Começou a grande corrida

Durante estes meses de verão há festas e festarolas por todo o país. Mas só uma festa resiste um ano inteiro: o campeonato de futebol

SOMOS o país que somos, não o país que gostaríamos de ser. Não é uma fatalidade. Talvez uma conformidade. O povo português pode ser desorganizado, mas é paciente. Lembram-se do «ai aguentam, aguentam...» que ficou para a História da troika lusitana? Pois quem o disse sabia bem o que estava a dizer e conhecia bem este povo na sua histórica tentação de ancestrais sofrimentos e penitências.

Não é, com o se sabe, um povo de muitos folguedos. Na dura vida de um ano de trabalheiras mal pagas, apenas se permite à festarola nestes meses de verão, sobretudo agosto, quando o país se interrompe para férias. Há festas populares por todos os lados e todos os Santos têm autorização para sair à rua nos seus andores ornamentados de rendas e flores.

Só há, verdadeiramente, uma festa que dura quase todo o ano. É a festa do campeonato de futebol. E foi essa a festa que agora começou. Uma corrida de largos meses que prende a atenção e paixão de milhões de portugueses e que lhe suscita emoções fortes, de alegria, de tristeza, às vezes de raiva e de inveja, mas, apesar de tudo, emoções que fazem prova de vida de existências que de outra forma estariam quase mortas.

O futebol, em Portugal, não é um jogo, é mais do que um espetáculo, é, como dizia o fado, uma estranha forma de vida. Tal como os clubes são mais do que um simples sentimento de pertença, são, às vezes, família, são paixão irracional, são as únicas pátrias que não se discute, guiadas por líderes que têm sempre razão.

Podemos criticar, blasfemar, irritarmo-nos, até, com essa aridez do que parece ser o único projeto de vida de um comum cidadão português: que o seu clube seja campeão. É o que é, não o que desejaríamos que fosse. E assim sendo, olhos postos para a grande corrida que começa este fim de semana. A corrida para chegar à frente num título nacional que vale bem mais do que qualquer título europeu ou mundial.

É neste enquadramento, que esperamos não estar desvirtuado de exageros, que se pode compreender o absurdo das leis vagas e desproporcionadas do nosso futebol, que se podem entender os pactos com a indiferença pelo desenvolvimento da chamada indústria, assinado pelos clubes e que os leva à indolência perante a óbvia urgência de mudança.

Mais uma vez, no grande campeonato da I Liga, há quatro para lutarem pelo título - o que já representa uma assinalável evolução - há um punhado para tentar cumprir  o desejo de chegar a um patamar europeu, mesmo que depois de o atingir o desperdice num provincianismo bacoco, e uns quantos que se destilam suores e ansiedades para não ficarem em lugares de descida de divisão. Verdadeiramente o que interessa a noventa e nove por cento dos portugueses adeptos de futebol é o que se passa no grupo da frente e, em especial, na corrida dos chamados três grandes. Aí, o Benfica será primeiro candidato, porque é o atual campeão em título e porque gastou o dinheiro que nenhum outro poderia gastar para melhorar o seu plantel. Se falhar, é o que terá menos desculpa. O FC Porto, como sempre, estará disposto a fazer das tripas coração e a esconder as suas mazelas internas para debaixo do tapete do Dragão. O Sporting, com mais ou menos dificuldade, dá sinais de algum crescimento. O SC Braga, paulatinamente, aproveita a desatenção das maiorias e, pé ante pé, aproxima-se, cresce, ganha consistência na sua prometida candidatura. Ao longo de muitos meses, até o país voltar a pôr os pés na água do mar, Portugal viverá intensamente as incidências várias desta grande corrida. Sempre, como se fosse a primeira.


DENTRO DA ÁREA
Homenagem na Volta a Portugal

Fernando Emílio, nosso velho e fiel companheiro na equipa de A BOLA, será amanhã homenageado pela Federação Portuguesa de Ciclismo e pela Organização da Volta a Portugal, que celebra os cinquenta anos de relação apaixonada do jornalismo de Fernando Emílio com o ciclismo e com a Volta. Muitos dizem que A BOLA é um jornal de futebol. É uma injustiça para muitos e muitos grandes jornalistas, a começar por Carlos Miranda, que fazem grande jornalismo desportivo focados noutras modalidades. Fernando Emílio é um deles. Indiscutivelmente.


FORA DA ÁREA
Grandes cidades e as periferias

Sou cem por cento lisboeta. Tanto do lado de minha mãe, como do lado do meu pai, até às gerações mais antigas, somos de Lisboa. É a minha cidade e, confesso, uma das minhas grandes paixões. Porém, não me sinto deprimido por, atualmente, não estar a viver em Lisboa, porque tenho boas condições de vida no lugar onde moro. E aqui, sim, a essência do problema. É preciso discutir seriamente as condições de vida das periferias das grandes cidades. As florestas de cimento, a paisagem urbana caótica, o défice de qualidade de vida.