Tondela fez o que lhe competia - Foto: Paulo Novais/LUSA
Tondela fez o que lhe competia - Foto: Paulo Novais/LUSA

Acreditar é mais simples quando o talento assume a batuta (crónica)

Comandados de Feio jogaram bonito contra Moreirense apático. Sete pontos nos últimos três jogos renovam esperança, mas golo tardio em Guimarães evitou desfecho épico

O abismo estava próximo, mas Tondela é cidade de milagres. O Estádio João Cardoso pintou-se de verde e amarelo e ecoou uma mensagem: acreditem. Gonçalo Feio aceitou o repto e montou uma equipa assente em agressividade, oportunismo e muita crença que venceu o Moreirense por 2-0.

Makan Aiko liderou a revolução beirã que não precisou de ponta de lança. Rony Lopes esteve exímio de costas para a baliza e na ligação entre setores, mas o ouro estava nas alas.

Aiko e Rodrigo Conceição à esquerda e Pedro Maranhão e Tiago Manso à esquerda fizeram a cabeça em água à defesa cónega. A pressão tondelense potenciou o número de erros na primeira fase de cosntrução e entusiasmou as bancadas.

As duas equipas, órfãs de uma presença fixa no centro do ataque, trocaram remates exteriores nos primeiros minutos da partida, antes do golo que baralhou as contas da manutenção. Juan Rodríguez foi importantíssimo a fechar o corredor central defensivo beirão, mas mostrou que com a bola nos pés também faz a diferença.

O médio equatoriano chamou Pedro Maranhão ao jogo com uma variação de jogo deliciosa, o extremo brasileirão dançou com Francisco Domingues na ala direita e o terceiro milagre ficou mais próximo.

Tiago Manso, muito ofensivo, baralhou marcações com uma simulação que abriu a porta do golo a Aiko. O extremo francês aproveitou a largura dada por Rodrigo Conceição para ocupar terrenos mais interiores e marcar o primeiro golo ao serviço do Tondela, aos 18'. O timing dificilmente podia ter sido melhor.

O golo gaulês foi uma rede de segurança para quem andou a época toda na corda bamba. O Moreirense, algo apático, teve dificuldades para circular o esférico, acumulou remates transviados e sofreu com a verticalidade beirã.

Hugo Félix foi lançador, Aiko o criador de um passe açucarado e Pedro Maranhão... o pecador. A eternidade caiu no colo do extremo brasileiro aos 37', mas o poste rasgou a capa de herói.

O desperdício de Pedro Maranhão não suavizou a avalanche ofensiva beirã, que só o capitão Maracás susteu. O corredor central axadrezado compensou a suavidade nas laterais.

O Tondela resolveu o problema com uma ocupação racional dos espaços, circulação de bola rapídissima... e uma bomba. Rony Lopes ficou a centímetros de um golaço aos 43', mas deixou um aviso na barra: vou voltar.

Vasco Botelho da Costa, insatisfeito com o rumo dos acontecimentos, colocou uma seta, Teguia, e a referência ofensiva, Luís Semedo, em campo ao intervalo, mas a desinspiração foi mal que perseguiu o Moreirense durante toda a partida.

Travassos remou contra a maré no corredor esquerdo, mas faltou magia a uma equipa com qualidade indvidual para encantar. À desinspiração juntou-se a inércia e o resultado... foi o segundo golo do Tondela.

Tiago Manso rompeu pela direita sem qualquer marcação ainda no próprio meio-campo, pareceu algo surpreendido pelo espaço concedido e aproveitou para servir em bandeja amarela e verde Rony Lopes. O avançado de 30 anos correu como quem encontra a felicidade ao fundo do túnel e desferiu um remate que congelou as redes do Moreirense.

A mensagem dos cartazes mostrados aos céus nos primeiros minutos conquistou uma equipa empenhada a sair da zona de despromoção direta, 20 jornadas depois. O destino, ainda assim, tinha outros planos. O golo de Larrazabal aos 86' em Guimarães deu uma vitória importantíssima ao Casa Pia.

