Clubes da Madeira fintam dificuldades e estão em alta no Campeonato de Portugal
Os clubes da Madeira estão em alta na Série B do Campeonato de Portugal. Machico e Camacha, com 14 pontos, estão apenas atrás da líder Ovarense (16). O Estrela da Calheta está com a vida mais complicada, após a subida aos nacionais, mas tem os mesmos cinco pontos que o Beira-Mar, primeira equipa a salvo dos lugares de play-off e descida.
A BOLA esteve à conversa com os treinadores, que abordaram as dificuldades vividas por um clube da Madeira, que é obrigado a viajar com frequência para o continente. O Machico, comandado por António Oliveira, atravessa uma excelente fase e até se tem dado muito bem fora de casa: três vitórias e um empate.
«A questão das viagens não nos faz grande diferença, por aquilo que tenho analisado em relação à minha equipa. Os jogos fora têm sido muito competentes da nossa parte, não vejo nenhuma alteração a nível físico dos meus jogadores. É verdade que, no continente, jogámos de manhã, às 11 horas, a maioria dos jogos, por causa da viagem de regresso. Tirando isso, não vejo sinceramente alteração. A nível de microciclo sim, porque realmente não conseguimos treinar no dia anterior ao jogo e acaba por ter de se ajustar um pouco nesse sentido», comentou António Oliveira, que chegou ao Machico no decorrer da temporada passada.
André Anastácio, técnico da Camacha, tem experiência a treinar no continente e abordou as diferenças.
«Quando estamos a treinar uma equipa do continente, se viermos às ilhas, vamos fazer duas ou três viagens por ano. Quando é o inverso, temos pelo menos entre nove a 10 viagens. Logisticamente é complicado, mas os jogadores já estão habituados, nesta primeira fase do campeonato acaba por não ser tão grave, porque há estas paragens para seleções, etc. As coisas têm corrido dentro do possível, temos viajado bastante, fomos a Alpendorada, à Guarda. Às vezes temos de ir por Lisboa ou Porto, mas as coisas têm-nos corrido dentro daquilo que planeamos», comentou.
As dificuldades não se ficam apenas pela logística das viagens ao continente. As construções dos plantéis também não são fáceis, como nos explicaram os dois treinadores.
«Esta época, como temos alguma dificuldade na questão das casas, sabíamos que íamos ter dificuldades em contratar jogadores do continente. Já tínhamos alguns da época passada e queríamos continuar com eles. O nosso foco foi tentar encontrar jogadores cá, que se enquadrassem naquilo que necessitávamos e pudessem trazer qualidade e características diferentes dos jogadores que tínhamos», confessou António Oliveira. Por sua vez, André Anastácio revelou que a Camacha tem «uma base de jogadores que fizeram a formação no Nacional e Marítimo».
«Depois contratámos cirurgicamente os jogadores que queríamos. Só faz sentido ter jogadores que sejam de facto mais-valias e que venham para acrescentar. Nesse aspeto, conseguimos. As pessoas acreditam e sabem a forma séria e honesta como esta direção trabalha», defendeu.
Apesar do belo arranque do Machico, António Oliveira garantiu que o «único objetivo» é garantir a manutenção o mais rápido possível.
«Os meus jogadores sabem isso. Sei que os adeptos estão entusiasmados, porque as coisas estão a correr bem, e eu compreendo. Mas tem de haver um realismo muito grande e perceber que não podemos pensar noutro objetivo enquanto não garantirmos a manutenção», afirmou o treinador do Machico.
Relativamente a outras épocas, descem diretamente apenas duas equipas por série. André Anastácio comentou essa mudança e o facto de o CP acabar em abril.
«Temos de ir jogo a jogo. Quanto mais acima estivermos, melhor. Queremos garantir a manutenção o mais rápido possível. A Camacha é um clube ambicioso», apontou André Anastácio, que comentou o facto de o CP acabar em abril: «É difícil. Costumo dizer, a brincar a sério, que muita gente a partir de janeiro começa a passar fome no Campeonato de Portugal, porque há muita gente que vive disto, como é o meu caso. São os moldes que temos, é incompreensível, mas queremos acreditar que as coisas vão mudar.»
«O início da época foi atípico e os sorteios são feitos em cima da hora»
O Estrela da Calheta subiu este ano aos nacionais e teve um início de época atípico com adiamento de alguns jogos.
«Foi um processo de adaptação do clube, treinador e jogadores, porque temos uma grande base do regional, alguns que nunca participaram neste campeonato. O início da temporada foi atípico. Fizemos o primeiro jogo e depois voltamos a parar sensivelmente um mês. É um dos problemas que temos na Madeira. Os sorteios são feitos em cima da hora. São 20 e tal viagens que temos de reservar e nem sempre estão disponíveis. Mais de metade do plantel tem outro trabalho», declarou Carlos Mendonça, que conduziu o Estrela da Calheta ao CP e comandou a equipa nos primeiros jogos da época, tendo deixado o comando técnico após a derrota caseira com o União de Lamas.
Carlos Mendonça aproveitou ainda para destacar a recente chegada dos cursos de treinadores à Madeira.
«Deu para que eu e o André Anastácio conseguíssemos entrar e frequentar o curso mais próximos de casa, com menos custos, porque não envolvia viajar semanalmente para o continente. Vem ajudar o treinador madeirense a formar-se», admitiu.