Benfica arrisca-se a ser a maior espinha na garganta de Mourinho
A 20 de setembro de 2000, o mundo do futebol abriu a boca de espanto: José Mourinho foi apresentado por Vale e Azevedo como treinador do Benfica. Um jovem sem currículo chegava à Luz sob um manto de dúvidas e nenhuma certeza. Mais uma trapalhada de Vale e Azevedo?
Na altura, eu acompanhava a atualidade noticiosa do Benfica para A BOLA e a primeira coisa que me saltou à vista foi a forma como Mourinho projetava autoestima. Até alguma arrogância para quem ainda nada tinha ganho. Mas, no caso de Mourinho, era um fato que lhe assentava bem. As conferências de imprensa tinham conteúdo, já na altura falava dos jogadores, pedia mentalidade, criticava-os se fosse preciso – chegou a rasgar Sabry por ter demorado oito minutos a atar os atacadores antes de entrar em campo numa substituição – e provocou algumas críticas.
Mourinho mão entrou bem em termos de resultados: derrota no Bessa com o Boavista e empate em casa com o modesto Halmstads da Suécia, com eliminação precoce na Taça UEFA. Mas o discurso e a atitude cativavam e depressa se transformou para mim naquilo que os ingleses chamam de guilty pleasure. Irresistível. Como não gostar de Mourinho?
Uma vitória frente ao Sporting, por 3-0, no primeiro grande jogo da equipa, que deu de facto festival, levou Mourinho a pressionar o novo presidente, Manuel Vilarinho, a renovar logo contrato. Vilarinho que tinha assumido Toni, na campanha eleitoral, como escolha para treinador mas travou um pouco quando percebeu que Mourinho poderia ter algo de especial.
Foi o próprio José Mourinho quem reconheceu mais tarde que esticou a corda ao não dar grande margem a Vilarinho perante o ultimato. E Mourinho bateu com a porta. E alguns adeptos do Benfica, que já se tinham rendido ao treinador, invadiram a sala de imprensa com um garrafão de vinho em protesto com a Direção por ter deixado Mourinho partir. E desde esse dia se percebeu que para Mourinho ficara um amargo de boca e que, mais dia ou menos dia, haveria de voltar. Quando disse sim a Rui Costa, não pensou nada. Era agora que voltaria paracompletar uma missão.
Mais de 25 anos depois, Mourinho volta a vencer o Sporting e a mostrar uma ideia do que pode fazer com a equipa. Tal como então, gostava de ter um contrato de maior duração para poder trabalhar com um plano a passar do papel para o relvado. Tal como então gostaria de ouvir o presidente dizer algo diferente de ser um «não assunto» por ter contrato. Gostaria de ouvir Rui Costa dizer que ele é o melhor treinador que o Benfica poderia ter e que vai fazer tudo para que tenha condições de trabalhar, ser feliz e ficar muitos anos no Benfica.
Rui Costa não pode permitir que o silêncio ou o jogo de palavras seja lido como hesitação. Em 2000, o Benfica perdeu futuro por um braço-de-ferro desnecessário. Em 2026, o «não assunto» de hoje pode ser o não treinador de amanhã. A alguém com a dimensão de Mourinho é devido um sim ou um não claro, sem ses e sem mas… Nunca um talvez. Um sim ou um não, apenas, ambos legítimos. O inverso também é verdadeiro. A uma instituição com a dimensão do Benfica lhe é devida um sim ou um não, sem ses nem mas…
Mourinho regressou para pagar uma dívida e o tempo não deve ser gasto com semântica. E o Real Madrid pode mesmo estar a bater à porta de Mourinho. Até o treinador está incomodado, não quer que duvidem do quanto está com a cabeça na Luz.
Vinte e cinco anos depois, vários pontos em comum e um desfecho abrupto que se pode repetir. Se sair, Rui Costa será chamado a contas como Vilarinho? E ficará o Benfica como a eterna espinha na garganta de Mourinho? Que queria muito mmesmo voltar ao Benfica para, desta feita, ter tempo para vencer... Será que corre o risco de ser o one que, na Luz, voltou a não ter tempo de ser special?