Com Rafas o Benfica não vai lá
QUEM quiser recordar-se do pesadelo que foi o percurso do Benfica nos dois Campeonatos anteriores apenas enxerga motivos para regozijar com a notável recuperação que está à vista de toda a gente. À margem de dois terceiros lugares, com particular incidência no último, em que ficou a 17 pontos do campeão FC Porto e a onze do Sporting, a águia foi assolada por uma correnteza de vendavais e atravessou por uma das fases mais deprimentes da sua história, por causa de esfarrapados desempenhos desportivos e de tristes cenas que lhes estiveram associadas.
No entanto, basta fazer um pequeno esforço de memória para perceber que muito mudou em tão pouco tempo e que é despropositada esta tendência doentia para dramatizar, colocar tudo em causa e deixar de acreditar ante a manifestação de obstáculos inesperados, no caso três derrotas, que, analisadas as coisas com a lucidez necessária, terão sido mais esperados do que poderia supor-se.
Sinceramente, não vejo motivos para tanto ruído, nem entendo esta choradeira só porque em duas jornadas a vantagem pontual no Campeonato encurtou de dez para quatro pontos. Reconheço que a questão do título teria ficado resolvida no último clássico se o Benfica tivesse tido competência para ganhar, mas não teve e a culpa do treinador alemão resume -se a não valorizar o que lhe contaram, se é que alguém lhe contou alguma coisa, sobre o histórico dos confrontos entre os dois emblemas neste milénio.
OFC Porto ganhar na Luz passou a ser normal e, em concreto, Sérgio Conceição só saiu derrotado em 2018/2019, na mesma temporada em que a águia venceu no Dragão, uma raridade que só voltou a registar-se em outubro do ano passado, três anos e meio depois, já no consulado de Roger Schmidt.
Desta vez, porém, o que mais custou à família benfiquista foi a forma como a sua equipa perdeu, dando a sensação de desapego, de temor pelo opositor, como se não valesse a pena lutar. Faltou coragem para deixar a pele em campo. Notou-se e não constituiu surpresa vinda de gente aburguesada (um leitor chamou-lhe preguiçosa) que continua a marcar passo, mas isso são contas do rosário de Rui Costa.
Com outra atitude poderia ter perdido na mesma, mas seria diferente. Assim, custou mais, é verdade, mas em relação esse particular não tem Schmidt culpa, a não ser ter mantido em campo um Rafa Silva inútil (nota 3 em A BOLA) em contraposição a um Otávio decisivo (nota 7 em A BOLA).
Deste exemplo por mim sugerido pode fazer-se até uma extrapolação para a identidade competitiva das duas equipas, expressa na diferença entre a tristeza do primeiro e a alegria do segundo. Enquanto Rafa, com 30 anos, consta que continua a precisar de conforto e carinho para se sentir bem, Otávio é um refilão engraçado e valente. Enquanto o primeiro se inibe nos grandes jogos, o segundo empolga-se, às vezes até de mais. Ou seja, com Rafas o Benfica não vai lá, mas com Otávios o FC Porto vai. Eis a diferença…
Éminha opinião (está escrita) que o Benfica passa por um fase de transição muito importante, entre um longo período de navegação à vista da costa e a recuperação do estatuto europeu que fez dele parceiro privilegiado dos mais poderosos emblemas do futebol mundial. Rui Costa foi claro na sua pretensão e no rumo que traçou. Roger Schmidt é o seu treinador. Não lhe conheço as virtudes, mas foi uma boa escolha por vir de fora, estar-se nas tintas para as invejas de bairro, ser de poucas conversas e contido nos risos, apenas o essencial para aligeirar as conferências.
No resto, conta o trabalho, refletido nas exibições e nos resultados e, até ao momento, nada emergiu de preocupante, pelo contrário, a não ser a saída de Enzo Fernández e com ela a denúncia de fraquezas de um plantel ainda magrinho, embora a dar boa conta do recado. Mas não chega, e apregoar que não há Enzo mas há Chiquinho é o mesmo que confundir um tubarão com um carapau, apesar de Schmidt, olhando à volta e não enxergando melhor solução, o ter transformado num robalinho de bom aspeto.
Falta uma corrida de seis jornadas até encontrar o próximo campeão e dos quatro candidatos o Benfica parte com um bónus de quatro pontos, que são mesmo quatro. Tem um calendário mais difícil, lembram os mensageiros da desgraça, porque ainda lhe falta defrontar o SC Braga, que levou cabazadas em Alvalade e no Dragão, e o Sporting, que empatou na Luz com o beneplácito do zeloso VAR Tiago Martins (o Benfica anda azarado com esta gente, na última jornada, em Chaves, o VAR António Nobre deve ter adormecido e… mais um pontinho surripiado).
Se os adeptos se afastam por deixarem de acreditar, quem é que vai acreditar? Esta vaga lamuriante é um sinal de fraqueza sem sentido porque, santa paciência, se a seis jornadas do fim é um drama ser líder por ter (só) quatro pontos a mais, por causa da pressão, então quem tiver (só) quatro pontos a menos deve estar já em festa…