Cafu: «Vini deve denunciar racismo e se for verdade a punição deve ser severa e imediata»
— Em contagem decrescente para o Campeonato do Mundo, como perspetiva a edição deste ano?
— Muito boa. Sou muito otimista em relação ao Mundial e ao que o Brasil possa fazer na prova. Fico muito feliz quando chega o Campeonato do Mundo. É um ambiente diferente, não é? É gostoso, o mundo inteiro para, para ver o Mundial.
— E até onde acha que o Brasil pode chegar?
— Acho que o Brasil consegue chegar à final. Não é fácil chegar à final de um Campeonato do Mundo, mas o Brasil tem equipa para poder chegar à final.
— E com quem poderia ser essa final?
— Ah, é difícil…Há grandes seleções, mas ano acho que não vai haver muitas surpresas em relação às grandes seleções.
— E Portugal? Acha que tem hipótese?
— Sempre fui muito fã do futebol português, há tantos portugueses a jogar futebol pelo mundo. Vejo um ano muito bom para Portugal, um ano experiente, um ano positivo, jogadores maduros, jogadores cientes do que é preciso para ganhar um Mundial. Se pegar na seleção, Portugal tem os melhores jogadores a jogar em cada grande equipa do futebol mundial. Tem dois ou três jogadores a destacar-se, e a destacar-se de verdade: no futebol inglês, no futebol alemão, no futebol espanhol, no futebol francês... Enfim, no futebol português também. Se juntarem essas grandes forças, sem vaidade, Portugal vai dar muito trabalho no Campeonato do Mundo. Espero que dê muito trabalho.
— Até à final?
— Gostaria. Caso o Brasil não venha a ser campeão, gostaria um dia de ver Portugal a ser campeão do Mundo. Até pela relação que nós temos com todos os portugueses, com o país, com o povo, com a cultura. Joguei com vários portugueses, tenho amizade com muitos. Seria giro. É um ano bom para Portugal.
— E o facto de Portugal ter o Cristiano Ronaldo, apesar de ninguém arriscar dizer que será a sua última grande competição, pode também ajudar a seleção?
— Para o Cristiano Ronaldo nunca se pode dizer que é a última. Ele é um jogador ímpar, um jogador que supera todo o tipo de limite, supera todo o tipo de barreira. Eu identifico-me muito com ele porque também era assim, não sabia qual era o meu limite. Queria estar sempre acima do meu limite, sempre dar algo mais, achava que podia dar sempre mais. E isso é o Cristiano Ronaldo. Ele está atrás de uma meta, de um objetivo, que são os 1000 golos. E estamos a torcer para que ele possa chegar aos 1000 golos porque, para se chegar aos 1000 golos, é preciso ter determinação, é preciso ter força de vontade, é preciso ter superação, é preciso ter disciplina. Muita disciplina. E eu fui um jogador muito disciplinado, por isso vejo muita disciplina nele também. Esperamos que ele possa chegar aos 1000 golos e esperamos que ele não pare de jogar futebol tão cedo. Este é o Mundial em que ele se vai dedicar ainda mais, porque existe a possibilidade de fazer o milésimo golo.
— Essa disciplina que o Cafu elogia no Cristiano tem faltado, por exemplo, na grande estrela do Brasil, o Neymar, que é acusado de não ter essa disciplina. Ainda vai a tempo de mostrar que isso não é verdade?
— A disciplina é um fator decisivo. É um diferencial e é um fator decisivo. Disciplina, compromisso e dedicação é tudo: na carreira, na família, na escola, em casa e no desporto, principalmente. Quando se fala de desporto de alto nível, quando se fala de um Campeonato do Mundo, sem dúvida que se quer os melhores jogadores. É óbvio, talento o Neymar tem de sobra. O talento do Neymar é... Se pegar em talento por talento, se calhar o Neymar é mais talentoso do que o Cristiano Ronaldo, do que o Messi, no meu ponto de vista. Mas nem sempre o talento vence. E o Cristiano Ronaldo provou isso. Eu provei isso jogando quatro Mundiais. Eu não sou mais talentoso do que o Cristiano, não sou mais talentoso do que o Messi, não sou mais talentoso do que o Neymar, mas a disciplina e o foco fizeram-me chegar onde cheguei. Se o Neymar tivesse essa mesma disciplina que nós tínhamos, com certeza o Neymar hoje estaria a bater todos os recordes absolutos e seria o único convocado para a seleção brasileira.
— E acha que ainda vai a tempo?
— Esperamos que sim. Falta pouco mais de um mês para o Mundial, quase dois meses para o Mundial. É pouco tempo? É. São dois meses em que tem de dedicar-se 1000% ao Mundial, a ir para o Mundial. E isso só vai depender do Neymar.
— Se não for o Neymar, acha que pode ser o Vini Jr. a aparecer neste Mundial?
