Nélson Feiteirona
Benfica brilha em Milão: uma noite para a história! (crónica)
Marco Silva avisou, em conferência de imprensa, que teria de rodar a equipa não só a pensar no desafio de campeonato de domingo, em casa do FC Porto, mas também tendo em conta a condição física dos jogadores. A revolução esperada em Itália acabou por ser maior do que se previa: o treinador do Benfica manteve apenas dois jogadores no onze inicial relativamente ao último jogo (frente ao Gil Vicente) — Tomás Araújo e Banjaqui.
Não fugiremos à verdade: foi um novo Benfica aquele que subiu ao relvado de San Siro para jogar com o Milan na 1.ª jornada da fase de liga da Liga Europa. Uma nova estratégia, um desenho tático muito maleável, diferentes protagonistas, mas com a mesma fome de vitória, muito organizado, competente e solidário.
As águias entraram bem melhor que o Milan, a conseguir pressionar a saída de bola dos italianos e, depois, com grande capacidade para reagrupar atrás e bloquear uma forma de jogar que pareceu muito próxima daquela que nos lembramos de Ruben Amorim no comando do Sporting. O Benfica não teve problemas em defender na linha do seu meio‑campo, fazendo recuar Kaminski para lateral e assim montar uma linha de cinco defesas — Banjaqui, Circati, Tomás Araújo, Karouani e Kaminski.
Aursnes juntava‑se para tapar o jogo interior e os italianos pareceram ter sido surpreendidos pelas ideias que o Benfica ia colocando em campo. Mal ganhava a bola, a equipa encarnada procurava sair em ataque rápido, com Sudakov a tentar a ligação e beneficiando a velocidade de Kaminski e a profundidade de Lukebakio, com Durán no papel ingrato de segurar o central ao meio.
Foi assim que, logo aos 15 minutos, numa jogada construída desde atrás, com Aursnes para Banjaqui e depois para Lukebakio, este último deu o primeiro sinal de perigo, com um remate à figura. Apenas um minuto depois, Kaminski correu pela esquerda, ultrapassou três adversários e a bola sobrou para Lukebakio, que, com o movimento que lhe é característico (do flanco para dentro), rematou em arco para o primeiro golo do jogo, inteiramente merecido pela equipa portuguesa.
Hutchinson ia dando sinais de ser o mais inconformado no Milan, mas a concentração de Aursnes e a fisicalidade de João Palhinha iam resolvendo potenciais problemas. O Benfica continuava a ser a melhor equipa: a defender, a atacar e a manter a bola. Foi sem surpresa que, em lance de insistência de Kaminski, Sudakov rematou ao poste. O Milan parecia desnorteado e, aos 30’, Kaminski poderia ter feito o segundo golo, se tivesse aproveitado melhor um enorme passe de Lukebakio.
Perto dos 40 minutos, o Milan empurrou mais o Benfica e Trubin foi chamado a mais tempo de intervenção, mas a primeira parte foi do Benfica, que dominou, controlou e transmitiu belos sinais para a segunda parte do jogo.
O Milan entrou no segundo tempo com duas alterações — Gila e Pulisic — e uma postura mais agressiva, explorando melhor os flancos e aumentando a pressão sobre o Benfica. Aos 50 minutos, De Winter teve uma oportunidade clara para empatar, mas rematou mal, com a bola a sair tresloucada por cima da trave de Trubin. Sorte para os encarnados neste lance, mas que foi justificada pela forma solidária como a equipa defendeu, conseguindo minimizar a supremacia italiana que se fazia sentir.
Apesar da pressão do Milan, o Benfica continuou a responder com saídas rápidas para o ataque. E foi numa dessas transições que o San Siro voltou a ficar sem respiração: grande passe de Sudakov para Kaminski, remate bloqueado, a bola sobra novamente para os encarnados, novo passe preciso de El Karouani e Kaminski não falha — segundo golo do Benfica! Um golo bem construído, que deixou os jogadores do Milan sem reação e reforçou a vantagem encarnada num do palco de enorme exigência.
Ruben Amorim lançou Diego Moreira, jovem formado no Benfica e que no jogo anterior do Milan, em casa da Lazio, tinha marcado dois golos. A ideia era que o avançado de nacionalidade belga e portuguesa voltasse a mexer com o jogo — e acabou por suceder. Aos 61 minutos, Trubin segurou um remate perigoso de Pulisic, o Milan começava novamente a criar mais problemas, o que levou Marco Silva a reagir: entraram Prestianni e Leandro Barreiro para os lugares de Sudakov e Aursnes. Um meio-campo fresco, com mais capacidade para travar uma batalha na qual, diga-se, o Benfica nunca esteve realmente por baixo.
Com o jogo mais partido e o Benfica a sofrer mais, Marco Silva voltou a mexer: saiu Kaminski, entrou Schjelderup; Jhon Durán deu lugar a Pavlidis. Posição por posição, mas com protagonistas diferentes e um Benfica sempre competitivo. Aos 81 minutos, grande defesa de Trubin a um remate de Pulisic (sempre ele) e, apesar das alterações, seguiu-se uma fase de muito sobressalto junto à baliza das águias. Ainda assim, os encarnados conseguiram cerrar dentes e até tentar o terceiro golo — Lukebakio rematou com perigo já depois dos 80 minutos.
Foi preciso sofrer, mas novamente o Benfica manteve a confiança e a personalidade e conseguiu fazer história em Itália: venceu o Milan pela primeira vez (seis jogos, com dois empates, até esta quarta-feira). Foi a melhor equipa, merece o brilho na Europa.