Dois anos de André Villas-Boas: um balanço
Dois anos volvidos sobre a eleição de André Villas-Boas para a presidência do Futebol Clube do Porto, a energia em torno do Dragão é substancialmente distinta e o balanço só pode ser positivo.
A equipa A está a 3 pontos da conquista do título — objetivo primordial da temporada — o que, para além do evidente sucesso desportivo, assegurará o acesso à UEFA Champions League e o consequente encaixe financeiro muito relevante. Mas o sucesso desportivo não se cinge à equipa principal: nos principais escalões de formação, as equipas sub-15, sub-17 e sub-19 lideram os respetivos campeonatos e encontram-se próximas de conquistar os títulos nacionais.
O domínio no futebol jovem nacional, com a possibilidade de alcançar a conquista dos três títulos (o que não acontece desde 1997/98), é também a evidência de uma nova política desportiva assente na captação e manutenção de talento. Esta estratégia ganhou expressão com a contratação de Francesco Farioli e foi acompanhada por uma profunda reestruturação da administração do futebol. A modernização de processos e metodologias de acompanhamento de atletas de elevado potencial permitiu a valorização de jovens jogadores, como Rodrigo Mora, Froholdt e William Gomes, ao mesmo tempo que reforçou a identidade competitiva do clube.
O novo modelo de scouting e de deteção de talento permitiu identificar jogadores de elevado potencial, como são os casos de Pietuszewski e Samú. Em simultâneo, deu suporte a um investimento global de 163 milhões de euros na construção do novo plantel, viabilizado através de transferências que permitiram um encaixe de 262 milhões de euros, correspondendo a um rendimento de 63% nas vendas, com uma média de 6,6% destinada a comissões, menos 11% face à década compreendida entre 2014 e 2024.
De acordo com dados do Transfermarkt, o valor atual do plantel ascende a 427 milhões de euros, representando um crescimento de 30% em relação à época anterior.
O futebol feminino constitui outro eixo de sucesso, com a rápida afirmação da equipa sénior, que acaba de consumar a subida ao principal escalão e se prepara para disputar a final da Taça de Portugal frente ao Sport Lisboa e Benfica.
Líder incontestado ao longo de 31 jornadas, o FC Porto pode sagrar-se campeão nacional, no próximo sábado, no estádio do Dragão, diante do FC Alverca. O corolário de um longo percurso, feito de consistência competitiva e resiliência motivacional. Bravo!
Também a relação do clube com os sócios e adeptos evoluiu de forma positiva. Através do portal da transparência é hoje possível aos sócios do FC Porto acompanharem a evolução da situação financeira do clube, os detalhes do mercado de transferências e a relação com agentes desportivos que asseguram as transferências dos atletas. Em simultâneo, a reformulação da bilhética — incluindo a renegociação de protocolos com as claques — reforçou a proximidade aos adeptos, assegurando maior clareza na disponibilização de ingressos para os jogos no Dragão.
Este reforço da transparência contribuiu para a adesão de novos sócios, atingindo um total de 175 843: mais 15% face à época anterior e cerca de 40% acima de 2021/22, evolução que se acentuou desde a entrada em funções da nova administração.
Estes indicadores refletem-se igualmente na afluência ao Dragão, cuja taxa de ocupação ronda os 90% na Liga e já ultrapassou a marca de um milhão de espectadores no total da presente época. Os lugares anuais registaram um aumento de 12% face à época anterior — que já havia crescido 21% relativamente à precedente —, fixando-se em 31 400 lugares vendidos. Em 2021/22, este número situava-se pouco acima dos 13 mil, tendo mais do que duplicado nas últimas cinco épocas, existindo atualmente uma lista de espera com mais de 1 600 pedidos.
Também as receitas comerciais têm registado um incremento progressivo, refletido no merchandising oficial do clube, que se prevê que ultrapasse os 13 milhões de euros de faturação no final de 2025/26, o que corresponde a um aumento de 18% face a 2024/25. A venda de equipamentos registou um crescimento superior a 51% em comparação com o período homólogo, sendo que o sucesso desportivo é o principal fator que explica este desempenho.
A eleição da equipa liderada por André Villas-Boas contribuiu de forma decisiva para a alteração do paradigma de gestão do clube, anteriormente marcado por pressão financeira, prejuízos de 21,1 milhões de euros e capitais próprios negativos. No final do primeiro semestre de 2024/25, a SAD apresentou um resultado líquido positivo de 33,4 milhões de euros, mantendo, contudo, capitais próprios negativos de 64,6 milhões de euros.
No encerramento do exercício anterior, as contas registaram um lucro de 39,2 milhões de euros e resultados operacionais (excluindo vendas de jogadores) positivos superiores a 2,4 milhões de euros. Esta recuperação implicou uma profunda reestruturação financeira, traduzida numa redução de custos operacionais de 29 milhões de euros (menos 17%) e numa diminuição do passivo líquido em 42,7 milhões de euros, equivalente a uma redução de 8% num passivo global de cerca de 400 milhões. Acresce a renegociação da dívida em condições mais favoráveis, com alargamento de prazos e redução do custo médio.
Com o objetivo de reduzir o passivo e assegurar a sustentabilidade da sociedade, a administração lançou, em novembro de 2024, uma emissão obrigacionista no valor de 115 milhões de euros, instrumento que se revelou determinante para assegurar a sustentabilidade da gestão da instituição.
Ao reduzir a dívida a fornecedores e os encargos com pessoal, sobretudo na SAD, o clube deu passos importantes no reforço da liquidez e na capacidade para cumprir compromissos junto da banca e dos investidores, sem, contudo, comprometer o investimento no plantel profissional.
À medida que a situação financeira se vai consolidando, o clube garante margem para apostar num novo ciclo de investimento em infraestruturas, abrangendo o Estádio do Dragão, o futuro Centro de Alto Rendimento (CAR) e a construção de um pavilhão multiusos. A segunda fase de investimento no estádio encontra-se em curso, incidindo na modernização, no conforto e na renovação das áreas de restauração e hospitalidade, num montante global de 30 milhões de euros, com conclusão prevista para os próximos meses.
O CAR, um investimento estimado de 40 milhões de euros, já mexe com o início das obras em Gaia, implicando um custo inicial de cinco milhões de euros e um prazo de execução de 30 meses. Por fim, está previsto investimento de 10 milhões num pavilhão destinado à formação, ao desporto feminino e ao desporto adaptado, que funcionará em articulação com as piscinas de Campanhã.
Em síntese, os primeiros dois anos de mandato de André Villas-Boas traduzem-se numa transformação consistente e mensurável do Futebol Clube do Porto, assente num equilíbrio entre ambição desportiva, rigor financeiro e modernização estrutural. Persistem desafios relevantes — nomeadamente ao nível da consolidação dos capitais próprios e da sustentabilidade a longo prazo —, mas os indicadores atuais apontam para um clube mais competitivo, mais transparente e mais bem preparado para enfrentar as exigências do futebol contemporâneo.