O FC Porto foi melhor do que os rivais na prova que verdadeiramente definiu a época — Foto: ROGÈRIO FERREIRA/KAPTA+
O FC Porto foi melhor do que os rivais na prova que verdadeiramente definiu a época — Foto: ROGÈRIO FERREIRA/KAPTA+

Beneficiados por um 'manto verde'? Quem diz é quem é!

Sejamos sérios: passa pela cabeça de alguém que, se houvesse alguma espécie de proteção ao Sporting, estaríamos hoje a lutar, sem depender de nós, para não ficarmos em 3.º? O Mundo Sabe Que é o espaço de opinião de Nuno Saraiva, consultor e sócio do Sporting Clube de Portugal

1 — O FC Porto sagrou-se campeão nacional e a primeira palavra só pode ser de felicitação. Foi a equipa mais consistente, a que melhor soube gerir os momentos de pressão e aquela que, objetivamente, somou mais argumentos ao longo da temporada. 

Os campeões saúdam-se e respeitam-se. O FC Porto foi melhor do que os rivais na prova que verdadeiramente definiu a época.

Mas uma coisa é reconhecer mérito desportivo. Outra, bem diferente, é aceitar a narrativa de pureza moral que muitos quiseram construir desde a chegada de Villas-Boas, apontando constantemente o dedo ao Sporting, à suposta existência de um manto verde e a alegados benefícios do sistema. Curiosamente, os mesmos que têm passado a vida a alimentar suspeições exigem agora silêncio absoluto perante episódios graves, indignos e incompatíveis com um campeonato que se quer sério, transparente e respeitador da verdade desportiva. 

E depois, sejamos sérios: passa pela cabeça de alguém que, se houvesse alguma espécie de proteção ao Sporting, coisa que não quero nem desejo em nenhuma circunstância, estaríamos hoje a lutar, sem depender de nós, para não ficarmos em terceiro lugar, verdadeiramente os segundos dos últimos?

A verdade é que, o FC Porto não podia passar mais um ano sem conquistar o campeonato. Depois do maior investimento da sua história recente, houve, esta temporada, um claro all-in. E foi uma estratégia legítima. O clube focou-se praticamente em duas competições: Campeonato e Taça de Portugal. Abdicou da final four da Taça da Liga e, acima de tudo, abdicou da sua tradicional ambição europeia. E isso merece ser sublinhado porque, mesmo em contextos financeiros difíceis e sem grandes reforços, Sérgio Conceição conseguiu durante anos devolver aos portistas noites europeias memoráveis e uma competitividade internacional que fazia parte da identidade do clube.

Este ano, a prioridade foi outra. O objetivo era impedir que o Sporting voltasse a ficar à frente do FC Porto. E conseguiu. Conseguiu com mérito competitivo e eficácia interna. A dobradinha era também um desígnio assumido, mas aí encontrou um Sporting mais forte, mais coletivo e mais preparado, que eliminou justamente os dragões.

O problema começa quando se tenta vender a ideia de que tudo aconteceu num ambiente de absoluta normalidade institucional. O país do fair-play continua à espera de consequências para episódios lamentáveis protagonizados, direta ou indiretamente, por quem dirige circunstancialmente uma instituição histórica, centenária e merecedora de muito mais respeito.

Continua por explicar o vergonhoso desaparecimento sistemático de bolas no clássico do Dragão, em fevereiro de 2026, atrasando lançamentos, cantos e pontapés de baliza nos minutos finais para impedir o Sporting de procurar a vitória num jogo que terminou empatado. Continua sem castigo o roubo das toalhas a Rui Silva por parte dos apanha-bolas, impedindo o guarda-redes leonino de secar as luvas. Continua sem resposta disciplinar o pisão violento e deliberado de Gabri Veiga sobre Morten Hjulmand, na Taça de Portugal, uma agressão que terminou a época do nosso capitão sem que o jogador portista visse sequer cartão.

E o país desportivo continua também à espera de esclarecimentos sobre um balneário visitante transformado numa sauna antes de um clássico, com temperaturas insuportáveis, ou sobre a tentativa de condicionamento do árbitro Fábio Veríssimo através da colocação de imagens, em loop, com alegados erros seus contra o FC Porto.

Podia recordar mais episódios. Muitos mais. Mas não vale a pena diminuir o mérito competitivo do campeão. Vale, isso sim, recusar a hipocrisia de quem passou os últimos a falar de mantos e sistemas enquanto fechava os olhos a comportamentos que envergonham o futebol português.

No Sporting não comemos gelados com a testa. E reconhecer o mérito do campeão não obriga ninguém a fingir que não viu o resto.

2 — A Federação Portuguesa de Futebol e o seu presidente, Pedro Proença, deram esta semana um sinal importante de coragem e de responsabilidade ao apresentarem ao Governo um pacote sério de medidas no combate à violência e à indisciplina no futebol. Defender a verdade desportiva e devolver credibilidade ao jogo é defender a indústria e exige liderança. E é isso que Pedro Proença tem demonstrado.

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