Nuno Catarino e Rui Costa - Foto Miguel Nunes
Nuno Catarino e Rui Costa - Foto Miguel Nunes

Benfica perde até €15 M com centralização e assume «fricção» com investidor dos EUA

Nuno Catarino, responsável pela área financeira das águias, faz o ponto da situação de vários temas importantes

Nuno Catarino, vice-presidente e responsável pela área financeira do Benfica e CFO da Benfica, SAD, explica que as águias perderão dinheiro se o processo de centralização dos direitos televisivos for para a frente tal como está.

«Com base no cenário de €220 milhões apontado pela Liga, estamos a falar de uma perda provável de 5 a 15 milhões de euros [por ano] para o Benfica, dependendo de outras variáveis. É uma situação inaceitável para nós, e por isso a nossa abordagem tem sido construtiva — que é a nossa postura natural — mas simultaneamente assertiva», explicou, em entrevista ao ECO.

Nuno Catarino deixa, ainda assim, a porta aberta ao diálogo: «Reconhecemos que para a maioria dos clubes nacionais esta centralização representa uma situação muito complexa. Já existem cinco ou seis clubes que não conseguiram negociar, ou que receberam propostas muito baixas, porque os operadores tiram partido da situação. Em 99 por cento das decisões, o bem do futebol português é o bem do Benfica, e vice-versa. Por isso, defendemos uma centralização voluntária, em que os clubes que assim o desejem se agreguem para, em conjunto, obterem melhores condições. O Benfica não precisa desse processo para ter boas condições de mercado — mas reconhece que, para muitos outros clubes, faz todo o sentido. O valor total de receitas de televisão para as duas épocas chega a 114,2 milhões de euros se incluirmos a publicidade dinâmica no estádio retida pelo Benfica [€7,2 milhões para duas épocas] e o contrato de exploração publicitária da BTV [€2,4 milhões].»

A Liga aponta agora para um valor de €220 milhões a €225 milhões, bem diferente dos €300 milhões inicialmente previstos. «O Benfica não precisa da centralização para valorizar o seu produto. Por isso, faria muito mais sentido uma centralização voluntária ou um adiamento do próprio prazo, para dar tempo a que o trabalho preparatório seja feito», acrescentou.

O financeiro do Benfica garantiu igualmente que «o plano dos 500 milhões de euros de receita consolidada», objetivo para o atual mandato de Rui Costa na presidência, «permite ter uma dependência da conta de direitos de atletas bastante mais baixa» do que a que existe hoje.

Tema também da entrevista foi a relação do Benfica com a empresa norte-americana Lenore Sports Partners (LSP), que controla atualmente mais de 5% da Benfica, SAD, havendo um processo judicial em curso. Em maio do ano passado, o Benfica anunciou que iria requerer judicialmente a nulidade da transmissão das ações de Luís Filipe Vieira para a LSP, por considerar ser titular de um direito de preferência: «Apresentámos o requerimento em tribunal, mas ainda não obtivemos resposta. O processo segue o seu curso. A Lenore é, neste momento, detentora das ações, foram-lhe atribuídas pelo Tribunal. Nós apresentámos o pedido com base no direito de preferência. O Tribunal, na primeira decisão, deixou o processo avançar, sem dar resposta ao nosso pedido. Qualquer acionista qualificado tem interlocução connosco. Na qualidade de CFO, tenho contacto com eles e conhecemos as pessoas. Não é um tema de cariz institucional. Cria alguma fricção, porque a primeira coisa que lhes dizemos é que esta situação ainda pode vir a alterar-se.»

Arranca esta segunda-feira a emissão obrigacionista de €40 milhões, a primeira a cinco anos na história do clube. «Nós vamos para uma emissão obrigacionista de €40 milhões porque sabemos que podemos pagar os €50 milhões com a tesouraria corrente», explicou Catarino, que exclui a possibilidade de alguma da verba que vai entrar ser destinada ao investimento no futebol profissional. «Não. O mercado de transferências é sempre gerido de forma independente das emissões obrigacionistas, e não faria sentido que fosse de outra forma.»