Alex Merlim - Foto: IMAGO

Alex Merlim: «O mais difícil não foi chegar, foi perceber o jogo»

Há jogadores que se destacam pelo talento. Outros pela inteligência. E depois há aqueles raros que conseguem juntar os dois e acrescentar algo ainda mais difícil de explicar: a maturidade competitiva. Alex Merlim é um desses casos.

Aos 39 anos, o jogador do Sporting com 450 jogos oficiais de leão ao peito, continua a ser uma referência no futsal europeu. Mas a história que o trouxe até aqui está longe de ser linear. É feita de rua, de resistência, de adaptação… e de uma compreensão do jogo que foi evoluindo com o tempo. «Foi tudo muito ‘raiz’», recorda e acrescenta:

− Cresci a jogar à bola na rua com os meus amigos, muitas vezes descalço, sem regras… só pelo prazer de jogar.

É uma imagem quase nostálgica, mas também reveladora. Antes dos pavilhões, antes da tática, antes da exigência, houve liberdade. E houve também derrotas. Conta, entre risos:

− Lembro-me do meu primeiro jogo. Tinha 8 anos, jogava contra miúdos mais velhos… perdemos 11-1. Mas fiz o único golo e foi um golaço.

O resultado perdeu-se no tempo. O momento fica gravado para sempre. Foi assim que começou.

Hoje, olhando para o jogador que é, custa imaginar que nem sempre foi escolha óbvia. Admite:

− Na escola, era muitas vezes o último a ser escolhido nas aulas de Educação Física.

Um detalhe que diz muito. Não o travou. Muito pelo contrário, moldou-o:

− Isso marca, claro… mas também ensina.

E ensinou sobretudo uma coisa: persistência. Houve momentos em que desistir parecia uma possibilidade real, mas nunca foi uma opção. Desde cedo assumiu um compromisso claro consigo próprio - não abdicar do caminho, acontecesse o que acontecesse.

Muito novo começou a jogar com seniores. E aí o jogo mudou por completo. Diz sem rodeios:

− Levei muito ‘pau’. Jogadores mais fortes, mais experientes… obrigaram-me a crescer rápido.

Não só fisicamente. Sobretudo mentalmente. Essa base continua visível hoje. Na serenidade com que joga. Na forma como decide e como desfruta do próprio jogo. Na maneira como parece sempre ter mais tempo do que os outros.

Durante muito tempo, Merlim acreditou que o seu caminho seria o do jogador imprevisível, focado no um contra um, na criatividade individual. Mas o jogo ensinou-lhe outra coisa. Explica:

− Hoje vejo o futsal de forma diferente. O que faz a diferença é o coletivo.

O talento manteve-se, mas foi enquadrado, refinado, tornado útil em todas as dimensões do jogo. A forma como lê o jogo nasce dessa evolução:

− Em espaços curtos, não pode ser só instinto. Tem de ser inteligência. É perceber o que o jogo está a pedir naquele segundo.

Inteligência contextual no seu estado mais puro. Não se trata apenas de jogar bem. Trata-se de jogar de forma eficiente. E isso reflete-se nos números, frequentemente entre os jogadores com mais assistências, mas, sobretudo, na influência silenciosa que tem no jogo:

− Posso assistir muito… mas isso não vale nada se a equipa não ganhar.

No Sporting, ganhar não é objetivo. É ponto de partida. Explica:

− Mais do que ganhar, é ter mentalidade de campeão todos os dias.

Quando ganham, celebram. Quando perdem, refletem e seguem. Não há espaço para extremos. Nem para conforto. Nem para dramatismo:

− Ganhar não é um momento. É um hábito.

E depois há algo que não se explica - sente-se:

− Gostava que um dia todos pudessem sentir o que é ser Sporting. É uma exigência enorme… mas também uma das maiores alegrias do desporto.

Quando chegou a Alvalade, aos 29 anos, Merlim já era um jogador feito. Internacional pela Itália, experiente, com títulos no currículo. Mas o jogador de hoje é outro. «Sou mais completo», diz. Na altura, era mais explosivo, mais direto, mais focado no risco. Hoje, escolhe melhor. Pensa mais. Decide melhor:

− Há jogos que pedem risco. Outros pedem controlo. É preciso saber ler esses momentos.

