César Peixoto: «Estamos à espera de um Estoril espicaçado»
O Gil Vicente quer dar sequência aos últimos resultados e aposta numa vitória na deslocação ao Estoril, onde mora uma equipa que perdeu na última jornada. César Peixoto está, por isso, em alerta e sabe que os canarinhos vão querer retificar a imagem deixada com Aves SAD, deixando um aviso aos seus jogadores.
— Depois de Famalicão, Moreirense e SC Braga, segue-se o Estoril. É mais um jogo frente a uma equipa que está a realizar um bom campeonato e a praticar um bom futebol, mas o Gil Vicente vem de três vitórias consecutivas. Acredito que amanhã não queira que seja diferente?
— Acho que, à semelhança dos outros jogos, o grau de dificuldade é muito alto. Acho que o Estoril é uma das boas equipas do campeonato, tem muito bons jogadores e é muito forte a jogar em casa. Por isso, vai exigir muito, muito de nós. Temos de estar a 100% do que podemos fazer, porque vejo uma equipa do Estoril com muita qualidade, que nos vai tentar contrariar da melhor maneira. Agora, claro que nós olhamos sempre para todos os jogos com o foco nos três pontos e é isso que vamos fazer. Não vamos olhar de forma diferente. Já vi esta equipa do Estoril jogar, gosto da forma como jogam e, com a análise detalhada que fizemos, vemos que é uma boa equipa que nos vai causar muitos problemas. Mas, com certeza, do lado de lá também olham para nós e veem uma boa equipa. Acho que tem tudo para ser um bom jogo, um jogo difícil, mas estamos confiantes. Vimos de três vitórias, estamos confiantes, mas sabendo que temos de continuar com a mesma humildade, a mesma capacidade de trabalho, organização e qualidade, não abdicando da nossa forma de estar e de ser, para irmos lá lutar pelos três pontos.
— O deslize do Estoril na última semana causa alguma dificuldade em ler a equipa ou foi apenas um deslize, na sua opinião?
— Não, pelo contrário. Eu acho que eles vão estar mais espicaçados depois desse deslize. A equipa lá, o padrão está lá igual, exatamente da mesma maneira. E é um bocado à semelhança de nós: não vamos ganhar os jogos todos. Com certeza que o treinador, o Ian Cathro, montou a equipa para ganhar o jogo, mas as coisas não correram da forma como ele queria e acabou por perder um jogo onde não estaria a contar, de certeza absoluta. Mas isso não belisca em nada o campeonato que têm vindo a fazer, nem belisca a qualidade e a capacidade desta equipa do Estoril. Pelo contrário, acho que eles vão querer reagir e complicam-nos mais a vida a nós, porque mentalmente, depois de uma derrota, estas equipas querem reagir rápido e forte. Estamos à espera de um Estoril espicaçado depois de um jogo menos bem conseguido, onde esperavam ganhar os três pontos. Jogando em casa contra uma equipa como o Gil Vicente, que sabem que também é uma boa equipa e tem feito um excelente campeonato, vão estar no máximo das suas capacidades para jogar contra nós.
— O Estoril é uma equipa que, em termos de ataque, tem o mesmo número de golos que o FC Porto, mas defensivamente é a sexta pior defesa. É uma equipa que varia muito o seu sistema tático mesmo dentro do próprio jogo. Isso condiciona a forma como olha para o jogo de amanhã?
— Sim, disse bem. É uma equipa que tem muita mobilidade, precisamente com bola. Ofensivamente, vai exigir muito de nós defensivamente. Retira muito do que são os timings de pressão às equipas adversárias. Tem jogadores do meio-campo para a frente tecnicamente muito fortes e evoluídos. É uma equipa com muita mobilidade onde vamos ter de estar muito focados na nossa organização e nos nossos timings para conseguirmos, em alguns momentos, pressionar — porque vamos tentar jogar o jogo pelo jogo, não abdicamos disso. Mas, ao mesmo tempo, vamos ter de ter a paciência inteligente de saber que há momentos em que temos de nos agarrar à organização e esperar pelo timing certo, porque esta mobilidade causa problemas aos adversários. Nós sabemos disso, preparámos a semana para isso. É uma equipa que ofensivamente cria muitas alterações posicionais e muitas dinâmicas que complicam a vida. Têm dois avançados fortíssimos, têm o Guitane que no um-para-um ou um-para-dois é muito forte, têm o jogadores que leem muito bem o jogo, o João Carvalho que decide e toma as melhores decisões na zona de decisão... ou seja, têm uma equipa tecnicamente muito evoluída que interpreta bem os momentos de jogo. Mas nós também já provámos muitas vezes que somos uma equipa muito sólida, organizada e que não é fácil fazer golos a este Gil Vicente. Embora vamos jogar contra uma das equipas que faz mais golos, estaremos preparados e focados para contrariar isso e, no momento seguinte, aproveitarmos a nossa mobilidade com bola que também nos dá espaço.
— O Gil Vicente vai ao Estoril na melhor fase anímica do plantel? E já pode contar com o Facundo Cáseres e com o Tidjany Touré, que estiveram fora na última ficha de jogo?
