Colocar Portugal no mapa do rugby mundial
Nos últimos dias soube-se que Espanha formalizou a sua candidatura para organizar o Rugby World Cup 2035, um movimento que está a ganhar peso e legitimidade junto das estruturas internacionais. A notícia não é apenas relevante para o rugby espanhol é, acima de tudo, um alerta estratégico para Portugal. Enquanto o nosso rugby vive um momento histórico, com a segunda qualificação consecutiva para um Campeonato do Mundo, a vizinha Espanha tem-se vindo a posicionar para assumir um papel de liderança no panorama internacional. A pergunta impõe-se: poderá Portugal fazer o mesmo?
Espanha acelera e com um plano sólido
A estratégia espanhola para desenvolver o rugby é clara: crescer dentro de campo e fora dele. Além do investimento nas suas seleções, Espanha tem apostado fortemente na organização de grandes eventos. Nos últimos anos conseguiu impor-se como país organizador de provas de relevo, tais como etapas do HSBC World Sevens Series, finais do European Professional Club Rugby (EPCR) e Rugby Europe Championship.
A organização da Rugby World Cup 2035 seria o culminar de um processo que tem vindo a ser trabalhado nos últimos anos, imediatamente após o rugby espanhol ter passado por movimentos difíceis pela eliminação na secretaria da presença dos RCW 2019 e 2023, por culpa própria diga-se. Esta nova abordagem tem efeitos concretos: aumenta a visibilidade da modalidade, impulsiona o número de praticantes, mobiliza investimento público e privado e coloca o país no centro das decisões estratégicas do rugby mundial.
Não é um caso isolado, outros países seguem a mesma estratégia e procuram mostrar-se ao rugby mundial para garantir crescimento. Note-se que a World Rugby anunciou recentemente que vai investir cerca de €250 milhões no desenvolvimento do rugby nos Estados Unidos, numa estratégia que pretende transformar o mercado norte-americano antes da realização do Mundial de 2031.
Face a isso, é legítimo questionar porque Portugal continua a posicionar-se de forma tímida neste contexto global? Na minha opinião, Portugal tem condições reais para seguir este caminho, tendo mesmo condições para se afirmar como um Hub Internacional de Rugby. Portugal e o Rugby português têm vantagens objetivas que já não podem, nem devem ser ignoradas:
— Com temperaturas amenas durante grande parte do ano, Portugal reúne condições ideais para treinos, estágios e competições ao ar livre. A localização, acessível e bem conectada a partir de qualquer ponto da Europa, reforça ainda mais a atratividade.
— O turismo desportivo cresce em Portugal acima da média europeia. A realização de torneios, estágios e grandes competições tem impacto direto na hotelaria, restauração, serviços e mobilidade. O rugby pode tornar-se um dos principais motores deste segmento, com benefícios distribuídos por várias regiões do país.
— Portugal tem estádios, centros de treinos, equipamentos desportivos e uma cadeia logística preparada para eventos internacionais. Não são exclusivos de rugby é um facto, mas podem facilmente ser adaptados.
— A comunidade portuguesa residente em França é uma das maiores diásporas do mundo, com centenas de milhares de pessoas orgulhosamente ligadas às suas raízes. Nos Mundiais de 2007 e 2023, esta comunidade foi um verdadeiro 16.º jogador, enchendo estádios, criando ambiente, gerando impacto mediático e mostrando ao mundo uma paixão nacional difícil de ignorar. Esta força social deve ser vista como parte integrante da estratégia para captar eventos internacionais de rugby. É uma ferramenta de promoção, marketing, influência e identidade que distingue Portugal e que amplia qualquer candidatura.
Se Espanha está a posicionar-se com visão e ambição, Portugal não pode continuar a limitar-se à participação em torneios, deve ambicionar organizá-los. Reforço, a organização regular de grandes eventos internacionais teria efeitos imediatos, no aumento do número de praticantes, na criação de notoriedade e consequente atração de investimento e retorno financeiro e no aumento de prestígio internacional e influência institucional. Receber competições europeias e mundiais fortalece a posição de Portugal junto da World Rugby e da Rugby Europe, abrindo portas a programas de financiamento e parcerias estratégicas.
Mais, a equipa portuguesa dos Lusitanos disputará hoje a meia-final da Rugby Europe Super Cup contra os Brussels Devils, da Bélgica. Independentemente do resultado, que esperamos que seja uma vitória, Portugal jogará nos Países Baixos no próximo fim de semana, uma vez que tanto a final como o jogo de atribuição do 3.º e 4.º lugares serão disputados no evento Rugby Europe Super Cup Finals. Mais uma vez, trata-se de uma oportunidade perdida para o rugby português, que vê um momento decisivo do panorama europeu ser centralizado noutro país, e por um selecção com menor expressão histórica e competitiva que Portugal, mas que aproveitou esta ocasião para se mostrar no cenário internacional.
O que falta a Portugal? Vontade e uma estratégia clara
A evolução do rugby português tem sido extraordinária, fruto de talento, esforço e paixão, mas já não é possível sustentar o crescimento apenas com entusiasmo. É necessária uma estratégia nacional que coloque o rugby no radar das grandes decisões nacionais e internacionais. Portugal pode avançar facilmente com candidaturas para torneios europeus quer seja sub-18, sub-20 ou seniores, provas do Circuito Europeu e Mundial de Sevens, competições europeias de clubes, torneios internacionais de pré-época, estágios de seleções estrangeiras, entre outros. Isto não exige sonhos impossíveis, exige visão, coordenação institucional e ambição.
Espanha está a mover-se com rapidez e inteligência. Os Estados Unidos preparam um investimento histórico. O rugby global está em mudança profunda e os países que ficarem parados serão simplesmente ultrapassados. Portugal tem talento, tem clima, tem segurança, tem turismo, tem infraestruturas, tem paixão e tem, sobretudo, uma Seleção Nacional que mostrou ao mundo que merece estar entre os melhores.
O próximo passo é transformar esse capital desportivo num projeto estratégico para o futuro. Portugal pode e deve tornar-se um destino internacional de rugby. Oportunidades como esta não aparecem muitas vezes. E quando surgem, não podem ser ignoradas.
Por último, segue um grande abraço para o jogo de hoje aos Lusitanos. O sucesso em campo é o início de sucesso para todo do rugby nacional, reforçando a credibilidade e demonstrando que Portugal tem talento e ambição para competir ao mais alto nível.