Liderado pelo brasileiro Tite, o ‘escrete’ não passou dos quartos-de-final no Campeonato do Mundo de 2022, enquanto Marrocos chegou às meias-finais. Quatro anos volvidos, agora sob o comando do italiano Carlo Ancelotti, os canarinhos empataram a uma bola, na estreia no Mundial da América do Norte, com Marrocos, após 90 minutos de futebol de muito razoável qualidade, mais fluidos os norte-africanos, de menos a mais os pentacampeões mundiais. Mesmo assim, a imprensa brasileira disse que o ‘escrete’ tinha escapado à ‘humilhação’, e no mínimo falou em estreia cinzenta e pouco promissora da sua Seleção.

Quer isto dizer duas coisas:

1)    Os brasileiros continuam a viver no passado, como se praticamente todos os jogadores das seleções de top não jogassem nos melhores campeonatos europeus, e não tivessem feito a sua formação futebolística em clubes de elite. Longe vão os tempos em que as equipas africanas eram incipientes (e, a propósito, Portugal não deve, de forma alguma, menosprezar a RD Congo) e o ‘escrete’, de ‘ginga’ em ginga’, maravilhava o Mundo. Mas o tempo não volta para trás…

2)   Carlo Ancelotti é o primeiro estrangeiro a treinar o Brasil, para desconforto e desagrado da vasta comunidade chauvinista do futebol do país irmão. Todos estamos recordados dos primeiros tempos de Jorge Jesus no Flamengo, que precisou de conquistar mais títulos do que sofrer derrotas para calar os maldizentes. E todos vemos a guerra que continua a ser movida a Abel Ferreira, o melhor treinador da história do Palmeiras.

Para já calado (ou quase), porque a procissão ainda vai no adro e Ancelotti não é qualquer um, o ‘lobby’ nacionalista só está à espera de uma escorregadela do ‘escrete’ para regressar à lenga-lenga ouvida em 2014, depois de terem perdido, no Mineirão, por 1-7 com a Alemanha, e houve vozes a reclamar uma liderança estrangeira para a Seleção do Brasil: «Não precisámos que viesse alguém de fora para nos tornarmos pentacampeões mundiais, temos conhecimento mais do que suficiente dentro das nossas fronteiras.»

É extraordinário como o passado glorioso do futebol brasileiro é, ao mesmo tempo, o maior obstáculo à modernização que o ‘escrete’ precisa para recuperar a liderança do futebol mundial.

Após Marrocos, alguns já puseram ‘as manguinhas de fora’. Os outros, quais amigos da onça, estão apenas à espera do pior, para se proclamarem salvadores da Pátria.

*Eusébio da Silva Ferreira jogou no México (CF Monterrey), nos Estados Unidos (Boston Minuteman, Las Vegas Quicksilvers e New Jersey Americans) e no Canadá (Toronto Metros-Croatia). O Mundial de 2026 disputar-se-á por terras onde o ‘King’ espalhou o fulgor derradeiro da sua magia… 

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