— Temos vários jogadores que se podem destacar neste Mundial. O Vini Jr. é um deles. Tem-se destacado no Real Madrid, é uma estrela do Real Madrid, uma estrela do futebol mundial. Temos o Raphinha, que é um destaque no Barcelona, que está ao mesmo nível do Vini Jr. Temos o Estêvão, que é um jovem que vem ganhando o seu espaço, que está no Chelsea e que pode ser uma boa opção também. Temos o João Pedro, que é um jogador já praticamente consagrado. Enfim, nós não sabemos quem são os jogadores que vão ser convocados, mas estes são os que foram convocados ultimamente. Então, hoje temos jogadores que podem, sim, fazer a diferença e ajudar para que, de repente, o Vini Jr. possa ser esse jogador, a estrela do futebol brasileiro.
— Recentemente, o Vini Jr teve um problema com um jogador do Benfica, o Prestiani. E o Cafu já tinha, noutras situações, sido muito assertivo em relação ao que pensa sobre o racismo. Até porque é uma das bandeiras do Laureus fundação. Como viu este caso?
— Eu vi este caso recente também e bato na mesma tecla: o racismo é uma questão de educação. Porque uma criança só repete aquilo que os adultos lhe ensinam. As crianças são um repetidor do que falamos. Se educarmos uma criança, se criarmos uma criança a dizer que temos de viver num país de igualdade, essa criança vai crescer num país de igualdade. Se educarmos uma criança mostrando-lhe que existe diferença entre os povos, que existe diferença entre as pessoas, essa criança vai achar que existe esse tipo de diferença. No meu ponto de vista, o racismo tem de ser cortado pela raiz. O racismo é um problema mundial. Não é um problema individual, não é um problema de um país ou de uma cidade, mas não pode ser um problema à parte. É educação? É. É cultural? É. Então, só se combate o racismo com educação, mostrando às pessoas o direito de igualdade que todos têm dentro da sociedade. O desporto devia fazer isso. O desporto junta pessoas do mundo inteiro, com vários idiomas, com várias religiões, com várias perspetivas políticas, com várias raças... Caramba! Eu acho que no futebol, no desporto em geral, não deveria existir, mas infelizmente estamos a deparar-nos com isso ainda. Nós somos exemplos, somos exemplos para tantas crianças. As crianças espelham-se em tudo o que nós fazemos. Se fizermos qualquer coisa errada, essa criança vai achar que tem o direito de fazer também. E qualquer palavra nossa pode mudar a vida de uma pessoa.
— A FIFA ainda não decidiu e o Prestiani negou.
— É uma questão técnica: ou chamou ou não— É uma questão técnica: ou chamou ou não chamou. Caramba, o Vini já sofre isto há muito tempo. Ele sabe que hoje a televisão vê tudo o que fazes. Dá o exemplo! Mostra algo diferente. Eu acho que as punições, caso haja ato de racismo dentro de campo — e não só dentro de campo, na claque, na rua, em casa, em qualquer lugar — têm de ser punidas. Mas a punição tem de ser imediata. Não se pode deixar cair no esquecimento. Senão as pessoas esquecem-se do que as outras fizeram. Por isso, a punição tem de ser imediata.
— Li uma entrevista em que o Cafu disse que lhe chamaram várias coisas racistas ao longo da sua carreira também
— Mas eu encarava assim, oh... (faz um gesto de desdém/estalar de dedos). Eu fazia assim: ‘Valeu, tchau’ e ia-me embora. Chamavam um pouco de tudo, mas eu nunca deixei que isso fosse mais forte do que eu era.
— O Vini faz bem em manifestar-se sempre que isso acontece, ou devia encarar dessa forma?
— Isso vai de cada um, cada um tem uma maneira de reagir. Uns reagem de uma maneira tranquila, outros expõem essa maneira de reagir. Só acho que não deveria existir. Ele reage desta forma, tem de se respeitar a maneira como reage. E as pessoas têm de respeitar o Vini da maneira que tem de ser respeitado.
— Não teme que banalize, até pelo facto de ser tantas vezes com o mesmo jogador, não sendo ele o o único jogador negro.
— Não se pode banalizar, não. Mas ele tem de recorrer. É uma ferramenta e uma arma que ele tem. Está certo, tem de apontar.
— Não deve deixar passar em branco.
— Não deve deixar passar em branco, isso é óbvio. Se ele acha que tem de apontar... Ele está no centro da imprensa neste momento. Então, se ele apontar para as pessoas: ‘Olha, estás a fazer algo errado’, as pessoas vão ver que estão a fazer algo errado. E isso expõe a pessoa que está a fazer também. Até porque, se não expuser isso, de repente essa pessoa vai fazer com outro. É uma situação para nos sentarmos e discutirmos numa mesa de que maneira se pode eliminar isso dentro do futebol: tendo punições severas. A única maneira de acabar com isto no futebol é com punições severas: para o jogador, para o adepto, para a imprensa, para a família, para toda a gente que comete um ato de racismo.
— No Laureus, essa é uma das suas bandeiras?
— Essa é uma das minhas bandeiras: direito de igualdade dentro desta sociedade maluca em que vivemos.