A mãe do futebol novo

Mónica Jorge é a linha de referência que manteve ligada uma pequena multidão de sensibilidades, entre jogadoras, treinadores, dirigentes e colaboradores

«Éuma honra  para Portugal este passo inédito, histórico, não apenas no futebol feminino, mas no papel da mulher na sociedade portuguesa», palavras inteligentes de Marcelo Rebelo de Sousa, ditas no Palácio de Belém durante a receção à Seleção Nacional feminina que garantiu a participação  no próximo Campeonato do Mundo, a realizar na Austrália e Nova Zelândia. Quis o Presidente da República estender esta proeza a todas as portuguesas que, no tempo presente, «já representam a maioria do povo português».

Merece ser glorificado este feito desportivo, pelo  que  representa em valorização social e por derrubar mais um preconceito, como assinalou Fernando Gomes,  presidente da Federação Portuguesa de Futebol.   A partir daqui, ninguém  pode dizer que «é um desporto de rapazes ou de homens» porque se abriu um novo e mais ambicioso caminho para «todas as meninas e mulheres que queiram jogar futebol de alta competição» no nosso país.

Por causa de mentes enferrujadas, despertámos tarde e tivemos de acelerar o passo para apanhar o comboio em andamento. Foi uma  aventura complexa que envolveu muita gente dedicada, de certeza, mas permita-se-me, neste ponto de viragem, destacar duas pessoas.

Fernando Gomes, como primeira figura do edifício federativo,  afirmou-se pela  competência, pela visão, pela noção de progresso e de desenvolvimento. Vai ficar na história como o presidente que libertou o futebol português dos grilhões da estagnação, que lhe abriu as portas da era moderna e que lhe deu asas para voar alto, até às vitórias  no Campeonato da Europa e na Liga das Nações, além das fantásticas  conquistas no futsal e no futebol de praia. Elevou a FPF a uma instituição modelar e respeitada em todo o universo FIFA,  motivo  pelo qual o termo do seu terceiro e último mandato deve ser  encarado com apreensão. O futebol não vai acabar, é certo, nem faltarão candidatos ao lugar, mas um sucessor com o prestígio e a dimensão de Fernando Gomes não se encontra ao virar de uma  esquina.

Mónica Jorge é a linha de referência  que manteve  ligada  uma pequena multidão de sensibilidades,  entre jogadoras, treinadores, dirigentes e colaboradores. Apesar da   excelência do  trabalho do atual selecionador,  Francisco Neto, é ela  o elemento comum que emerge até aos dias de hoje, em que se comemora o dealbar de uma realidade que vai acolher todas as meninas deste país, atraídas por um jogo  simples e fascinante. Como a gratidão é um sentimento que muito prezo, realço  o papel da professora Mónica Jorge, discreta, como sempre. O mérito será de muitos, sem dúvida,  mas é ela a mãe do futebol novo que nasceu em Portugal.


A POEIRA DE PC

OVAR entra nos eixos e logo aparece o presidente do FC Porto a dizer coisas e a lançar poeira para nublar o ambiente.   Um instrumento tão útil e aparentemente tão simples de compreender ainda não é manuseado com o rigor que se exige. Se o problema tem mais a ver com a complexidade  técnica do sistema do que com a interpretação dos casos de jogo não vejo por que não contratar pessoal especializado fora da confraria do apito. 

No jogo com o Rio Ave, uma clarinha agressão de Pepe foi transformada em falta a seu favor e com essa engenhosa mudança diluiu-se o penálti  que deveria ter sido marcado contra o FC Porto. No Vizela-Benfica, em lance entre Bah e Osmajic os especialistas deram como certa a entrada faltosa do defesa encarnado, mas as imagens não são conclusivas. Sem certezas, admite-se que ficou por marcar penálti a favor dos vizelenses e por vias tortuosas se compensa um erro com outro erro, para nem dragão nem águia ficarem com razões de queixa. No FC Porto-Gil Vicente, pelo que li,  o VAR esteve quase impecável. Quase, porque lhe escapou um vermelho a Pepe. 


VINÍCIUS E RAFA

JORGE VALDANO escreveu numa da suas crónicas recentes, publicadas em A BOLA, que confunde-se o driblador com um provocador, «como se a habilidade não fosse uma virtude que eleva o jogo, antes  uma humilhação para os rivais  e que autoriza o castigo».

Vinícius (Real Madrid) é «o jogador mais castigado da Europa e recebe tantos ou mais cartões amarelos que os adversários que o marcam». E suscitou uma dúvida para reflexão: «Será que aos árbitros magoam mais os protestos de Vinícius do que as porradas que leva? É a melhor maneira de tornar o futebol mais triste e medíocre.» Porque, vibrando as bancadas dos rivais sempre que o brasileiro é castigado, «mais cedo do que tarde, Vinícius sairá de campo lesionado com gravidade».  

Anteontem, João Bonzinho, diretor de A BOLA, em editorial, lembrou que «Rafa Silva  é um dos jogadores  que mais cartões amarelos (6) já viu  até ao momento na Liga», chegando a parecer  impossível como «resiste a tanta pancada». E lançou um curioso repto:

«Os adeptos que me desculpem, mas desafio-os a considerarem normal  que Rafa tenha, em 16 jogos, visto por seis  vezes o cartão amarelo e, por exemplo, Pepe, em 13 partidas, por duas vezes, e Otávio, em 15 encontros, apenas por uma vez» [Pepe e Otávio somaram mais um amarelo e mais  um jogo, com o Gil Vicente]
Interessante questão para o senhor PC explicar, se quiser e tiver tempo, obviamente.