Real Madrid vem a Lisboa buscar Mourinho!
Virá desde logo porque José Mourinho é, muito provavelmente, um dos dois ou três nomes que pairam na cabeça de Florentino Pérez. É público o respeito, a admiração e até o desejo antigo do presidente do Real Madrid em voltar a ver Mourinho a liderar os blancos. Depois do jogo da última quarta-feira para a Liga dos Campeões, essa ideia ganhou, inevitavelmente, ainda mais força.
Mourinho e o Benfica venceram o Real Madrid por 4-2, com todas as estrelas espanholas em campo. Mais do que o resultado, foi a forma. Tão clara que Kylian Mbappé admitiu que, ao intervalo, o Real podia estar a perder por 5-1 sem que isso surpreendesse alguém, tal foi a superioridade encarnada. Foi uma lição tática de Mourinho, daquelas que dispensam grandes floreados teóricos para serem compreendidas. Estava à vista de tudo e todos.
A imprensa espanhola foi inequívoca. A Marca escreveu que Mourinho «tirou as cores ao Real Madrid», sublinhando um Benfica dominante que desmontou o plano e afastou os blancos. Na Catalunha, como é habitual, o tom foi ainda mais corrosivo. O Sport falou em «o mestre ridiculariza o aspirante», enquanto o Mundo Deportivo destacou que não foi um simples tropeção, mas «um desastre completo».
Mas esse jogo não se explica apenas pelo banho tático. Explica-se também pela atitude. O último lance da partida diz tudo: Mourinho arriscou sofrer o empate para tentar fazer o 4-2 que garantia a qualificação. Arriscou. Podia ter morrido ali. Preferiu morrer de pé e venceu. No final, falou de emoção, de risco, de futebol vivido até ao último segundo. Falou como alguém que já ganhou e perdeu tudo, mas que continua a sentir o jogo como poucos.
Foi uma noite extraordinária para o Benfica. Antes da quinta jornada tinha zero pontos e ainda faltava jogar com Nápoles, Real Madrid e Juventus. Qualificou-se. Mourinho acreditou quando muitos não acreditavam. E foi também uma grande noite para o futebol português, com Benfica e Sporting a seguirem na Champions e Portugal a ultrapassar a Holanda no ranking da UEFA, graças também aos brilhantes desempenhos do FC Porto e do SC Braga.
Regressando ao Real Madrid, Álvaro Arbeloa está a prazo. Gosto do espanhol e acredito que pode vir a ser um bom treinador, mas o Real Madrid não é lugar para aprendizagem, precisa de mais para «consumo interno» e para «consumo externo». O clube despediu recentemente Xabi Alonso, cuja tentativa de implementar uma identidade nova acabou por colidir frontalmente com a história e a cultura do clube. O Real Madrid orientado por Xabi Alonso representou uma rutura clara com a sua matriz histórica. Mais do que resultados ou talento individual, o que distinguiu a passagem de Xabi por Madrid foi a forma como o jogo era pensado: menos instinto, menos emoção e mais estrutura coletiva.
Em organização ofensiva, a equipa construía frequentemente num 3-2-5, derivado de um 4-3-3 ou 4-2-3-1 defensivo. Um dos laterais baixava para formar uma linha de três, o outro projetava-se no corredor, enquanto dois médios garantiam equilíbrio e ligação. A saída de bola era paciente, mas funcional: atrair pressão para libertar espaço e encontrar o homem livre entre linhas. No último terço, destacava-se a ocupação racional dos espaços, com amplitude bem definida, presença entre linhas e chegadas tardias dos médios à área.
Apesar do controlo, a equipa não abdicava da transição ofensiva, mas só acontecia quando o contexto o permitia. A verticalidade existia, mas era lúcida: acelerava-se se o adversário estava desorganizado, pausava-se se estava recomposto. Defensivamente, o Real apresentava-se compacto, com bloco médio-alto, pressão situacional e clara proteção do corredor central, reagindo de forma agressiva e organizada à perda da bola.
Era um Real Madrid claramente treinador-dependente. Cada comportamento refletia a visão de Xabi Alonso, um treinador que privilegia leitura, posicionamento e inteligência coletiva. O problema é que, historicamente, o Real Madrid construiu-se sobre outros pilares: verticalidade, liberdade individual e capacidade quase instintiva para decidir jogos no aparente caos. Xabi Alonso introduziu uma ideia pouco enraizada na cultura merengue: o jogo como sistema antes do jogo como instinto. A posse surgia como ferramenta de controlo, não como ideologia. Servia para gerir ritmos, proteger a equipa e escolher o momento certo para atacar. Era uma abordagem distante do ADN tradicional do clube.
O maior choque cultural esteve na exigência de disciplina tática num clube de galácticos. Alturas definidas, movimentos coreografados, espaços ocupados com rigor. Este Real Madrid vivia menos do improviso e mais da preparação. Não reagia apenas ao jogo, condicionava-o. Tentou adaptar-se ao treinador. E pagou o preço. Xabi Alonso foi despedido. Mas será que o espanhol é pior treinador do que Zidane ou Ancelotti? Não acho. Os contextos específicos de cada clube importam. O que resulta em Leverkusen pode não resultar em Madrid. O que não resultou em Madrid pode resultar em Liverpool.
