Noite em Madrid
Esta é uma noite para campeões. O recente descarrilamento do Real Madrid em Pamplona foi uma boa notícia, mas ajudará? Na verdade, é sempre melhor que o adversário perca antes de uma decisão europeia... A confiança de quem perde sempre decresce e quem vem a seguir reforça a esperança na vitória.
Recordando o jogo da Luz e como decorreu, os quatro médios do Real estiveram em destaque e acabariam por se superiorizar aos do Benfica, Aursnes e Barreiro, mesmo que apoiados por Rafa mais à frente e por Schjelderup e Prestianni, nas alas. Feitas as contas, cinco unidades contra quatro para o Benfica, mas sem conseguir efetiva vantagem no centro do jogo. Depois, já se sabe, Mbappé e Vinícius não precisam de mais ninguém para individualmente fazer estragos e obrigam sempre a uma concentração defensiva reforçada.
No jogo desta noite, poderão a ausência de Prestianni e as dificuldades do primeiro jogo levar Mourinho a acrescentar um médio à sua estrutura? Rafa manterá a sua posição no centro do ataque ou deriva para Mourinho fortalecer a zona central? Estas, são dúvidas que dependem também da disponibilidade de Aursnes e Sudakov, jogadores capazes de cumprir várias posições. Veremos o que acontece e se, no final, a noite de hoje se torna especial.
A ausência de Mourinho no banco, embora desconfortável, penso não ser impeditiva de uma boa resposta. A preparação da estratégia está definida ao detalhe e isso é aquilo que mais importa. É sempre uma alteração de um hábito, mas ninguém melhor que o treinador do Benfica, para agilizar a comunicação com o seu banco.
Ciclone
Voltando atrás, o Benfica viveu um rescaldo duro da derrota caseira para a Liga dos Campeões. A carga negativa foi enorme, resultante não só de um desaire, que põe em risco a desejada qualificação, mas também de um episódio grave e triste.
É sabido que Vinícius Júnior é tão famoso pela sua qualidade de jogador, como pela sua veia conflituosa. No entanto, a provocação, por muito estúpida que seja, não pode nunca justificar qualquer ato de racismo. É esta uma luta da sociedade atual, seja ou não desportiva. Falta saber se o alegado insulto racista realmente aconteceu e, para isso, o que conta não são os comentários de quem viu de fora, mas sim a investigação, que vai tomar o seu rumo. Mas o dano deste episódio ficou. Para o Benfica e para Prestianni. Em relação ao jovem jogador argentino, fica desde logo uma importante lição, antes de concluído o processo.
Não é fácil o controlo emocional, mas num ambiente competitivo, face a uma provocação, pede-se contenção e desprezo. Bem sei que é mais fácil dizer do que fazer. Quanto a um eventual castigo, se for culpado do que o acusam, restar-lhe-á aprender com ele. Episódios destes não podem caber, nem no futebol, nem em lado algum. Esperemos que a sua inocência se prove.
Relativamente à equipa como um todo, a meta é tentar que os dias desgastantes emocionalmente — como descreveu Mourinho —, não entrem para dentro de campo em Madrid. Imagina-se que o Bernabéu vá estar incendiado com tudo o que aconteceu. Mesmo assim, penso que a suspensão preventiva de Prestianni pode suavizar o ambiente. Cabe à equipa concentrar-se na luta por mais uma grande noite europeia, numa eliminatória que, embora em desvantagem, não deixa de estar em aberto.
Saudoso AFS
O AFS, vulgo Aves SAD, foi o parceiro ideal para um regresso calmo às vitórias no campeonato, depois do ciclone mediático criado na Liga dos Campeões.
José Neto foi a maior surpresa que Mourinho trouxe ao jogo e respondeu com brilho à aposta do treinador, tendo sido um dos melhores em campo. Em definitivo, a equipa já conta, no imediato, com um verdadeiro concorrente a Dahl, o jovem sueco que era antes desvalorizado, mas que vem defendendo a sua posição com regularidade, brio e qualidade.
Como Dahl, Neto é um exemplo de lateral que não se distingue só pela sua técnica ou capacidade ofensiva, esta até superior ao seu colega. Em muitos casos, erradamente, os laterais são classificados e distinguidos pelas suas habilidades ofensivas e não por aquilo que deve ser básico num defesa: saber defender. José Neto marcou a sua estreia com qualidade. Já Schjelderup foi o jogador mais desequilibrador, prosseguindo firme na defesa da sua titularidade.
Quanto ao jogo, o domínio do Benfica foi evidente, ajudado pela obtenção bem cedo do primeiro golo, que desde logo estabilizou a equipa e a sua marcada superioridade.
Regressos
Destaque para o feliz regresso de Bah e logo a marcar, depois de uma recuperação complicada, com alguns recuos. Na entrevista depois do jogo, o lateral dinamarquês chamaria a atenção para algo sempre importante e que o combate ao desânimo desenvolve: o fortalecimento mental de um atleta que vive um trajeto tão longo e penoso. Nem tudo foi mau.
Admirável a atitude de Ivanovic, mesmo vindo a ser pouco utilizado e, frente ao Aves SAD, desviado da sua posição natural. Tentar fazer o melhor independentemente do momento e da missão que lhe é confiada é um excelente sinal de profissionalismo. Belíssima atitude, mesmo não vivendo o melhor momento, no que diz respeito a oportunidades. Assumindo a posição de avançado esquerdo contra o Aves SAD, o avançado croata vestiu a pele de extremo e assumiu o confronto com o lateral adversário com personalidade. Também sem bola, cumpriu a recuperação posicional e o apoio ao lateral do seu lado, fazendo inveja a muitos extremos de origem. Excelente exemplo para os colegas menos utilizados.