Da «prostituição intelectual» à mão na orelha: a tensa relação entre Mourinho e a Juventus
A visita do Benfica ao terreno da Juventus na quarta-feira, na sétima jornada da fase de liga da UEFA Champions League marca mais um capítulo de uma história pouco amigável entre José Mourinho e os bianconeri. O técnico luso antecipou um regresso pouco amigável em Turim, após receber uma forte ovação na deslocação dos encarnados a casa do Chelsea, a 30 de setembro: «De certeza que não vou ser recebido em Turim como fui em Stamford Bridge, mas gosto sempre de jogar naquele estádio.»
Uma orelha, três dedos e muitos assobios
O histórico de Mourinho no terreno da Juventus, ainda assim, está longe de ser positivo. O técnico luso venceu apenas um dos seis jogos que disputou no lado preto e branco de Turim, num dos picos da animosidade contra o clube.
O Manchester United travou dois duelos escaldantes contra a Juventus na fase de grupos da UEFA Champions League, em 2018/19. Os bianconeri venceram o primeiro assalto, a 23 de outubro de 2018, num duelo que ficou marcado pelo gesto de Mourinho na direção dos adeptos transalpinos no final da partida.
O técnico luso, depois de ter sido assobiado ao longo da partida em Old Trafford, gesticulou um três com a mão, em alusão ao triplete conquistado ao serviço do Inter, em 2009/2010. Na antevisão ao duelo da segunda volta em Turim, já em novembro, Mourinho admitiu que sucesso em Milão explicava a animosidade dos adeptos da Juve: «Em Manchester foi um jogo justo, a minha relação com o clube é justa, com o Allegri é mais que justa, é uma amizade. A única explicação que encontro para o seu comportamento assente no meu sucesso com o Inter. Insultam-me por causa das memórias que são negativas para eles.»
A contestação preta e branca a Mourinho subiu de tom no dia seguinte, à boleia de uma reviravolta incrível. Ronaldo adiantou a Juventus no marcador, aos 65', mas Juan Mata (86') e um autogolo de Leonardo Bonucci (90') selaram a vitória dos red devils.
Insultam-me por causa das memórias que são negativas para eles
No final da partida, Mourinho, assobiado pelos adeptos da casa, colocou a mão na orelha, sugerindo que apupassem mais alto. O técnico luso foi interpelado pelo defesa central Bonucci, mas voltou a fazer o mesmo gesto, em direção ao túnel que dá acesso aos balneários.
Minutos depois, no rescaldo da partida, Mourinho justificou o gesto provocatório: «Fui insultado durante 90 minutos. Vim aqui para fazer o meu trabalho, nada mais. Não ofendi ninguém, apenas fiz um gesto que indicava que os queria ouvir falar mais alto. Provavelmente não o deveria ter feito, e de cabeça fria talvez não o teria feito. Mas com a minha família insultada, e até mesmo a minha família do Inter, reagi assim. Não os insultei, respeito tudo que tenha a ver com a Juventus».
Ranieri, Spalletti, «zero títulos» e uma «grande área de 25 metros
Para entender a forte animosidade dos adeptos da Juventus é necessário recuar até ao período em que Mourinho ganhou tudo o que havia para ganhar em Itália. Já depois de ter criticado inúmeras vezes o então técnico dos bianconeri, Claudio Ranieri, o técnico luso explodiu, a 3 de março de 2009, na sequência de protestos sobre um penálti duvidoso a favor do Inter diante da Roma (3-3): «Não gosto de prostituição intelectual. Nos últimos dias, parece que tem havido uma enorme manipulação intelectual. Nos últimos dias ninguém falou sobre a Roma, que tem grandes jogadores, mas vai acabar a época com zero títulos, sobre o Milan que estão 11 pontos atrás de nós e vão acabar com zero títulos, nem sobre a Juventus que ganhou vários pontos devidos a erros de arbitragem.»
O técnico luso não poupou o treinador da Juventus, depois de este ter defendido o então técnico da Roma, Luciano Spalletti,. que agora comanda a equipa de Turim: «Se o Ranieri está do lado do Spalletti, estou do lado de todos os treinadores que perderam pontos contra a Juventus devido a erros de arbitragem.»
Um ano depois, Mourinho voltou a criticar a arbitragem, na sequência de um penálti assinalado a favor da Juventus no terreno do Génova, a 19 de fevereiro de 2010: «Há apenas uma grande área de 25 metros em Itália.»
Mourinho perdeu apenas um dos cinco jogos que disputou contra a Juventus no comando técnico do Inter, que conduziu até à conquista de duas ligas italianas, uma taça de Itália, uma Supertaça e uma UEFA Champions League, em dois anos. O sucesso trilhado ao serviço dos nerazzurri marcou Mourinho, que rejeitou sempre um eventual regresso à Serie A para comandar um dos rivais do clube.
Não posso treinar a Juventus depois de vestir a camisola do Inter
Já ao serviço do Real Madrid, o treinador luso, frisou que seria incapaz de treinar o gigante de Turim: «Sou alguém que se dedica demasiado a uma equipa para treinar o rival. Não posso treinar a Juventus depois de vestir a camisola do Inter.» Mourinho foi apontado ao comando técnico da vecchia signora em 2019, com a benção de Cristiano Ronaldo, mas apenas regressou a Itália para comandar a Roma, em 2021.
A animosidade para com os adeptos reduziu exponencialmente, nas duas épocas e meia em que Mourinho comando os giallorossi. As palavras mais duras do técnico luso após um duelo contra a Juventus foram proferidas... na direção dos próprios jogadores, depois da Roma ter desperdiçado uma vantagem de dois golos, a 9 de janeiro de 2022 (3-4): «Há jogadores neste balneário que são demasiado simpáticas, um pouco fracas. Disse aos jogadores que se o jogo tivesse terminado aos 70', teria sido um jogo extraordinário.»
A Roma venceu apenas um dos cinco jogos que disputou contra a Juventus sob a batuta do técnico luso. Mourinho elogiou-os última partida no Allianz Stadium, a 30 de dezembro de 2023: «A Juventus é Juventus. Defendem bem e quando vão para o contra-ataque são muito fortes. Estão numa guerra contra o Inter pelo Scudetto.»