Adil Rami é agora estrela de teatro: «Não decorava um texto desde o segundo ano»

Ex-jogador que passou pelo Boavista está numa peça em Paris

Adil Rami, campeão do mundo de 2018, e que passou pelo Boavista em 2020/2021, surpreende novamente ao estrear-se como ator na comédia de sucesso «Le Jeu de la Vérité («O jogo da verdade», em português»), em exibição no Apollo Théâtre, em Paris. Depois de ter participado no programa «Dança com as Estrelas», o antigo defesa francês abraça agora um novo desafio no mundo do espetáculo.

Rami em ação pelo Boavista em fevereiro de 2001: Foto - A BOLA
Rami em ação pelo Boavista em fevereiro de 2001: Foto - A BOLA

Adil Rami é a figura principal da peça de Philippe Lellouche, onde interpreta Antoine, um diretor comercial divorciado e com dois filhos. A trama desenrola-se durante um jantar de reencontro com os dois melhores amigos do liceu, Tom (Rudy Doukhan) e Éric (Sam Lellouche), que é subitamente alterado pela chegada de Margaux (Manon Sachot), a rapariga mais popular da escola na altura.

A estreia, que decorreu no passado dia 21 de janeiro, foi um sucesso, com os 300 espetadores a aplaudirem a performance do antigo futebolista. O público mostrou-se cúmplice e recetivo à nova faceta de Rami.

O antigo internacional francês, com 36 internacionalizações, que foi campeão do mundo em 2018 sem ter jogado um único minuto na Rússia, encara este desafio com a mesma determinação que o caracterizou nos relvados. O ex-jogador - terminou carreira em 2023 no Troyes - que também venceu a Liga Europa em 2016 com o Sevilha, explicou a sua transição de carreira.

«Fui autodidata em tudo e gosto de estar onde não me esperam. Depois do «Dança com as Estrelas» tive propostas para filmes, mas não queria fazer figuração ou que usassem o meu nome como pretexto», afirmou Rami ao jornal L´Équipe.

Com 40 anos, confessou a necessidade de adrenalina e de novos desafios. «Sempre precisei da minha dose de adrenalina. Antes, no futebol, usava o meu físico e deixava o cérebro em repouso. Com o teatro, despertei-o. Já não decorava um texto desde o segundo ano!», revelou, acrescentando que teve apenas dois meses para se preparar, um período que considerou «muito curto».

Para memorizar as falas, Rami recorreu a métodos pouco convencionais, como consultar o ChatGPT para obter técnicas de memorização, e ensaiou com as irmãs, Feda e Nadia, e com um amigo, Ahmed. A preparação foi ainda mais exigente por ter de a conciliar com as funções de capitão da equipa francesa na Kings League, o que implicou viagens ao Brasil.

«Assim que li o guião, mergulhei de cabeça. Criei um plano», revelou. O método de trabalho foi meticuloso: «Aprendi frase a frase, primeiro devagar e depois acelerando. Sublinhava as grandes falas a marcador vermelho e as pequenas a amarelo para alternar o tom, jogar com o ritmo, terminar em cima ou em baixo. Depois veio o posicionamento, a encenação para coordenar a representação».

Recorde-se que a carreira de Adil Rami foi tudo menos convencional: de aprendiz de mecânica a jardineiro em Fréjus, tornou-se futebolista profissional aos 21 anos no Lille, clube com o qual foi campeão francês em 2011, sem nunca ter passado por um centro de formação. Agora, o antigo defesa continua a sua carreira como comentador desportivo aos domingos no canal Ligue 1+.

A peça foi representada mais de mil vezes desde 2004 e adaptada ao cinema em 2014. Rami encara esta oportunidade como uma «assistência para golo» oferecida por Philippe Lellouche, um dos criadores originais da obra.

A sua colega de elenco, Manon Sachot, admitiu que nem sabia quem era Adil Rami quando foi informada de que iria contracenar com ele. «Quando me disseram que ia fazer a peça com o Adil Rami, nem sabia quem ele era», confessou. No entanto, a atriz ficou rapidamente impressionada: «Descobri uma pessoa que trabalha muito e levou o seu papel muito a sério. Trabalhámos como loucos, quatro a cinco horas por dia.»

Quando vejo a minha cara num cartaz no metro, alucino

Rami, que só tinha ido ao teatro uma vez na vida — para ver «Le Prénom» com a seleção francesa a caminho do Euro 2012 —, confessou a sua inexperiência ao encenador. «Disse ao Philippe que não tinha bases nenhumas, que ia ser complicado, que partia do zero», recordou. A resposta do encenador foi tranquilizadora: «Ele respondeu-me: 'No teu meio, quando vês um jogador, tu sentes. Sabes se ele vai ser bom ou não. Para mim, é igual com um ator'». O ex-jogador ainda se surpreende com a nova realidade: «Agora, quando vejo a minha cara num cartaz no metro, alucino! Estou sempre a espantar-me».

Quando estava na seleção francesa, adorava filmar os anúncios em Clairefontaine, queria mesmo fazê-los todos

Inspirado por Éric Cantona, outro futebolista que transitou para a representação, Rami sonha agora em seguir os passos de Jean Dujardin. O antigo defesa recorda o seu gosto pelas câmaras durante o seu tempo na seleção. «Quando estava na seleção francesa, adorava filmar os anúncios em Clairefontaine, queria mesmo fazê-los todos», afirmou, acrescentando com humor: «Vocês, os jornalistas, foram o meu primeiro público nas conferências de imprensa. Sempre gostei de brincar convosco!».

O ex-futebolista espera agora receber a visita de figuras do futebol francês no teatro, incluindo o selecionador Didier Deschamps e antigos colegas da campanha vitoriosa no Mundial da Rússia, como Olivier Giroud, Paul Pogba, Raphael Varane e Florian Thauvin, que já prometeram marcar presença.