Bernardo, a pedra e a poesia
SIM, há alturas em que dizer pouco (ou talvez melhor: em que aquilo que se diz pode parecer pouco…) é dizer muito (nas reticências que se deixam abertas ao fascínio - ou à poesia do silêncio…) e foi isso que eu vi ouvindo Pep Guardiola, logo após a conquista da Champions ao Inter (que em Istambul voltou a mostrar como este FC Porto de Sérgio Conceição é melhor, muito melhor, do que se calhar alguns pensam…):
- O jogo que fez o Bernardo outra vez... que jogador, que jogador!...
Ouvindo-o assim, lembrei-me de Jack Grealish o ter contado (numa entrevista ao The Mirror):
- Num jogo nosso, Pep mandou o Bernardo ir recolher a bola junto do Ederson. Ele passou-lha e, indo o Bernardo por ali fora a driblar, eu fiquei a pensar: Que raio é isto?! Este gajo acha que está a jogar futebol no recreio da escola?! E, afinal, foi tão incrível o que ele fez…
Foi tão «incrível» o que Bernardo fez que Grealish não tirou mais a ideia de dentro do seu encanto (ou vice-versa):
- O Bernardo mudou a forma como eu vejo o futebol. De todos os jogadores com quem joguei, ele é provavelmente o melhor. A forma como o cérebro dele funciona é uma loucura…
É, é mesmo isso! E é mais - e nesse mais que o Bernardo Silva é (a jogar futebol sempre com a cabeça de um génio nos pés) também nunca me esquecerei de um outro elogio de Pep Guardiola:
- Bernardo é tão intuitivo, sabe sempre como tem de jogar e antecipar o que vai acontecer em campo, com e sem bola…
Achando Armando Nogueira (que está a par de Nélson Rodrigues no galarim dos cronistas de futebol em língua portuguesa e não só) que o «dom da antecipação» é a virtude maior do craque - esse é dom que sobeja ao Bernardo e o faz pensar sempre na melhor forma de jogar (para si ou para a equipa) antes de qualquer outro. E não, também não é tudo - e, no mais que o Bernardo é, no mais que o Bernardo voltou a mostrar contra o Inter, eu voltei a ver um outro sinal - sinal do seu caráter (e ainda mais…) que Grealish igualmente lhe revelou:
- Pep está sempre a dizer que quer que mostremos… tomates! Que temos de querer a bola, mesmo sob pressão, quando os adeptos adversários estão em cima de nós, a assobiar. E, sempre que isso acontece, lá está o Bernardo a dizer para lhe darmos a bola. Em poucas palavras, isso é o Bernardo…
É, é isso o Bernardo (também é isso o Bernardo…) mas ainda não é só isso o Bernardo que eu vejo no Bernardo. Há um verso famoso de Adília Prado que diz:
De vez em quando, Deus me tira a poesia: olho a pedra, vejo pedra mesmo…
e o que eu vejo no Bernardo é o anti-verso do verso da Adélia: olho a pedra e não é pedra que eu vejo - é poesia. Ou pérola. Se o Bernardo julga (primeiro que qualquer outro) que o melhor para si (ou para a equipa) é levar a bola colada ao pé (umas vezes mais embrulhada em veludo, outras vezes menos) é o que ele faz - e isso não é pedra, é pérola. Ou poesia.
Se ele julga (primeiro que qualquer outro) que o melhor para si (ou para a equipa) é levar a bola do negrume de um beco a acanhar-se no campo para um arco-íris a abrir-se na linha do seu horizonte por onde ela (a bola) há de chegar ao fundo da baliza (lá posta por ele ou por outro…) - nele isso nunca é pedra, é pérola. Ou poesia.
Se ele julga (primeiro que qualquer outro) que o melhor para si (ou para a equipa) é jogar o jogo (o seu e o da equipa) sem nunca deixar que o jogo se encalhe em imperfeições ou se atrofie em fastio, é isso que ele faz, eficaz e sublime - e não é pedra, é pérola. Ou poesia.
Se ele julga (primeiro que qualquer outro) que o melhor para si (ou para a equipa) é não deixar que o jogo se prenda a dúvidas ou destrambelhos (ou se lhe entortem os pés onde tem a cabeça sempre em flor) é isso que ele faz, eficaz e sublime - e não é pedra, é pérola. Ou poesia.
Se ele julga (primeiro que qualquer outro) que o melhor para si (ou para a equipa) é não deixar que o seu corpo se abale em vertigens como um acrobata bêbado a cair do seu trapézio ou se transtorne em frivolidades ou egoísmos, é isso que ele faz, eficaz e sublime - e não é pedra, é pérola. Ou poesia.
E é por tudo isso que eu vejo assim que eu não vejo o Bernardo Silva apenas como o Melhor Jogador Português da atualidade - vendo-o, claro, como óbvio candidato à Bola de Ouro, mesmo vendo que os golos do Halland possam vir a ser a única pedra no seu caminho (de pérola e poesia…)