— Estão condicionados, esses dois estão condicionados. Quanto à fase anímica, nós já tivemos uma fase na primeira volta, e também nesta fase de jogos difíceis, em que tivemos um ciclo positivo. É claro que as vitórias trazem confiança, não há como esconder. Vitórias perante adversários como os que temos conseguido, e ainda mais com a reviravolta na segunda parte contra um SC Braga que é fortíssimo e estava ali connosco no quarto e quinto lugar, traz confiança. Mas mesmo nos momentos em que houve ali uma série de empates, eu nunca senti a equipa sem confiança. Acho que a equipa sempre jogou da mesma maneira; por detalhes aqui ou ali não estávamos a concretizar, embora criássemos muito volume de jogo. O que me dá confiança a mim, à equipa técnica e aos jogadores é a consistência que temos tido ao longo do campeonato. O acreditar muito no nosso trabalho, no processo e no nosso ADN é o que nos dá confiança. As vitórias são um ‘plus’ que efetivam o trabalho que vimos fazendo. Eu não sou o tipo de treinador que está tudo bem quando ganha e tudo mal quando perde. Os meus jogadores sabem que não trabalhamos assim. Não é porque erraram ou falharam que lhes vou tirar a confiança. Está tudo num processo, o erro faz parte. Por isso, vitórias importantes trazem confiança, mas a confiança está no processo e no plantel.
— Gostava de falar sobre o Gustavo Varela. Ele marcou um grande golo contra o Braga, mas mais uma vez vindo do banco. Há algum bloqueio mental ou alguma pressão quando joga a titular, ou é apenas um acaso?
— Não, temos de ter atenção que o Gustavo está na primeira época na Liga. Eu sei que ele nos tem ajudado a partir do banco. Tínhamos o Pablo anteriormente, que efetivamente tinha 10 golos e marcava golos. Numa primeira vez na Primeira Liga, numa equipa que está sempre do meio da tabela para cima, substituir o Pablo, que estava a ser um dos destaques do campeonato, traz algum peso. É normal. Ele tem de ganhar experiência e maturidade para saber lidar com isso, e os avançados vivem muito do golo. Isso faz parte do crescimento dele enquanto jogador. Quando ele jogou de início, houve ali uma fase em que começou a pesar-lhe um pouco o facto de não estar a conseguir fazer o golo em dois ou três jogos. Sentimos que ele precisava de respirar um bocadinho para lhe tirar essa pressão. Ele acaba por sair e entrar logo no jogo a seguir e fazer golo. Agora outra vez bem. Acho que esse tempo foi muito importante para a maturidade e crescimento dele. Temos uma equipa muito jovem e é natural que estas situações, principalmente nos pontas de lança, aconteçam. Nós é que temos de saber balancear a pressão, retirá-la ou dá-la, e como lidar com ela. Ele encarou isso da melhor maneira, cresceu, deu um passo em frente e sinto-o hoje mais confiante do que nunca desde que cá chegou.
— Falamos várias vezes aqui dos objetivos e fala sempre no jogo a jogo. Mas não será importante dar algo tangível aos jogadores, como uma meta na classificação, ou não sente essa necessidade neste grupo?
— Eu não sinto essa necessidade, essa é a verdade. Mas nós vamos criando micro objetivos. Por exemplo, neste momento o nosso objetivo é conseguir ganhar e somar a quarta vitória consecutiva, porque no campeonato português só o FC Porto e o Sporting o conseguiram fazer este ano. E nós queremos ser a terceira equipa a conseguir. É um objetivo que temos interno para este jogo, além dos três pontos. Vamos buscando estes micro objetivos internos para motivar. Não temos um objetivo claro de posição, porque na minha opinião a consistência e o processo é que são o segredo. Se criarmos um objetivo fixo, num empate pode parecer que já não vamos lá chegar, ou numa vitória parece que vai ser fácil e facilitamos. Eu agarro-me muito ao processo e a estes micro objetivos internos que vamos criando. Este das quatro vitórias seguidas é um dado que adquirimos e gostávamos muito de vencer para entrar nesse lote restrito. Esta equipa é jovem, tem muita fome e um ADN de querer ganhar sempre. Meteram isto na cabeça e é isto que vamos vendendo aos jogadores semana após semana. Eles são famintos, querem mais e mais, são humildes trabalhadores e é só gerir expectativas.
— Contra o SC Braga atingiu a marca das 50 vitórias como treinador principal. Tinha noção disso? E como sente este crescimento do apoio dos adeptos em Barcelos, inclusive com a visita do ‘staff’ do Óquei de Barcelos esta semana?
— Não sabia, não sabia que tinha atingido as 50 vitórias. Fico contente, mas quero mais. À semelhança da equipa, tenho fome e quero cada vez mais. Quanto à aproximação dos adeptos, acho que é muito importante para o crescimento do Gil Vicente e para o projeto. É muito importante para a cidade também. Cada vez mais se percebe que o Gil Vicente tem dimensão para não ser apenas um clube para lutar pela manutenção. Mas para isso é preciso que nós cá dentro estejamos a dar os passos certos e que os adeptos e a cidade se virem também para o projeto. Que haja esta boa relação com o hóquei de Barcelos, que são as duas instituições desportivas que mais representam a cidade. Estarmos de mãos dadas ajuda em tudo. A cidade e as gentes de Barcelos merecem ter um Gil Vicente a lutar pelos dez primeiros todos os anos. Mas só todos juntos, da forma como estamos a criar este ambiente, é que o clube vai dar o salto que precisa. Sem eles, é tudo muito mais difícil. Nós somos a força motriz dentro do campo, mas os adeptos têm-nos dado o carinho necessário para continuarmos a ser consistentes. O clube, para crescer, tem de ter a cidade com ele. Temos tido um apoio fantástico, como foi em Moreira de Cónegos ou em Alverca, e cada vez mais temos gente no estádio. Isso deixa-nos extremamente satisfeitos e tem sido muito importante nesta caminhada.