Afinal os doces de Natal influem ou não no rendimento desportivo?
Após as festas de fim de ano, marcadas por mesas fartas, encontros familiares e horários menos rígidos de treinos, alguns atletas deparam-se com um aumento de peso que não deveria acontecer. Mesmo que os ganhos de peso sejam ligeiros, podem ter impacto no rendimento em campo. Aumento da massa gorda, menor capacidade aeróbia e maior risco de lesão são algumas das consequências apontadas, sobretudo em modalidades desportivas que exigem constante resistência e rapidez de recuperação.
Apesar de ser um fenómeno recorrente após as festividades, o ganho de peso entre futebolistas é considerado controlável. Após o reinício dos trabalhos, os clubes intensificam o controlo físico e ajustam os planos de treino. A chave está na disciplina individual durante as pausas e no rápido retorno aos hábitos profissionais, lembrando que, no futebol de alto rendimento, cada detalhe pode fazer a diferença dentro de campo. Caso contrário, o aumento da massa corporal promove maior sobrecarga sobre as estruturas osteomusculares e os jogadores estarão mais perto de lesão e de um rendimento inferior ao habitual.
Sendo este assunto sensível para muitos, o atacante norueguês Erling Haaland, do Manchester City, ironizou as declarações do técnico Pep Guardiola sobre o possível aumento de peso dos atletas no período de festas. O melhor marcador da atual edição da Premier League seguiu à risca o plano estabelecido, até porque sabia que o técnico iria monitorizar de perto o peso dos jogadores, no sentido de decidir se estavam preparados para o próximo jogo. Quem chegasse com três quilos a mais, sabia à partida que não iria ser convocado. O técnico espanhol sabe bem que baixos níveis de atividade física combinados com a ingestão alimentar acima do gasto energético diário ao longo de períodos prolongados precedem o ganho de peso e promovem o aumento da gordura corporal. Ter o compromisso dos jogadores no contínuo empenho extra-treino no centro de estágios é essencial para o sucesso desportivo de qualquer equipa.
No que diz respeito à pausa para férias de inverno, que nos países europeus coincide com a época natalícia e final do ano civil, a forma como é considerada tem vindo a ser motivo de análise. Estudos científicos referem que equipas de futebol de elite que não têm pausa de inverno perdem em média mais atletas devido a lesão, comparativamente às equipas que têm. Esta análise foi realizada entre 35 equipas profissionais europeias. A carga média de lesões foi de 185,9 dias perdidos/1000 horas (1300 dias perdidos por época) para equipas sem pausa de inverno e 127 dias perdidos/1000 horas (888 dias perdidos por época) para equipas com pausa de inverno. Por outro lado, as equipas sem pausa de inverno tiveram uma média de 1,6 lesões graves por época, ao passo que a incidência correspondente para equipas com pausa de inverno foi de 1,1. Se a fadiga e a falta de recuperação são uma das razões para esta diferença, pode-se especular que as férias de verão são demasiado curtas para uma recuperação total após 11 meses de atividade. O período de preparação de seis semanas antes da época pode também ser demasiado curto para preparar os jogadores a suportar o peso que lhes será imposto durante a época competitiva, especialmente porque muitas equipas de topo dedicam parte da pré-época a digressões promocionais associadas a viagens de longa distância num curto espaço de tempo.
A combinação destes fatores pode explicar porque as equipas sem pausa de inverno e com um curto período de preparação para a pré-época podem ter jogadores cronicamente fatigados e mais lesões como resultado. Faz mais sentido ser como o técnico Guardiola e impor uma cultura individual de responsabilidade, do que não dar uns dias em família e com direito a umas calorias a mais, de forma ponderada.
Devo confessar que os jogadores que mais admiro e dos quais mais desfrutei do gosto de ver e discutir futebol, têm o mesmo nome: Ronaldo. O Cristiano continua preocupado ao milímetro com todos os detalhes que podem interferir com o seu rendimento desportivo e tem o seu nome gravado de forma inequívoca no futebol como um dos melhores de sempre. Para mim, o melhor.
O outro Ronaldo, o Fenómeno, ficou aquém de todo o seu potencial, provavelmente pelos seus sucessivos problemas físicos e excesso de peso na segunda metade da sua carreira. O excesso de peso, aliado às limitações impostas pelas lesões, afetou a regularidade do seu rendimento e obrigou a uma adaptação do seu estilo de jogo. A trajetória de Ronaldo ilustra de forma clara como as exigências físicas do futebol de alto nível podem marcar, de forma irreversível, a carreira de um atleta, mesmo quando se trata de um grande talento.
O futebol praticado atualmente impõe aos jogadores um elevado grau de exigência física, onde a preparação atlética e a alimentação equilibrada assumem um papel central. A velocidade do jogo, a intensidade dos duelos em campo e a crescente quantidade de compromissos competitivos tornam indispensável um controlo rigoroso do peso corporal, essencial para garantir altos níveis de rendimento, acelerar a recuperação entre partidas e reduzir o risco de lesões. Apesar dos avanços na ciência do desporto e no acompanhamento individualizado, persistem casos de futebolistas que revelam dificuldades na gestão do peso. Este fator pode afetar diretamente o desempenho em campo, influenciar a consistência das exibições e condicionar as opções técnicas das equipas. Num contexto cada vez mais profissional, o equilíbrio entre forma física e disciplina alimentar continua a ser um dos grandes desafios do futebol contemporâneo.