Anísio Cabral e Stevan Manuel sagraram-se campeões do mundo de sub-17 por Portugal. Foto: IMAGO
Anísio Cabral e Stevan Manuel sagraram-se campeões do mundo de sub-17 por Portugal. Foto: IMAGO

Anísio Cabral: uma «alegria grande» que começa a contagiar o Benfica

A BOLA esteve na Alta de Lisboa, bairro onde o promissor avançado do Benfica deu os primeiros pontapés na bola, tal como Stevan Manuel, outra águia com estatuto de campeão europeu e mundial de sub-17

Foi no coração do bairro da Alta de Lisboa, entre a azáfama do aeroporto Humberto Delgado, prédios a perder de vista e a energia viva do futebol de rua, que Anísio Cabral começou a dar os primeiros toques na bola. A BOLA visitou as raízes do jovem avançado, que marcou na estreia pela equipa principal do Benfica, mas ao percorrer as ruas do bairro, e ao visitar o clube que o transferiu para o Benfica, conheceu também a história paralela de outra promessa das águias, outro campeão europeu e mundial de sub-17. 

Anísio e Stevan Manuel começaram a jogar no União Desportiva Alta de Lisboa, e logo começaram a dar nas vistas. Nélson Lemos, presidente do clube lisboeta, recorda-se perfeitamente do dia em que chegaram. «Os primeiros passos deles foram como os de tantos outros. Apareceram aqui nas captações, pediram para treinar, treinaram e, no final, o feedback do treinador foi muito positivo logo. Depois, iniciámos o processo com eles. Chegaram aqui com 8 ou 9 anos e via-se que tinham algo de especial. Tanto nos treinos como nos jogos, mostraram logo qualidade. Depois, traziam o futebol de rua, que traz uma imprevisibilidade que hoje muitos atletas não têm», conta. 

«O Anísio era um jogador que tinha uma alegria grande e isso transparecia para o campo. Era muito criativo e um finalizador nato. Fazia parte dele. Ele pegava na bola e, em duas oportunidades, metia dois golos», disse o dirigente sobre o ponta de lança, revelando, de seguida, uma curiosidade sobre Stevan relacionada com o tio... campeão da Europa por Portugal: «Gostava de jogar a médio-centro. Como é sobrinho do Renato Sanches, muitas vezes até pedia para jogar naquela posição. Era um poço de força no meio-campo, ganhava todos os lances como se fossem o último do jogo, do princípio ao fim. E continua com essas qualidades.»

Também Pedro Araújo, treinador da equipa sénior do Alta e que os conhece desde pequenos, assistiu de perto ao crescimento dos dois. «O Stevan foi aluno na escola onde eu trabalhava e estive com ele desde a pré-primária a acompanhar o desenvolvimento dele até hoje. É um miúdo muito esforçado e que sempre soube exatamente aquilo que queria, portanto, todos sabíamos que ia vingar e ainda tem muito pela frente para conquistar», relembrou.

«O Anísio conheço-o também desde muito pequeno. O irmão dele era meu jogador e ele aparecia nos treinos e ficava ali connosco. Como morava aqui perto, acabámos por acompanhá-lo e perceber que o crescimento dele futebolisticamente foi absurdo. E hoje é o que é. Provavelmente, o futuro da nossa Seleção na posição de ponta de lança», acrescentou, destacando as características de ambos.

«O Stevan já mostrava muito porte físico e, principalmente, atitude competitiva. É um jogador que sempre demonstrou, desde muito pequeno, uma capacidade grande. O Anísio foi crescendo com o tempo. Era um jogador que no início não mostrava tanto essa aptidão, mas depois, à medida que a idade foi avançando, ele foi crescendo e hoje em dia é um jogador excecional», considerou.

A festa do golo de Anísio Cabral (Portugal) na final do Mundial sub-17 - Foto: FPF
A festa do golo de Anísio Cabral (Portugal) na final do Mundial sub-17 - Foto: FPF

Nunca deixaram de ser bons miúdos enquanto se tornavam grandes jogadores

O testemunho de Tiago Carmo, antigo treinador e coordenador da Escola Benfica Alta de Lisboa, ajuda a explicar por que estes dois jovens sempre se destacaram: «Para além da diferenciação técnica, cognitiva e física, o que sempre distinguiu o Anísio e o Stevan era o prazer genuíno de jogar futebol. Divertiam-se, competiam, ajudavam-se. Eram solidários, corajosos, humildes e mostravam um sentido de gratidão enorme pelo clube e por quem os acompanhava. Nunca deixaram de ser bons miúdos enquanto se tornavam grandes jogadores.»

Nélson reforça essa dimensão humana: «Eram miúdos humildes, miúdos do bairro, supertranquilos. Faziam bom ambiente, não só pelas qualidades que acrescentavam, mas também quando estavam no balneário.»

