Rui Costa, presidente do Benfica, discursa na cerimónia de atribuição dos galardões Cosme Damião — Foto: SL Benfica
Rui Costa, presidente do Benfica, discursa na cerimónia de atribuição dos galardões Cosme Damião — Foto: SL Benfica

Benfica entre pensamentos, palavras, atos e omissões

O discurso de Rui Costa com Pedro Proença na plateia pode ser interpretado como afronta simbólica ao poder que o Benfica contesta. Mas só palavras serão insuficientes para que exista mudança

A cerimónia de atribuição dos galardões Cosme Damião, no âmbito das celebrações do 122.º aniversário do Benfica, mesmo tendo passado entre os intervalos da chuva, sobretudo depois da qualificação do Sporting para os quartos de final da Liga dos Campeões, deveria justificar uma reflexão que poucos irão ou estarão interessados em fazer.

O presidente do Benfica convidou o presidente da Federação Portuguesa de Futebol à festa para lhe dizer que o maior clube português não aceita o que se está a passar no futebol português. Voltou à Taça de Portugal que, no entender dele, «tiraram» ao Benfica, protestou com o «exemplo gritante», sem especificar, que se passou em Arouca, considerou inqualificável o castigo de Mourinho «por factos que, reconhecidamente, não aconteceram», exigiu respeito e considerou imperativo «lutar com as mesmas armas dos rivais».

Mais do que palavras vãs ou profundas, consoante a interpretação ou gosto de cada um, o discurso de Rui Costa, com Pedro Proença na plateia, pode ser interpretado como uma afronta simbólica ao poder que o Benfica contesta. Isso, em si, não é pouco, nem deveria ser ignorado. Mas, na perspectiva do Benfica, que reclama mudanças, não se pode esgotar no fim da noite em que se entregam prémios.

Rui Costa não terá feito um ato de contrição sobre os erros ou pecados da presidência, embora tenha afirmado que não fugirá da responsabilidade, referindo-se à equipa de futebol, cuja época estará pouco melhor que perdida. Não sabemos, na verdade, o que assumir a responsabilidade significa, mas já será mais fácil adivinhar os pensamentos daqueles que gostam do Benfica e veem a equipa apenas a lutar pelo segundo lugar.

Num momento de dificuldade desportiva e que poderá ter consequências financeiras graves, caso a equipa não participe na próxima edição da Liga dos Campeões, num momento que poderá ser de viragem, com a construção do Benfica District, faltam mais palavras de Rui Costa, ou seja, mais explicações.

Não tenho dúvidas de que o presidente do Benfica só tem a ganhar se esclarecer dúvidas ou contestar críticas, se falar de futebol, do treinador, de jogadores, de árbitros ou presidentes, de golos ou falhanços. Não foi assim que ganhou as eleições?

O desconhecimento daquilo que está a ser feito, para contrariar ou mudar o que entende estar mal no futebol português, e a falta justificações para algumas opções que não são compreendidas são terreno fértil para fazer germinar os piores sentimentos, a contestação e até as teorias da conspiração.

Quanto menor for o espaço para omissões, por outro lado, mais bem preparada estará qualquer Direção para enfrentar os desafios. E, no entanto, as omissões a que assistimos estão longe de poderem ser interpretadas como desafio, insubmissão ou confrontação ao status quo que se pretende mudar, como sinais de tranquilidade, estabilidade, firmeza ou solidez.

O Benfica precisa, ainda, de atos. E já agora que todos, especialmente sócios e adeptos, possam compreender. Já escrevi várias vezes que somos mais aquilo que fazemos do que aquilo que dizemos. O Benfica será também mais aquilo que fizer.