dolorosas do futebol alemão. O clube acabaria por regressar à Bundesliga em 2025.

Já na Argentina, a descida do River Plate em 2011 teve um impacto nacional, com um dos dois maiores clubes do país a cair pela primeira vez na sua história, o que gerou distúrbios e uma comoção que perdura até hoje. Um jovem adepto, de 23 anos, alcoolizado e perturbado com a situação, decidiu tirar a própria vida na madrugada seguinte ao jogo, numa linha de comboio em Buenos Aires.

Em França, o Saint-Étienne, outrora o clube mais titulado do país com 10 campeonatos, também sofreu com o passar do tempo. O histórico clube desceu novamente de divisão em 2025, um reflexo de como a sua realidade recente já não corresponde ao seu passado glorioso.

O caso do Atlético de Madrid

Em Espanha, uma das descidas mais chocantes foi a do Atlético de Madrid no ano 2000. Apenas quatro anos após a histórica "dobradinha" de 1995/96, em que conquistou a Liga e a Taça do Rei, o clube rojiblanco caiu para a segunda divisão no meio de uma profunda crise institucional e desportiva. O regresso à primeira divisão só aconteceria em 2002.

A história do futebol está repleta de quedas inesperadas, com clubes que, após atingirem o auge, sofreram descidas de divisão traumáticas. Os casos do Olympique de Marselha, do Manchester United e de outros gigantes servem como um lembrete de que, no desporto, quanto maior a glória, mais dolorosa pode ser a queda.

Em França, o caso mais emblemático é o dos marselheses. Em 1993, o clube alcançou o topo do futebol europeu ao tornar-se na primeira equipa francesa a vencer a Liga dos Campeões. Contudo, apenas um ano depois, o castelo ruiu. Devido ao escândalo de manipulação de resultados conhecido como o caso VA-OM, o clube foi despojado do título de campeão francês de 1993 e despromovido administrativamente à segunda divisão em 1994.

O impacto não foi apenas desportivo, mas também institucional e de reputação, transformando o orgulho do futebol francês num dos seus maiores escândalos. A crise aprofundou-se a tal ponto que o clube declarou falência em 1995, antes de iniciar um longo processo de reconstrução para regressar à elite.

Já em Inglaterra, a descida do Manchester United em 1974 permanece como um dos episódios mais simbólicos. Apenas seis anos após sagrar-se campeão europeu, a equipa caiu de divisão após uma derrota decisiva no dérbi contra o Manchester City, em Old Trafford. O golo que selou o destino foi marcado, de calcanhar, por Denis Law, uma lenda do United e membro da icónica «Santíssima Trindade», ao lado de Bobby Charlton e George Best.

Apesar de outros resultados ditarem igualmente a despromoção, o simbolismo de ver um dos seus maiores ídolos marcar o golo da derrota tornou o momento inesquecível e cruel. Law, que marcou 237 golos em 404 jogos pelo clube, não celebrou o golo. Em Espanha, a descida de um clube histórico com uma enorme massa adepta, forçado a passar duas épocas na segunda divisão, também se converteu num dos grandes traumas do futebol local.