A idade tirou-lhe alguma velocidade, mas deu-lhe algo mais valioso: clareza. Explica:

− Hoje jogo mais com a cabeça do que com o impulso.

E isso, no futsal moderno, é muitas vezes a diferença entre jogar… e dominar.

Um dos capitães no Sporting, capitão na seleção de Itália, Merlim não encaixa no estereótipo do líder de discursos inflamados. «Não é o meu perfil», admite. A sua liderança é discreta, mas constante: diária, feita de exemplo, detalhe e exigência. No clube, constrói. Na seleção, condensava. Em ambos os contextos, a lógica é a mesma: fazer a equipa crescer.

Com tanto conquistado, a pergunta surge naturalmente: o que falta? Sem hesitar: «Tudo de novo.» No desporto, o passado não joga. Não garante nada. Cada época começa do zero. Cada jogo exige tudo outra vez. A seleção ficou para trás, encerrou o ciclo no Campeonato Europeu’26, uma etapa encerrada com orgulho. Mas o presente continua cheio. E esse tudo de novo pode estar já à porta. No dia 8 de maio, em Pesaro, em Itália, o Sporting enfrenta o Cartagena na meia-final da Liga dos Campeões… Um palco maior, uma exigência máxima, e mais uma oportunidade de recomeçar aquilo que, no fundo, nunca para: a busca insaciável por mais um título europeu.

Enquanto houver jogo, há um objetivo por lutar. Enquanto houver equipa, há uma missão. E enquanto houver espaço, mesmo que mínimo, haverá alguém como Alex Merlim capaz de o encontrar antes dos outros. Não por instinto. Mas por inteligência.

Se lhe perguntam que mensagem deixa aos mais novos, não inventa. Responde com o que diz ao filho: «o caminho não tem um segredo, mas está longe de ser fácil.» A base de tudo, explica, é a força de vontade. Haverá dias em que não apetece, em que o corpo está cansado e em que parece que nada acontece: «É aí que muitos ficam pelo caminho. Quem quer chegar mais longe tem de continuar mesmo assim.» Mas o trabalho não se esgota no treino. Alimentação, descanso, prevenção - tudo conta: «O corpo é a ferramenta, e se não cuidarmos dele, mais cedo ou mais tarde vai ceder.»

Há também sacrifícios invisíveis: fins de semana, saídas, momentos com amigos:

− Há que focar no que realmente queremos e abdicar de muita coisa. E isso custa. É nesses momentos que se define quem continua e quem fica pelo caminho.

E depois há as oportunidades. Mesmo as mais pequenas: «Às vezes surgem num jogo que ninguém vê. Mas é aí que muitas portas se abrem. A atitude, a determinação, o compromisso de dar tudo tem que estar presente sempre, independentemente da importância do jogo.»

Um último conselho: saber ouvir. Pais, treinadores, os mais velhos: «não sabem tudo, mas têm experiência e podem evitar muitos erros.» No essencial, resume sem rodeios: não há atalhos. Há trabalho, consistência e lucidez. Não é fácil. Mas é possível para quem realmente quer.

No fim, tudo se reduz a uma ideia simples: o talento pode abrir portas, mas é a forma como se entende o jogo, e a vida, que define até onde se chega. Entre a rua e os grandes palcos, Alex Merlim construiu mais do que uma carreira: construiu uma forma de estar. E essa, mais do que qualquer título, é a marca que fica.

Nota final: Um obrigado especial ao Alex Merlim pela colaboração neste artigo.

«Liderar no Jogo» é a coluna de opinião em abola.pt de Tiago Guadalupe, autor dos livros «Liderator - a Excelência no Desporto», «Maniche 18», «SER Treinador, a conceção de Joel Rocha no futsal», «To be a Coach», «Organizar para Ganhar» e «Manuel Cajuda – o (des)Treinador».