Bruno Varela explica saída do V. Guimarães e recorda: «Lampião, lampião!»
— O tema não é novo, mas podemos falar um pouco sobre a saída do V. Guimarães? A ideia que ficou é que não foi propriamente pacífico, ainda mais com aquele episódio da vaidade, a envolver o presidente…
— Em relação ao tema da vaidade, vi que o presidente voltou a falar sobre isso há pouco tempo, tentando, de certa forma, justificar-se. Acho que é um assunto encerrado, embora não tenha caído bem a ninguém. Eu já falei sobre isso, o Tiago Silva e o Toni [Borevkovic] também. Sobre a minha saída, sempre fui muito claro: tinha mais um ano de contrato e queria cumpri-lo, para depois ver o que acontecia. Mas, a partir do momento em que o presidente quis que eu saísse, eu não podia forçar a minha continuidade. Entendo o projeto que ele pensou: o Vitória precisa de rentabilizar jogadores novos para fazer face às dificuldades financeiras e um jogador com 30 ou 33 anos não dá o mesmo retorno que um de 20... O que me custou não foi a decisão, mas a forma como o processo se desenrolou. Acho que faltou alguma frontalidade. O presidente nunca mo disse diretamente, falava através do meu empresário ou do vice-presidente, que me dizia as coisas. Como capitão, sempre fui muito direto com ele em defesa do grupo e acho que merecia essa frontalidade cara a cara. Queria continuar, mas a partir do momento em que houve essa pressão junto do meu empresário para a minha saída, senti que tinha de sair. Respeito o projeto, nem sequer é algo que esteja em questão, e a decisão. Mas, a partir do momento em que senti que já não era bem-vindo, tive de procurar uma solução para mim.
— Pela experiência que teve no clube, o que falta ao V. Guimarães para conseguir estabilizar-se como um clube com presenças mais regulares na Europa?
— Hoje posso falar como adepto. Em cinco anos no Vitória, se contar com os interinos, tive uns 12 ou 13 treinadores. É muita gente... Acho que falta segurar mais os treinadores nas fases difíceis. Em Guimarães, a pressão é enorme porque os adeptos são fervorosos e exigentes. Se não há vitórias, as pessoas perdem o controlo. O problema é que, quando começa a haver muita pressão exterior, as Direções muitas vezes tomam a decisão mais fácil, que é despedir o treinador. Acho que, dos treinadores que tive em Guimarães, o único que saiu por conta dos bons resultados foi mesmo o Rui Borges. Se o presidente acredita no projeto, tem de sustentá-lo até ao fim e não se deixar levar pelo que vem de fora. No caso recente do míster Luís Pinto, o presidente dizia que ele era o homem do projeto e não acredito que a ideia tenha mudado numa semana. Foi mais pela pressão dos adeptos, certamente. Treinar ou dirigir o Vitória é muito difícil, é um ambiente de oito ou oitenta e é preciso um equilíbrio emocional muito grande de quem manda, para que seja possível garantir estabilidade.
Acho que, dos treinadores que tive em Guimarães, o único que saiu por bons resultados foi mesmo o Rui Borges
«Pegavam muito comigo: 'Lampião, lampião!'»
— Formou-se no Benfica, mas hoje, se calhar, ao pensar no Bruno Varela pensa-se no V. Guimarães. É algo que gera um sentimento de orgulho?
— São sentimentos diferentes, mas ambos muito fortes. Tenho um respeito enorme pelo Benfica. Foi o clube que me formou como jogador e como homem. Se hoje sou um bom pai para o meu filho, deve-se muito aos valores que o Benfica me passou. Fui apanha-bolas, passei por todos os escalões, joguei na equipa principal e conquistei um título de campeão nacional. Foi pena não termos conseguido o penta em 2017/2018, que teria sido histórico. Já em Guimarães, as pessoas pegavam muito comigo por ser benfiquista. Muitas vezes diziam que eu era 'lampião! Lampião!', que se errava num jogo com o Benfica, era por ser benfiquista… Aquela mentalidade à portuguesa. Na verdade, o que eu queria era mostrar toda a minha qualidade, mas nem deixava que isso me afetasse. Quem vive o Vitória por dentro sabe o que é aquele clube. Jogar no D. Afonso Henriques e envergar a braçadeira de capitão é um peso enorme, algo incrível. Já disse numa entrevista anterior que não cheguei vitoriano, mas saí vitoriano. Tenho amor e paixão pelo clube. O meu filho cresceu em Guimarães e o Vitória recebeu-me numa fase difícil da minha vida. Por isso, quando voltar a Portugal, espero que seja pela porta do Vitória. Sei distinguir as coisas: o Benfica tem o meu respeito eterno, mas, hoje, o Vitória é o clube do meu coração. E posso garantir: sempre que joguei contra o Benfica, quis sempre ganhar e mostrar o meu valor!