Algarve, Varandas e AVB: dois tipos de pressão
Enquanto o país desportivo se ia distrair com visitas ao Governo e ao Parlamento, o Algarve serviu de refúgio para a essência do jogo. Ali, no fórum da ANTF, discutiu-se, entre outras coisas, a metamorfose do treinador, que passou de mestre da tática a gestor de ativos financeiros sob pressão constante. A mudança de paradigma na propriedade dos clubes dominou a intervenção de Nuno Espírito Santo, por exemplo. Mas podia ser aplicada a vários outros treinadores, inclusive alguns da nossa Liga.
A «ditadura dos investidores» trouxe um novo e espinhoso dilema: escolher um 11 por valor de mercado. Como gerir a relação com um proprietário que questiona se o jogador Y, que pode ter uma proposta de saída, vai jogar, quando o treinador já escolheu, e sabe, que o X é o indicado para começar frente ao próximo adversário. Isto pode levar a uma espécie de erosão da autoridade técnica e se a derrota chega ninguém vai perguntar ao dono se ele se sente responsável. Pior do que isso, provavelmente nem se importa, desde que aquele ativo afinal tenha rendido bem e o negócio se faça. O treinador moderno não luta apenas contra o adversário; luta contra a folha de Excel do dono do clube..
A ciência também reclamou o seu espaço. A introdução de dados analíticos no treino já não é uma tendência, mas uma linguagem obrigatória e que cada vez mais dá ferramentas ao treinador para ter mais e melhor informação.
Mas o melhor, na minha opinião, ficou mesmo para o fim. Num bom momento de partilha entre homens com a mesma função, Paulo Fonseca revelou as suas inquietações sobre a evolução das pressões homem a homem. Destacou o FC Porto de Farioli como equipa que muda entre a «perseguição» individual e o rigor da defesa zonal com uma fluidez que desafia qualquer preparação prévia.
Rui Borges também contribuiu com o exemplo prático do que foi todo o ciclo Bodo Glimt, fora e casa, e depois Alverca. Seria ótimo perceber também ao pormenor a diferença de preparação que o Sporting teve, por exemplo, para o Benfica (joga apenas segunda-feira) neste pós-seleções.
Depois de tudo isto, não deixou de ser «enternecedor» ver Frederico Varandas e André Villas-Boas, engravatados e solenes, de visita ao gabinete da Ministra do Desporto para discutir o ‘estado a que chegámos’. Ou que eles chegaram. Nesta semana, debateram-se dois tipos de pressão. Homem a homem e a política. Para a primeira, há quem já esteja a pensar como solucioná-la. Para a segunda, duvido que tenha solução possível, ou que até haja vontade para isso.