Arbitragem: do pedido de «juízo» à reunião a dois na Amadora
O documento sobre suspeitas de fugas de informação e influências nas nomeações de arbitragem no futebol em análise na Polícia Judiciária, citado esta segunda-feira pelo jornal Público, contém dezenas de alíneas com alegados factos e acontecimentos.
Além dos vários que já foram citados pelo diário generalista, ganha relevância um em particular, que diz respeito a uma reunião a dois mantida entre Luciano Gonçalves, presidente do Conselho de Arbitragem da FPF, e Paulo Lopo, líder da SAD do Estrela da Amadora.
De acordo com a exposição, a 29 de maio, quando já circulava entre vários protagonistas a informação de que teria havido fugas de informação em relação a nomeações para jogos do Estrela, o presidente do CA deslocou-se ao Estádio José Gomes, na Reboleira, para uma reunião com Paulo Lopo «de modo a esclarecer toda a situação». Neste encontro, o presidente do Estrela terá sublinhado nunca ter realizado qualquer pedido específico em relação a árbitros para os jogos da equipa tricolor (que na altura lutava pela manutenção na Liga) e ter tomado conhecimento das referidas nomeações» através de Pedro Garcia.
Pedro Garcia, ex-árbitro assistente, é peça central nesta história, apontado como intermediário entre o CA, os árbitros e o Estrela da Amadora. Na denúncia recebida pela PJ (documento diferente do entregue pela própria FPF ao Ministério Público aquando da demissão de Duarte Gomes) está escrito que Pedro Garcia sabia antecipadamente, por exemplo, de uma reunião marcada na FPF entre Duarte Gomes, Luciano Gonçalves e o árbitro Hélder Malheiro. Antes deste encontro, Garcia terá ligado «cinco a sete vezes» a Malheiro aconselhando-o a «ter juízo, para não prejudicar a sua eventual carreira como VAR», e a «pensar na família».
O autor ou autores da denúncia entregue na Gomes Freire anotam com estranheza «o facto de, mais uma vez, Pedro Garcia estar a par das diligências (...) e condicionar o rumo das mesmas em defesa de Luciano Gonçalves».
No que respeita à reunião entre Luciano e Lopo, a exposição lembra que «de acordo com as boas práticas, qualquer reunião formal entre um presidente de Conselho de Arbitragem e um dirigente ou dirigentes de clubes/sociedades desportivas devem ocorrer de modo e em ambiente estritamente institucional, nomeadamente com marcação prévia, na sede da Federação Portuguesa de Futebol, e na presença de elemento(s) do Conselho de Arbitragem e/ou da Direção Técnica Nacional de Arbitragem».
Contactada por A BOLA, fonte da Polícia Judiciária confirmou «que a denúncia foi feita ao Ministério Público que delegou as diligências de investigação à PJ», estando as mesmas em curso.
Tentámos também conhecer a versão de Luciano Gonçalves e de Paulo Lopo aos factos agora noticiados. O presidente do Conselho de Arbitragem da FPF prefere manter-se em silêncio, já o líder do Estrela da Amadora afirmou, em contacto com A BOLA, que «não existiu nenhuma reunião com Luciano Gonçalves no Estádio José Gomes».