Alverca: o dia em que Milinkovic quis 'matar' Paulo Costa
Corria o mês de março de 2000 e o Sporting já tinha deixado para trás uma frase que se cravara na memória dos adeptos durante anos. «Não chega ao Natal», dizia-se.
Os leões, orientados por Augusto Inácio — que substituíra Giuseppe Materazzi no comando técnico —, disputavam a liderança da Liga palmo a palmo com o FC Porto quando receberam o Alverca no Estádio José Alvalade.
Os ribatejanos, sob a orientação de José Romão, realizavam uma época tranquila e contavam com algumas caras conhecidas, como Ovchinnikov e Kulkov (ambos ex-Benfica), Sousa, Nélson Veríssimo, Caneira, Diogo Matos e Nuno Assis — todos com formação nos grandes. No entanto, o favoritismo pertencia por inteiro à equipa verde e branca.
Apesar da expetativa de uma vitória leonina, o apito final trouxe um amargo de boca ao Sporting, que, no termo dessa temporada, viria a sagrar-se campeão nacional, quebrando um jejum de 18 anos. O empate a uma bola permitiu aos dragões distanciarem-se no topo da tabela. A igualdade acabou por saber a pouco aos alverquenses, como recorda Rui Borges, extremo franzino que na altura se destacava nos ribatejanos.«Lembro-me muito bem desse jogo, aliás, como de quase toda a minha carreira. O Sporting tinha uma equipa fantástica, a começar no Peter Schmeichel na baliza, passando por César Prates, Duscher, Pedro Barbosa e Acosta. Na primeira parte, eles adiantaram-se no marcador perto do intervalo, por Edmilson. Nós fomos atrás do prejuízo e empatámos após um canto do Milinkovic e um cabeceamento fantástico do Hugo Costa», relata o antigo futebolista.
O desfecho, contudo, esteve perto de ser favorável aos visitantes: «A partida complicou-se para nós quando o Diogo foi expulso. Mas, depois de eu ter saído para dar lugar ao Paulo Costa, houve um canto a favor do Sporting, nós saímos num contra-ataque rapidíssimo e o Paulo Costa e o Duda ficaram em excelente posição. O Duda estava ainda melhor colocado para marcar, só que o Paulo não lhe deu a bola e rematou ao lado. Poderia perfeitamente ter ficado 2-1 para nós.»
As memórias do antigo extremo estendem-se aos balneários. «No final do jogo, o Milinkovic [pai dos irmãos Milinkovic-Savic] estava louco e queria matar o Paulo Costa por ele não ter passado a bola ao Duda. Tiveram de o segurar — e não fui eu, porque sou baixinho e o Milinkovic é gigante», conta, entre risos, o atual diretor desportivo dos egípcios do ZED FC do Cairo, onde reside há 16 meses. «O José Romão dizia sempre que, se conseguíssemos segurar os grandes nos primeiros vinte minutos, teríamos mais hipóteses de sucesso. Em Alvalade não foi bem assim, mas a verdade é que nessa temporada só perdemos na Luz por 3-2, com um golo do João Tomás vários metros em jogo fora de jogo. Aliás, na primeira volta vencemos por 2-1 o Sporting em casa e eu marquei», rememoria.
A finalizar, aborda um lance de sua autoria. «Ainda na primeira parte fiz uma tremenda maldade ao André Cruz e ao Quiroga, mas não consegui finalizar bem. Porém, o Schmeichel ficou doido da vida e desatou aos gritos com eles dois. Travei um duelo intenso com o César Prates, que era uma mota, e não foi fácil segurá-lo», finaliza.