Os gansos somam 29 pontos, mais um do que o Tondela que continua em 17.º lugar. A boa notícia? O Estrela está logo ali.

Os beirões visitam o Arouca conscientes de que precisam de ajuda de terceiros para concluírem nova fuga épica.

2016, 2017... e 2026? Acreditar é a palavra de ordem.

O melhor em campo: Makan Aiko (7)

Primeira parte de culto do extremo francês. Aiko aproveitou a ausência de um ponta de lança fixo, a mobilidade de Rony e a largura dada pelo lateral Rodrigo Conceição para deambular por zonas mais interiores. Numa dessas incursões bateu Maracás e estreou-se a marcar numa altura decisiva. Regressou ao corredor esquerdo para cozinhar duas aberturas fenomenais, mas o poste e a defesa dos cónegos evitou males maiores. Virtuosismo é cartão de visita

A figura do Moreirense: Kevyn (6)

Os dois golos sofridos não apagam exibição segura de uma das revelações da temporada dos cónegos. Imperial nos duelos aéreos, beneficiou da ausência de uma referência ofensiva beirã. A inércia nas laterais contrastou com a concentrou do corredor central. Ainda tentou a sorte na bola parada ofensiva (35'), mas rematou à figura. Uma das razões para o resultado simpático para os cónegos.

As notas do Tondela

 Bernardo Fontes (5); Tiago Manso (6), João Silva (5), Christian Marques (5) e Rodrigo Conceição (6); Cícero (6) e Juan Rodriguez (5); Maranhão (7), Hugo Félix (6) e Aiko (7); Rony Lopes (7). Kimpioka (5), Hélder Tavares (5), Hodge (5), Siebatcheu (-), João Afonso (5).

As notas do Moreirense

A reação de Gonçalo Feio, treinador do Tondela

Há que dar valor ao que os jogadores têm feito. Há que agradecer aos adeptos que foram a energia extra, ajudaram muito. Sabíamos que ia ser ate ao fim, que a missão não ia acabar, foram pontos merecidos contra uma grande equipa. Agora é preparar o último jogo para fazer o que nos compete. Os jogadores nem sabiam os outros resultados, foi uma opção. Continuo a dizer que estamos vivos. Conseguimos reagir a momentos difíceis como o 0-2 em Alvalade. Têm tido um controlo emocional muito grande, conseguimos a segunda vitória consecutiva e sem sofrer. Estou muito orgulhoso de ser o treinador deste grupo.

A reação de Vasco Botelho da Costa, treinador do Moreirense

Quem me conhece sabe que tenho muito respeito pelo adversário. O Gonçalo está a fazer um bom trabalho, o Tondela tem boas ideias, mas isto resume-se ao que viemos aqui fazer que foi nad.a. Estou muito triste com a nossa atitude competitiva. Sabíamos que o Tondela estava a lutar pela vida e que quem luta pela vida luta pelo limite. Por mais ajustes que pudesse fazer, deixou de ser importante. Não fomos agressivos, não fomos intensos, não respeitámos o plano de jogo, cada um estava em campo a fazer a sua coisa. Estou triste com a imagem que deixámos aqui, não era de todo o nosso objetivo. Queremos muito ficar em sétimo lugar, felizmente tivemos sorte com o resultado do Vitória [derrota 0-1 contra o Casa Pia]. Menos mal. Mas isto não é o Moreirense que está em sétimo lugar com muito mérito. Estou muito desapontado. Precisávamos de ser competirivo, ganhar mais duelos do que o nosso adversário. Andámos perdidos, parecíamos uns passarinhos dentro do campo, a parte tática torna-se secundária. O tondela faz um bom jogo, merece ganhar, não competimos. Temos sorte em ser só por estes números. O principal problema está na minha mensagem, na minha capacidade de os ligar, temos de conversar; nao é isto que queremos.

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