O salto

Com talento tão evidente, o salto para um patamar superior tornou-se inevitável. A ligação entre o Alta de Lisboa e a Escola do Benfica tornou a transição ainda mais natural. «Sendo uma franchising do Benfica, nós temos certas situações contratuais e uma delas é o facto de nós privilegiarmos e termos uma relação muito próxima diária com a prospeção do Benfica. Então, qualquer jogador que apareça aqui, temos o dever de informar logo o Benfica», explicou o presidente. 

Stevan chegou ao Benfica em 2017. Foto: Benfica

Perante essa proximidade, e com a qualidade que ambos já demonstravam, a mudança foi imediata. Anísio foi em 2016, um ano mais cedo do que Stevan. «Já saíram daqui muitos jogadores para vários clubes e, nesses casos, não houve dúvidas, ficaram logo lá, tanto o Stevan como o Anísio», prosseguiu o dirigente. 

O resto seguiu o curso natural. Depois da saída para o Benfica, percorreram todos os escalões de formação, acumulando títulos atrás de títulos: foram campeões nacionais de iniciados, juvenis e juniores. Do lado das águias, a aposta é clara — apesar da tenra idade, ambos já assinaram contratos profissionais, sinal de que o clube acredita firmemente neles. Agora os dois amigos têm alternado sobretudo entre a equipa de juniores e os sub-23, mas Anísio já alcançou a tão desejada estrreia na equipa principal, e logo a marcar.

«Logo que soube que o Anísio tinha sido convocado, quis estar presente no estádio, pois em momento algum duvidei de que, se ele entrasse, iria marcar golo. E, de facto, foi o que aconteceu. Para mim, que fui diretor da Benfica Escola de Futebol Alta de Lisboa, e hoje presidente do Clube Alta de Lisboa, foi de facto um enorme orgulho ter cerca de 55 mil adeptos a aplaudirem o nosso Anísio», refere Nélson Lemos.

Anísio assinou contrato profissional em 2024. Foto: Benfica

A explosão no Mundial e o futuro

No Mundial de Sub-17, Anísio e Stevan brilharam intensamente entre a constelação portuguesa que alcançou a glória. O ponta de lança foi o segundo melhor marcador da prova, com sete golos, apenas a um do primeiro lugar, e ficará para a história como o grande herói da final. Já Stevan esteve entre as opções iniciais de Bino Maçães em todos os jogos da caminhada lusa, contribuindo com um tento apontado.

Para Nélson, a prestação dos jogadores não foi surpresa: «Já estava à espera. Eles já tinham dado bons indicadores, por isso já se estava à espera de que iam fazer, tanto um como o outro, um grande Mundial.» 

Pedro viveu tudo intensamente e não esconde a felicidade, mostrando também confiança no futuro dos atletas: «Tive a possibilidade de trocar algumas mensagens com eles, jogo após jogo, e de lhes dar os parabéns no final. É um orgulho poder sentir que um bocadinho de mim esteve com eles.»

Anísio e Stevan entre os nove campeões mundiais do Benfica. Foto: Benfica

«Só não podem parar por aqui. Têm que acreditar muito porque vão lá chegar, sem sombra de dúvida. Os dois têm uma margem de progressão gigante. Têm uma ambição gigante e a vontade que demonstram, não só nos 90 minutos de jogo, mas nas 24 horas é impressionante», afirmou.

Questionado se poderão ser apostas no Benfica, o líder do Alta de Lisboa foi direto: «Porque não? Nos últimos anos já saíram tantos bons jogadores da formação do Benfica e julgo que o Anísio será, obviamente, uma aposta do Benfica, tal como o Stevan. Há que aproveitar a espontaneidade e imprevisibilidade deles na equipa do Benfica

Orgulho em Alta

Com dois campeões do mundo e possíveis futuras estrelas do futebol nacional a teram o carimbo do Alta de Lisboa, Nélson sente esse orgulho de forma especial: «É um orgulho muito grande para mim como presidente. É uma montra para o Alta de Lisboa ser reconhecido que forma muitos jogadores e bem. É um orgulho e é um exemplo, tanto para os seniores, mas também para os jovens, e uma forma de ver que podem chegar lá.»

Complexo Desportivo do Alto do Lumiar, onde joga o Alta de Lisboa. Foto: DR

Já Pedro resume o sentimento numa frase que publicou recentemente e que hoje circula pelo bairro: «O Benfica tem nove campeões do mundo, mas o Alta de Lisboa tem dois.»

«É bom olharmos para estes clubes que às vezes não aparecem tanto, mas que têm um papel fundamental naquilo que é a formação e o transporte dos jogadores para patamares superiores. É muito importante que haja esse reconhecimento muitas vezes, porque o último símbolo onde os jogadores jogam é sempre lembrado, mas o primeiro costuma ser esquecido e é importantíssimo», concluiu o técnico.

Um clube humilde, um bairro vibrante e dois miúdos que cresceram com a alegria do futebol de rua: Anísio e Stevan carregam agora o nome do Alta de Lisboa pelo mundo e o bairro continua a vê-los crescer, com orgulho e a certeza de que esta história ainda agora começou.

Anísio Cabral e Stevan Manuel com a camisola da Seleção. Foto: FPF