Bruno Varela, guarda-redes do Al Hazm - Foto: D. R.
Bruno Varela, guarda-redes do Al Hazm - Foto: D. R.

«Falhar o Mundial é difícil de digerir, mas voltarei com uma vontade enorme»

Bruno Varela sofreu lesão grave no joelho direito e abre o coração em A BOLA. Feliz aos 31 anos na Arábia Saudita, fala dos astros e... de uma realidade diferente

— Comecemos pela lesão no joelho direito, à qual foi operado recentemente. Foi um 'baque', não?

— É complicado... Nunca estamos prontos para ter lesões, mas há que saber lidar. É difícil digerir saber que não vou poder estar no Mundial. A partir de agora, o foco tem de estar virado para a recuperação, ter a cabeça tranquila, limpa e desejar a maior sorte ao Al Hazm para o resto da época e à seleção de Cabo Verde. Vou focar-me apenas e só na recuperação e voltar o quanto antes. Mas o mais importante é voltar bem, saudável e com uma vontade enorme de voltar a jogar.

— Depois de tantos anos em Portugal, o que o motivou a aceitar o desafio saudita?

— Inicialmente, o plano era ir para a Turquia, até as coisas deixarem de ir no sentido que queríamos. Acabou por ser a Arábia, muito pelos projetos que me foram apresentados. Sendo muito sincero, eu não tinha intenção de sair do Vitória de Guimarães, nem estava nos meus planos sair esta época, porque ainda tinha mais um ano de contrato. No entanto, surgiu a necessidade de resolver a minha vida o mais rápido possível, para não ter de passar o início da temporada sem clube ou a tentar definir o meu futuro. O projeto do Al Hazm pareceu-me bom, inserido numa liga competitiva, onde muitos jogadores de nível altíssimo têm ingressado. Era um momento importante para mim e, tendo esta oportunidade, optei por decidir assim.

— Até à lesão, era indiscutível na baliza do Al Hazm. Que balanço faz da experiência até agora?

— Estava a ser positivo. Não estive nos trabalhos da seleção [de Cabo Verde] por causa dessa lesão, mas estou praticamente recuperado. O balanço é bom. O início da adaptação não foi tão difícil como previa. Pensava que ia ser bem mais complicado, mas o grupo é bom e isso ajuda muito. Às vezes há a ideia de os sauditas serem pessoas mais fechadas, mas os jogadores de cá que tenho no grupo são muito boas pessoas, muito atenciosas, e essa parte humana é o que realmente facilita a nossa integração, além dos estrangeiros que cá estão, obviamente. A nível coletivo, as coisas têm corrido bem. O nosso objetivo é a manutenção e estamos muito dentro do que planeámos.

— Concorda com a ideia de que na liga saudita se joga numa velocidade abaixo?

— Eu acho que a intensidade não é igual à das ligas europeias. Se pegarmos num jogador da liga inglesa, que é a mais intensa do Mundo, e o pusermos neste contexto, ele nunca vai achar o campeonato saudita tão intenso. É fisicamente impossível, devido às temperaturas que se fazem sentir aqui. Tem uma influência enorme. Depois, há o fator cultural. A Arábia Saudita gosta de futebol e está cada vez mais aberta, mas ainda não tem a mesma cultura das melhores ligas europeias. O futebol está em crescimento, aqui. Por outro lado, não concordo quando dizem que é uma intensidade baixíssima. Vendo na televisão não dá para perceber bem. Só participando é que se nota que não é uma diferença assim tão grande como muitas vezes se diz. Não é o ritmo da Europa, mas também não é o que as pessoas acham.

— Apelando, agora, à visão de guarda-redes: vai estando frente a frente com Ronaldo, Benzema… Como têm sido esses duelos?

— Muito positivos. Quando houve o interesse do Al Hazm, isso pesou muito na balança da decisão: a oportunidade de, quase semanalmente, defrontar jogadores de um nível altíssimo. Ainda há pouco tempo jogámos com o Al Ettifaq, do Wijnaldum, que é também um jogador de elite. Quase todas as equipas têm dois ou três nomes de peso. As equipas grandes, claro, chamam mais a atenção. O meu primeiro jogo contra um grande foi contra o Al Shabab, onde estava o Yannick Carrasco. Depois veio o Al Ahli e aí sentes verdadeiramente o peso: Mahrez, Édouard Mendy, Kessié, Ibañez, Ivan Toney... Olhas para o lado e pensas: 'Hoje vai ser complicado…' E depois houve o jogo com o Al Nassr, que é aquele que toda a gente quer jogar, principalmente por ser contra o Cristiano. É difícil, mas ao mesmo tempo prazeroso. Estar no mesmo campo destes craques em jogos competitivos dá-nos muito gozo e faz-nos crescer.

Na Arábia, olhas para o lado e pensas: «Hoje vai ser complicado...»

— Além de Ronaldo e João Félix, há outros portugueses na Arábia: Luís Maximiano, Pedro Rebocho, Fábio Martins, que joga consigo…

— Eu sei que existe um grupo no WhatsApp chamado 'Portugueses na Arábia Saudita', que abrange toda a comunidade e onde creio que a maioria dos jogadores está. Mas não ponho as mãos no fogo pelo Cristiano e pelo Félix! [risos] Mas, mais do que grupos, há uma atenção especial entre nós. O Fábio está comigo e é uma pessoa fantástica. Muito prestável, tenta ajudar toda a gente, seja quem vem para a equipa dele ou para outra qualquer. Mesmo quando jogámos contra o Al Nassr, estive à conversa com o Félix e com o Cristiano, a perguntar como estavam as coisas e como era Riade. Queremos sempre que tudo corra bem aos nossos compatriotas.

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— Algum episódio mais exótico que já tenha vivido?

— Ui, nesta altura já dava para escrever um livro! Digo isto um pouco em tom de brincadeira, mas a verdade é que há coisas muito diferentes. Nós é que estamos noutro país e temos de nos adaptar. O Fábio já me tinha avisado de muita coisa, por isso não sou apanhado de surpresa. Mas lembro-me que, no primeiro jogo do campeonato, em Abha, tínhamos uma escala no aeroporto de Riade e o plano dizia 'almoço no aeroporto'. Eu pensava que íamos todos a um restaurante comer. Perguntei ao Fábio onde era o almoço e ele disse-me: 'Não estejas à espera, é cada um por si.' Quando dei conta, via colegas meus a ir comer pizza, outros a ir a hamburguerias ou cafés dentro do aeroporto. Um dia antes do jogo! Fiquei espantado, mas uma pessoa adapta-se. Outra coisa que me surpreendeu foram os horários. Às vezes, o treino está marcado para as 17h00 e a concentração para as 16h00, mas o pessoal chega às 16h30, como se nada fosse. Cumprimentam-se e está tudo bem, não há penalizações. Nas equipas grandes, já não é tanto assim, claro, mas ainda é algo natural. Mas uma coisa é certa: os sauditas são pessoas do bem, amigáveis e carinhosos. Receberam-me muito melhor do que esperava. Eles querem ajudar-te porque também sabem que a tua vinda para cá ajuda o desenvolvimento do futebol. São muito afáveis.