André Villas-Boas e Frederico Varandas em 2024 — Foto: Miguel Nunes
André Villas-Boas e Frederico Varandas em 2024 — Foto: Miguel Nunes

A propósito de Sporting e FC Porto... «guerra é guerra»

Quem leu no comunicado publicado no sábado que o FC Porto é uma instituição com «um percurso e uma reputação amplamente reconhecidos» nem sabe bem o que pensar

O que se passou, sábado, antes do jogo de andebol entre FC Porto e Sporting fez-me recuar quase 16 anos, ao Algarve, onde encontrei Sven-Goran Eriksson, de bem com a vida, com o lastro de um percurso riquíssimo como treinador e gentleman. Conduziu os leitores de A BOLA pela carreira dele, especialmente pelas duas passagens pelo Benfica, que guardava no coração, e passou pelo balneário nauseabundo das Antas que recebeu os encarnados, em 1991.

Antes do jogo que o Benfica venceu por 2-0, com dois golos de César Brito, o treinador sueco contou que confrontou o presidente do FC Porto apenas com um desabafo. «Hey», soltou, ao mesmo tempo que, com as palmas das mãos para cima, abriu os braços. Disse Eriksson que ouviu: ‘Guerra é guerra.’ Estava tudo dito, não estava?

Não sei se por haver guerras que nos devem preocupar seguramente mais — agora que nos toca no bolso, depois de quase todos ignorarmos sem pingo de sensibilidade atrocidades sem fim à vista — poucas reações houve, até ontem, ao que se passou no Porto. Salvo honrosas exceções, claro. Haverá, entretanto, mais, mas tudo passará.

Para quem está habituado a que tudo se desvalorize, o que se passou no Porto no sábado terá, enfim, sido mais um episódio triste que o contexto da rivalidade servirá para diminuir. Podemos recordar os mais recentes — o árbitro Fábio Veríssimo denunciou que a televisão do balneário do Dragão passou, ao intervalo do jogo com o SC Braga, repetidamente, golo anulado ao FC Porto, além de um lance dele no torneio da Pontinha; ou as bolas escondidas por apanha-bolas no fim do clássico de fevereiro, para não falar das toalhas de Rui Silva.

Sobre o que se passou com o árbitro Fábio Veríssimo, para os mais desatentos, o FC Porto foi condenado pelo Conselho de Disciplina da Federação Portuguesa de Futebol a pagar multa de 12.500 euros. Cada um tire as conclusões que quiser sobre o castigo. Mas alguém poderá arriscar que a piada se faz sozinha.

Para quem chegou até aqui, sabe que se fala das acusações do Sporting sobre o odor intoxicante no balneário que lhe estava atribuído no pavilhão do Porto, confirmado pela delegada ao jogo, Rosa Pontes, em declarações a A BOLA, e que obrigou os leões a equipar-se no corredor. O treinador do Sporting, Ricardo Costa, e o pivô Christian Moga precisaram de assistência médica. A delegada contou que o cheiro intenso lhe provocou «ardor e olhos vermelhos». O FC Porto, em comunicado, desmentiu «de forma absoluta, clara e inequívoca os relatos tornados públicos».

Já aqui tinha chegado quando tomei conhecimento de que o Ministério Público abriu um processo-crime para averiguação ao que se passou no pavilhão do FC Porto. Para todos os envolvidos, só pode ser boa notícia. Que se aproveite a oportunidade para que, desta vez, tudo fique bem claro, que se torne público o que aconteceu e que se aplique a lei, se for o caso, com força e sem olhar a quem. Já uma vez aqui escrevi que a transparência é o melhor desinfectante, embora alguns casos exijam produtos mais agressivos.

Escrevo sem saber o desfecho do que se passou nas audiências, ontem, entre a ministra da Cultura, Juventude e Desporto, Margarida Balseiro Lopes, e os presidentes de Sporting e FC Porto. Não alimento expectativas positivas sobre resultados que esse encontro possam produzir, embora considere importante o passo, por ser o primeiro, que Frederico Varandas tomou.

Sobre o FC Porto, continuaremos à espera que a mudança prometida pelo novo presidente não tenha sido apenas um aroma de perfume fino que disfarçou por pouco tempo um odor insuportável. Quem leu no comunicado publicado no sábado que o FC Porto é uma instituição com «um percurso e uma reputação amplamente reconhecidos» nem sabe bem o que pensar.