Atrás dos tempos vêm tempos
No momento em que escrevo o mercado ainda não fechou, logo não sei se entrará ou sairá alguém relevante para o plantel. Se ficarmos com os que temos e se forem acrescentados dois ou três jogadores de qualidade para as posições de defesa-esquerdo, médio e extremo parece-me claro que vamos ter uma equipa mais forte.
De qualquer forma, não chegando ninguém, essas eventuais carências não porão em causa a nossa candidatura aos nossos objetivos habituais. Pelo contrário. A equipa está rotinada no seu sistema de jogo e os jogadores são, no seu núcleo central, os mesmos. Não negarei a relativa importância do Ricardo e do Marcano, mas penso - o futuro o dirá, claro - que foram bem substituídos e que não será por aí que a equipa poderá eventualmente falhar. Mais, para a defesa parece-me haver melhores soluções este ano do que havia no anterior. Também importa lembrar que a proposta por Ricardo era irrecusável e que os valores que o Marcano foi auferir para a Roma seriam irrealistas para o nosso mercado. Na pior das hipóteses, posso admitir que a situação contratual do espanhol pudesse ter sido tratada mais cedo.
A minha principal preocupação, porém, não está apenas na próxima época, nunca está aliás. Como portista, o meu foco é sempre o horizonte mais alargado. Olhar para uma época como se fosse sempre a decisiva é um erro que se paga caro, muito caro mesmo. A vertigem da vitória imediata é o maior inimigo das vitórias consistentes. E nós que temos o brasão abençoado ao peito devíamos estar bem cientes disso. Não foi num passado muito longínquo que se cometeram erros flagrantes que condicionaram e continuam a condicionar o nosso presente. Pretender que se entre em loucuras salariais do género das que a SAD arguida anda a fazer é querer que se comprometa o futuro do nosso clube.
Posso criticar quem dirige o meu clube por falhas na prospeção de jogadores, por a nossa formação não estar a produzir jogadores de qualidade em quantidade, por fazer compras de jogadores claramente erradas, por precipitações do género da do Zakaria, mas nunca por não apostar todas as fichas numa vedeta qualquer ou fazer renovações por salários desfasados da nossa realidade ou a entrar em endividamentos gigantes para construir um plantel infalível.
Brahimi e Herrera
TANTO Brahimi como o Herrera são fundamentais no atual plantel. Penso que não existirão muitos portistas que achem o contrário. Se neste momento considero que seria difícil mas possível encontrar alguém que substituísse o mexicano, já dar com alguém ao alcance dos nossos bolsos com a classe e a criatividade do argelino seria bem mais complicado.
O problema é que estão os dois em fim de contrato. Como estou certo que há todo o interesse em que renovem o contrato, não duvido que as suas exigências financeiras não sejam razoáveis face à nossa realidade.
Assim sendo, estou certo que não apareceram propostas razoáveis para que fossem para outros clubes. É que, lá está, não se compreenderia que por causa de uma única época arriscássemos a que ambos saíssem no fim do contrato sem que o clube ganhasse algum dinheiro - e num caso até pagando.
Repito e repetirei as vezes que forem precisas, uma época não pode pôr em causa o futuro próximo. Nós ficaremos sempre no nosso lugar, os profissionais, sejam eles quais forem, passam.
Seja como for, quero acreditar que o FC Porto ainda conseguirá renovar com os dois até Janeiro. Será bom para o brasão abençoado e ótimo para o Brahimi e o Herrera.
Os dois piores jogos
AS duas piores exibições que o FC Porto fez desde que o Sérgio Conceição é treinador do clube foram nas duas últimas semanas. Mais do que os nossos adversários terem recuperado de dois golos de desvantagem, o que me preocupou foi a apatia de alguns jogadores (o melhor exemplo foi o do capitão Herrera), nervosismo de uns (em Aboubakhar isso foi claro) e a falta de forma de outros (Sérgio Oliveira, o caso mais flagrante). Tudo isto resultou numa preocupante perda sistemática nos duelos individuais, num jogo esticado mas sem agressividade o que resultou em perdas de bola sistemáticas.
Nada indica que a equipa tenha, em termos técnicos e táticos, perdido as características que a levaram à vitória no campeonato e prefiro mil vezes que estes percalços surjam quando ainda há muito tempo para os corrigir. Mas, claro, um adepto vive preocupado.
O que não me parece razoável é partir imediatamente do princípio de que o plantel não é suficiente por causa destes dois resultados. Com os jogadores que entraram em campo, o FC Porto tinha mais do que obrigação de ganhar os dois jogos e fazer exibições minimamente convincentes.
O que é mais do que razoável é exigir a todos os jogadores o mesmo empenho e a mesma intensidade que demonstraram o ano passado. Com o excelente trabalho do nosso treinador, com o mesmo modelo de jogo e com a mesma entrega será muito difícil pararem a nossa equipa.
Foram só dois maus dias, estou certo.
A SAD arguida
GOSTO demasiado de viver em democracia para não condenar ninguém com base numa acusação e muito menos numa suspeição. Sei bem quanto custou a gerações e gerações conquistar um direito tão básico como a presunção de inocência. Não sei, portanto, se a SAD do Benfica é culpada dos crimes de que é acusada. Para mim, até ao trânsito em julgado de uma sentença, é inocente.
Há, porém, dois pontos deste processo que me deixam perplexo.
A primeira, o rápido abandono do tema por parte da esmagadora maioria da comunicação social. Convenhamos, não é exatamente todos os dias que uma organização da importância da arguida é acusada de crimes. Esperava mais investigação, mais análise, mais perguntas. Em resumo, mais importância ao tema.
O segundo, a alegação de desconhecimento, por parte dos administradores da SAD arguida, das atividades de Paulo Gonçalves. Repito, não sei se foi cometida alguma ilegalidade ou não, mas dizer que esse indivíduo não era - e, pelos vistos, continua a ser, basta ver a sua presença nas reuniões da Liga - alguém importante dentro da estrutura da arguida é, no mínimo, insultar a inteligência das pessoas.