O Real Madrid sempre venceu mais pela capacidade de adaptação do que pela fidelidade a um modelo. É por isso que o Real Madrid não precisa apenas de um treinador. Precisa, acima de tudo, de um líder. Num clube onde o talento é abundante e o balneário é um ecossistema de egos, estatutos e histórias pessoais, o essencial não é desenhar sistemas complexos, mas saber gerir seres humanos. Antes de jogadores, há homens. Antes de esquemas, há hierarquias. E antes do jogo, há o clube.
Treinar o Real Madrid é gerir campeões do mundo, vencedores da Champions, candidatos à Bola de Ouro. Não é ensinar futebol – futebol já eles sabem jogar, é canalizar ambição, controlar vaidades e transformar individualidades num coletivo funcional. Resumindo: jogar futebol em equipa. Para isso, é preciso autoridade natural, currículo inquestionável, estatuto e capacidade para tomar decisões duras sem perder o grupo. O Real Madrid não aceita aprendizes. Exige vencedores.
Há clubes que se moldam ao treinador. O Real Madrid não é um deles. Aqui a história pesa, a exigência é diária e o foco é ganhar, sempre. O espetáculo vem depois. A glória constrói-se com resultados, não com intenções. É preciso alguém que, também, saiba jogar sob pressão permanente, vencer em contextos hostis e transformar conflito em energia competitiva.
Mourinho sabe. Mourinho conhece. Mourinho já ganhou tudo. Mourinho não precisa de aprender o que é o Real Madrid, já o viveu. Conhece o Bernabéu, a imprensa, a exigência interna e o peso do emblema. Mais do que um treinador, é um gestor de elites competitivas, um verdadeiro influencer de comportamentos como já o chamei, alguém que protege o grupo por fora, exige por dentro e cria uma mentalidade vencedora - alguém que sabe o que é preciso fazer para vencer.
Se na quarta-feira não ficou ninguém do Real em Lisboa para falar com Mourinho, acredito que não tardará. Alguém virá. Para falar com o Benfica. Para falar com José Mourinho. Para preparar um regresso que faz todo o sentido. A confirmar-se a saída de José Mourinho, a pergunta impõe-se de imediato: quem lhe sucede no banco do Benfica? É um tema que, por si só, daria outro artigo, mas a lógica aponta para um nome que surgiria, quase inevitavelmente, na pole position: Rúben Amorim. Seria, à partida, uma escolha consensual para a direção, para os adeptos e até para o próprio treinador.
Ainda assim, convém não excluir o fator surpresa. O futebol português tem mostrado que os grandes olham cada vez mais para treinadores em clara curva ascendente, mesmo fora do radar mediático imediato. Rui Borges é um exemplo. E há um nome que, estou convicto, já começa a ser pensado para outros patamares: César Peixoto. Discreto, rigoroso, líder, com valores, com convicções e com uma identidade de jogo cada vez mais clara — representa o perfil de treinador que cresce longe do ruído, mas que pode rapidamente entrar nas contas quando os clubes procuram mais do que um nome: procuram uma ideia.
Ideias passam. Os modelos evoluem. O Real Madrid continua a exigir o mesmo de sempre: vitórias. Mourinho é um líder-treinador com vitórias. E seria, acima de tudo, o regresso do português ao lugar que verdadeiramente lhe pertence: lutar pelos maiores títulos do futebol europeu e mundial. Na última quarta-feira, Mourinho não provou apenas que ainda sabe ganhar; provou que continua a saber competir ao mais alto nível — já o tinha provado antes diante do Nápoles — ler o jogo como poucos e liderar equipas em contextos de exigência máxima. Provou o que foi e, sobretudo, o que ainda é: um dos melhores treinadores do mundo.
É verdade que, nos últimos anos, perdeu algum estatuto fruto de erros de casting. Tottenham, Roma e Fenerbahçe foram contextos onde a ambição institucional, a dimensão competitiva e a exigência externa nunca estiveram totalmente alinhadas com o perfil de um treinador que vive e sempre viveu para ganhar tudo. Não diminuíram o treinador. Diminuíram o palco.
O regresso ao Benfica devolveu-lhe esse contexto. Devolveu-lhe pressão, exigência, grandeza e um clube que vive para competir. E Mourinho respondeu como sempre respondeu quando sente que o palco é digno do seu nível: com liderança, com ideias claras e com atitude. Voltou a colocar-se, naturalmente, no restrito grupo dos quatro ou cinco clubes que fazem sentido para um treinador da sua dimensão. Clubes onde ganhar não é um objetivo, é uma obrigação.
E na última quarta-feira, Mourinho não venceu apenas um jogo. Relembrou o futebol europeu de quem é. E talvez tenha lembrado também o Real Madrid de quem realmente precisa. Um clube onde não há tempo para aprender, apenas para decidir e ganhar.
«Liderar no Jogo» é a coluna de opinião em abola.pt de Tiago Guadalupe, autor dos livros «Liderator - a Excelência no Desporto», «Maniche 18», «SER Treinador, a conceção de Joel Rocha no futsal», «To be a Coach», «Organizar para Ganhar» e «Manuel Cajuda – o (des)Treinador».