A inteligência artificial 'desconfia' de José Mourinho
Embalado por uma declaração de Farioli sobre o futebol português poder ser uma série da Netflix, perguntei ao Gemini que série da Netflix poderia assumir por argumento a conferência de imprensa de Mourinho após o empate com o Casa Pia. E todo o contexto do atual Benfica. Foram declarações duras. Do assumir um oficial adeus ao título, passando por críticas à falta de instinto matador da equipa e à ausência de capacidade de dar a vida em cada jogo, em cada lance, por cada ponto. Daí até ter vontade de não utilizar mais alguns jogadores foi um pequeno passo… Paralelamente, o assumir do desejo de ficar no Benfica na próxima época…
O Gemini sugere-me The House of Cards e termina com uma dúvida: «Mourinho quer ficar para reconstruir o Benfica à sua imagem, ou está apenas a certificar-se de que, se o barco afundar, ele será o único a sair com o colete salva-vidas da 'superioridade moral'?» Perante as dúvidas do Gemini - que, falemos honesto, são as dúvidas de muita gente - resolvi não me meter. Responder seria fazer juízos de valor que José Mourinho — por muito que ele se esteja a borrifar para o que penso — não merece. Tem um currículo de fazer inveja e a convocar ao respeito e à admiração.
Por muito que discorde — e não discordo em tudo — da estratégia de comunicação que seguiu após o empate com o Casa Pia — e que não é virgem, basta lembrar os 9 jogadores que lhe apeteceu substituir no jogo com o Atlético, da Taça, e outras críticas à equipa e a jogadores — não posso ser hipócrita. Várias vezes me queixei do discurso amorfo de Roger Schmidt e Bruno Lage. Quando os jogos corriam mal, falavam até de coisas que nem os adeptos do Benfica tinham visto. Criticar agora Mourinho não faria sentido. Mourinho dá muito mais pano do que a maioria dos treinadores. Tem coisas relevantes para dizer. E é inteligente. E às vezes também dá tiros nos pés. E depois?
O norte-americano Simon Sinek, um dos mais impactantes oradores mundiais, é para muitos a maior autoridade moderna na ideia de que o líder é o arquiteto da dedicação extrema. «Quando os líderes criam um círculo de segurança à volta das suas equipas, as pessoas sentem-se seguras. E quando as pessoas se sentem seguras, elas dão o seu melhor, partilham ideias e, se necessário, sacrificam-se umas pelas outras», desenvolveu Simon Sinek. Para quem «a capacidade de uma equipa não é o reflexo das aptidões dos seus membros, mas sim do quão seguros eles se sentem sob a orientação do seu líder.» No fundo, ouso eu acrescentar, a capacidade de morrer pela equipa depende mais da capacidade de o líder inspirar e da cultura criada numa instituição do que dos atributos psicológicos ou de personalidade de cada um enquanto peça individual. É por isso que, citando uma frase muitas vezes atribuída a Alexandre, o Grande, «um exército de ovelhas lideradas por um leão pode vencer um exército de leões liderados por uma ovelha.»
Naturalmente, há ovelhas e leões que não querem ser liderados, há sempre maçãs que não devem estar no cesto. E sim, Mourinho não deixa de ter razão, às vezes é preciso cortar o mal pela raíz para não contaminar. Mas o que ganha a equipa e o que se ganha em eficácia assumindo essa limpeza em público e sem citar nomes? Mesmo dando de barato que, internamente, Mourinho será claro a apontar o dedo aos alvos, que ganha o Benfica com este anátema que coloca tantos jogadores sob suspeita? Que riscos para um plantel que vê um líder lançar alguns dos seus à fogueira, para mais, sem ser claro sobre os alvos? O que ganha o próprio Mourinho ao assumir que as suas escolhas podem não ser apenas técnicas mas também em função de outros interesses que se levantam por estarem muitos milhões em jogo? Se os alvos forem mesmo Rafa, Lukebakio, Barrenechea e Sudakov, mais de 60 milhões, grosso modo…
Atenção: o diagnóstico de Mourinho não foi mal feito. Como pode o Benfica ter desperdiçado a benesse que o Famalicão lhe deu ao empatar no Dragão? Como pode a equipa estar a vencer e sofrer um golo como sofreu com o Casa Pia? Como podem alguns jogadores parecer que não têm pinga de sangue? Mas e onde fica Mourinho no meio disto tudo?
E o que disse Otamendi? Se calhar mais preocupante...
Ao lado passaram as declarações de Otamendi no final do mesmo jogo, quando o capitão do Benfica frisou que a equipa «tem de ter pensamento de clube grande». Devastadora esta frase, porque corresponde a algo que é o pior pesadelo de muitos os que pensam e sentem o Benfica: um clube que foi perdendo cultura de grandeza, que passa pelos títulos mas também por uma identidade, uma forma de estar. Ser grande é a capacidade de entrar em campo com a convicção das inevitabilidades, sendo vencer a maior delas. Ganhar sem jogar bem; levar tudo à frente se preciso for; cair, aleijar e só lamber as feridas no fim: e, se a derrota um dia chegar, sentir a dor dilacerante.
O Benfica atravessa uma crise identitária? Não nos sócios e adeptos. São o Benfica. É internamente que reside a questão. No rumo, na política, na liderança e na cultura de uma instituição. Discutir isso é mais importante que os desabafos de Mourinho. Até para que não possam ser entendidas como por-se a salvo das culpas. Não é justo nem digno de um treinador com a dimensão de Mourinho.
Então e Rui Costa? Ontem, em declarações a A BOLA, limitou-se a lembrar que Mourinho tem contrato e que está em sintonia com ele. Lamentou o empate e exigiu que a equipa se redima. Tudo em 30 segundos. É uma opção válida deixar Mourinho fazer a despesa da comunicação. Mas o que custará mais a Rui Costa é ser a enésima vez que pede desculpa pela equipa e exige resposta a um desaire. As desculpas também se evitam. Com projeto e liderança.