Carlos Lopes (IMAGO)
Carlos Lopes (IMAGO)

Carlos Lopes a 462 segundos de Sabastian Sawe

Caiu o recorde do Mundo da maratona e logo com um tempo épico: 1.59.30 horas. Pela primeira vez um homem correu 42 quilómetros abaixo de 2 horas

Lembram-se de Carlos Lopes, em abril de 1985, a vencer a maratona de Roterdão em 2.07.12 horas? Sim: o recorde do mundo foi superado por 53 segundos. O jornal francês L’Équipe fez capa com esse feito, catalogando o atleta como extraterrestre. E era. Entretanto, passaram-se 41 anos e a melhor marca mundial dos 42,195 quilómetros caiu 14 vezes. A última foi ontem, em Londres, por Sabastian Sawe. Um queniano, claro. E não é um recorde igual aos outros 13 que se seguiram ao de Lopes. É um tempo mítico: 1.59.30 horas!

O dia 26 de abril de 2026 representa para o atletismo mundial o mesmo que o 20 de julho de 1969 — dia em que Neil Armstrong pisou a Lua — representa para a exploração espacial. Ou o 7 de março de 1876 para as telecomunicações, data em que Alexander Graham Bell patenteou a invenção do telefone, cuja primeira transmissão de voz ocorreu três dias depois. Sabastian Sawe é, pois, uma espécie de mistura entre Armstrong e Bell: o primeiro a fazer algo épico.

Correr a maratona abaixo de duas horas é como, um dia, alguém saltar 2,50 metros em altura, 9 metros no comprimento, baixar de 1.40 m aos 800 metros ou de 26 minutos aos 10.000 metros. Estes 1.59.30 h são um tempo tão épico que, embora o seu recorde tenha já 41 anos, Carlos Lopes demoraria mais 7 minutos e 42 segundos a completar a prova! Ou seja, quando Sawe cortasse a meta, o campeão olímpico de 1984 estaria a mais de dois quilómetros — precisamente a 462 segundos — de distância. Se isto não é épico, o que é ser épico? E não foi só Sawe que foi épico. Também os segundos e terceiros classificados o foram: Yomif Kejelcha fez 1.59.41 e Jacob Kiplimo fez 2.00.28. Ambos correram abaixo do recorde do malogrado Kelvin Kiptum (2.00.35 em Chicago, 2023). Épico, pois, a triplicar: Sawe, Kejelcha e Kiplimo. Lopes, em Londres-2026, seria apenas 13.º!

Há diversos fatores que poderão ajudar a perceber este salto de mais de sete minutos em 41 anos: tipo de treino, evolução dos ténis (solas finas de borracha versus espuma+placa de carbono), melhoria da nutrição/hidratação (água e bebidas isotónicas simples versus hidrogéis de alta concentração), pisos mais adequados, recuperação (repouso e massagem básica versus crioterapia, botas de compressão e dados de sono) e ainda as chamadas lebres.

Há ainda outro fator, claramente menos positivo, que poderá influenciar (e influencia) o rendimento dos atletas de altíssima competição — e que não é de agora: o doping. Quando se trata de um recorde mundial de atletismo, sobretudo na maratona e, sejamos justos, sobretudo com atletas africanos, as dúvidas são sempre algumas. Esperemos, então, pelas próximas semanas para vermos se o recorde do Mundo da maratona será mesmo de 1.59.30. E se a marca de Carlos Lopes, em 1985, está mesmo a 462 segundos do recorde do Mundo da maratona.